Hegel as a Boy

Abril 2, 2008

Harmonias e Modalidades - II

Arquivado em: Uncategorized — alcvargas @ 2:05 am

Os modos puros da realidade correspondem a o que antes designei como o transcendental enquanto tal. Neles, o transcendental é visado em toda sua extensão, não apenas no modo como ele se dá na realidade, mas também na sua presença ideal, no seu uso passivo, em outros transcendentais. Como ele abrange tanto o uso ativo quanto o uso passivo , ao modo puro de um transcendental corresponde o par formado por ele e o transcendental que ele estrutura.

Há duas maneiras de agrupar os transcendentais dois a dois de modo consecutivo:

(A) (Consciência - Aparecer) (Ser - Logos) (Verdade - Ação)

(B) (Aparecer - Ser) (Logos - Verdade) (Ação - Consciência)

Agora, no diagrama do post passado eu listei junto com os três modos de cada transcendental a ciência de cada um, pois descobri o sistema primeiro como um sistema de ciências e só depois foi que articulei o sistema de transcendentais. Se tomarmos os pares de ciências, temos o resultado notável que os pares (A) compartilham formas de pensar enquanto os pares (B) compartilham objetos:

(A) a psicologia e fenomenologia ambos procedem pela experiência, a ontologia e a lógica ambas são disciplinas formais e a teologia e a ética são reflexões espirituais.

(B) a fenomenologia e a ontologia ambas são ciências sobre o mundo, a lógica e a teologia ambas tematizam o absoluto, seja na forma do princípios do pensamento seja sob o modo do fundamento da existência, e por fim a psicologia e a ética ambas são ciências do ser humano.

Esses raciocínios não podem ser transferidos sem mais para o sistema de transcendentais, porque a ciência associada ao transcendental da verdade, a teologia, toma seu nome do modo puro deste ranscendental, e assim a conexão do transcendental com o modo puro não foi explicada ainda.

Isso na realidade é um ponto muito geral sobre o valor filosófico das harmonias sistemáticas. As harmonias por si só não constituem teses filosóficas. O que elas fazem é indicar relações que precisam ser verificadas e definidas conceitualmente. Algumas harmnoias podem desparecer nesse proceso enquanto novas aparecem. E desse modo o pensamento conceitual a visão das harmonias vão juntos traçando o caminho do sistema. Um pensamento que não aprecia a beleza e a elegância é cego, uma bela construção sem fundamentos é vazia.

Agora, a primeira coisa que podemos observar sobre esses modos puros é que embora cada um corresponda a um par de modos abstratos, o modo abstrato que estrutura o par é o termo focal do modo puro. Alguns exemplos: os fenômenos por si poderiam ser um caos de aparições, mas eles formam um mundo justamente pela sua ligação com o ser, ao qual primeiro pertence a noção de um todo subsistente; a ontologia, por sua vez, somente é um pensamento formal pela sua ligação com as categorias lógicas.

Assim cada modo puro corresponde a um par de modos abstratos, mas tem como termo focal o lado estruturador do par. Esse lado possui no outro um uso passivo, ou uma presença ideal, enquanto no seu próprio domínio ele possui um uso ativo, ou uma presença real.  O modo puro é uma extensão do transcendental estruturante, que abarca tanto o uso real quanto o uso ideal. É o transcendental enquanto tal, em contraste com o transcendental enquanto realidade.

Consideremos como se chega ao modo puro via a suspensão da realidade. O transcendental enquanto tal é aquilo que resta após a suspensão de toda realidade determinada pelo transcendental. Ele é, portanto, algo como uma realidade que não pode ser suspensa. Por outro lado, a suspensão da realidade de um transcendental o reduz a seu papel de ser objeto intencional de outro transcendental, absorbe o uso ativo no uso passivo. (1)

Dito isso, dado um transcendental x que estrutura um transcendental y, aquilo que necessariamente resta após a suspensão da realidade visada por x  são os objetos intencionais exigidos por y, ou posto de outro modo, são as realidades-y que necessariamente possuem um objeto intencional-x. Elas podem ser contrastadas, portanto, com todas aquelas realidades-y que podem ou não possuir um objeto intencional real. Esclarecerei isso no próximo post passando à dedução dos modos puros.

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(1) Esse fenômeno de absorção será melhor explicado qunado eu voltar a falar da dúvida radical.

Março 17, 2008

Harmonias e Modalidades - I

Arquivado em: sistema — Etiquetas HTML: — alcvargas @ 4:54 am

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O diagrama acima é uma representação do sistema dos transcendentais ligados por relações de estruturação, das quais já falei bastante por aqui. Num post anterior eu disse que os transcendentais eram os “modos concretos da realidade”. Disse isso porque a meu ver a realidade sempre se dá dentro de um destes modos e que falar da realidade pura e simples fora dos transcendentais é uma abstração. Contudo, eu me dei conta que os transcendentais eles mesmo possuem cada um modo abstrato, outro modo concreto e por fim um modo puro. Desse modo os transcendentias não podem mais ser chamados de os modos concretos da realidade, mas tão somente de os modos da realidade. O fato da realidade ser uma abstração quando tomada isoladamente é um aspecto do problema da unidade da realidade perante seus modos e será tratado quando eu retomar a minha “solução” para o problema, que não me satisfaz ainda.

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Como vocês podem ver no diagrama, os modos da realidade que antes eram chamados simplesmente de “Os transcendentais” são na realidade os modos abstratos da realidade. Eles são abstratos em contraste com os modos concretos que são estes mesmos transcendentais considerados na sua efetividade e, portanto, considerados como já sendo estruturados por outros transcendentais. A derivação dos modos concretos é feita da seguinte maneira:

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A consciência real é consciente do mundo fenomenal e inserido nele, é ser-aí.

O fenômeno real é a manifestação de um ente subsistente, é a natureza.

O ser efetivo é o ser imbuído de um logos, é a essência.

O logos real expressa e visa a verdade. É o pensamento.

A verdade real se verifica na ação da comunidade, é a história.

A ação efetiva é a exteriorização de uma consciência para outras, é a intersubjetividade.

Por sua vez, os modos puros da realidade correspondem a o que antes designei como o transcendental enquanto tal. Neles, o transcendental é visado em toda sua extensão, não apenas no modo como ele se dá na realidade, mas também no sua presença ideal, seu uso passivo, na realidade de outros transcendentais. Como ela abrange tanto o uso ativo quanto o uso passivo , a cada modo puro correspondem um par de modos transcendentais consecutivos. O estudo destes modos e das harmonias pares a eles associadas será feito no próximo post.

Neste post, gostaria apenas de apresentar as harmonias mais óbvias e imediatas do diagrama, que consistem no fato que os conceitos que são opostos geometricamente são opostos conceitualmente também. Vejamos:

Aparecer/Natureza vs. Verdade/História - Essa é a oposição mais clara: o carater absoluto da verdade se opõe à contingência dos fenômenos e o drama do sentido na história encontra nenhuma resposta na natureza muda e indiferente.

Ser/Essência vs. Ação/Intersubjetividade - O ser, que já é e não precisa ser feito, se opõe à ação, que precisa ser realizada. O mundo das essências, com sua estrutura fixa, se opõe à transformação constante da comunidade dos sujeitos.

Consciência/Ser-aí vs. Logos/Pensamento - O logos e o pensamento, que apreendem as coisas na sua universalidade se opõe à consciência que é diversa em cada caebça e ao ser-aí jogado no mundo, cujas vivências são modos singulares dele próprio de se enfrentar com o mundoa  sua volta.

Continua no próximo post. Quaisquer dúvidas, angústias e comentários, favor comentar

Fevereiro 26, 2008

Esboço de um Sistema

Arquivado em: sistema — alcvargas @ 3:48 pm

Segue um esboço dos argumentos pelos quais seria justificada a hipótese do sistema circular de transcendentais que é a minha hipótese de fundo nas minhas investigações daqui. Algumas das conexões podem parecer meramente lingüísticas, e outras apenas metafóricas, mas é por isso que o chamo apenas de um esboço. Eu defendo este esboço, apesar de sua fragilidade, pois intuitivamente as conexões conceituais nele apresentadas são fortíssimas.

Comecemos com o primeiro modo de realidade que conhecemos, que é a realidade fenomenal, aquela que se faz presente na experiência sensível. Esse é o campo do aparecer. Ele é nitidamente um campo transcendental: ele não determina nada mas é um meio dentro do qual todas as coisas podem se manifestar: deus se manifesta em milagres, a pessoa nos seus atos, as estruturas na ordem visível.

Consideremos agora o momento de determinar algo pelo aparecer. O que é aquilo que realmente aparece, que por-si é um fenômeno? É um ser, é algo que possui uma subsistência própria. Isso contrasta com o fenômeno que tem uma subsistência apenas em virtude de ser o correlato da consciência e que desvanece junto com ela, como uma imaginação.

Ser, então, seria o segundo transcendental na ordem do conhecimento. Tudo que realmente aparece tem um ser. A dualidade entre forma e suporte é manifestada exemplarmente pelo ser que permeia toda nossa linguagem sob a forma da cópula e ao mesmo tempo pode ser substantivado quando dizemos que algo é um ser.

Mas o ser enquanto uma forma geral de determinação é uma determinação do que as coisas são. Aquilo que realmente é um ser é a resposta a uma pergunta do tipo “O que é isso?”. “Isso” no caso só poderá ser algo que cai sob um conceito ou uma forma. Assim o transcendental do ser é estruturado pelo transcendental do logos.

Tudo que é, possui uma forma, uma razão, um conceito. O conceito pode ser tanto um objeto intencional, na medida em que todo ser exemplifica e anuncia os conceitos sob quais ele cai, ou o conceito pode ser uma intenção que determina outro algo. Mas o que é determinado pelo conceito? O que é por-si conceitual, lógico? Ora, é claramente a verdade, que é a norma de toda lógica. A verdade, pela sua própria realidade, é imediatamente coerente e apreensível pelo conceito.

Esboçar o que seja a verdade é, para mim, algo muito difícil. O que seria a verdade enquanto um modo concreto da realidade? Só posso conceber isso com metáforas de luz: como se ver a realidade nesse modo fosse a ver iluminada por uma luz tão forte que entrasse em todo buraco de toda coisa e a revelasse em todos seus detalhes. Toda realidade é uma espécie de atualidade, mas a verdade parece ser isso de forma eminente.

Mas o que é aquilo cuja realidade envolve ser verdadeiro, que espécie de realidade entra para a luz, passa para o ato? Bem, seria a ação. Na ação algo desdobra o que ela realmente é, se exterioriza e revela. Mas precisamos ser mais específicos: que tipo de ação? Será que com isso nós queremos dizer que todas as coisas podem ser vistas como manifestações de potências ocultas? Não, de maneira alguma. As coisas se verificam na ação, elas são confirmadas na sua verdade, elas revelam ser aquilo que elas pretendiam ser. A ação em questão é a ação de constantemente reconhecer as coisas na sua verdade. Ela é ação dentro de uma comunidade humana, ação dotada de sentido e que responde ao sentido.

A ação ou a alteridade entra, portanto, como o quinto modo concreto da realidade partindo do aparecer. A ação precisa ser uma forma vazia de determinação, sob pena de cravarmos uma fossa entre o mundo da comunidade e nosso mundo interior, povoando a vida de todos nós de segredos inconfessáveis por princípio.

Agora, o que é por-si uma ação, qual é o objeto de determinação de uma ação? Ora, naturalmente um vivido da consciência. Temos um preconceito natural que ação manifesta principalmente apenas aquele vivido que chamamos a vontade, mas isso não é verdadeiro, todo vivido se expressa em ações. A percepção de um obstáculo se traduz num desvio para evitá-lo, um pensamento se traduz num discurso, uma dor num grito, uma reflexão insistente numa hesitação. De fato, jamais seria possível que aprendêssemos o nome de qualquer estado interno se não o manifestássemos em ações.

Aquilo que por si age e se expressa é a consciência. Até mesmo a melancolia e o desespero profundos descritos por Kierkegaard se expressa, a diferença é apenas que esta expressão é muito mais articulada e sutil que um grito de dor ocasionado pelo ferrão de uma abelha. Agora, a transcendentalidade da consciência é uma tese clássica da filosofia e não só da filosofia moderna. Ela já está presente em Aristóteles quando ele diz que a alma é em certo sentido todas as coisas e em Santo Tomás quando ele toma essa compreensão da alma como a base para a inclusão do bem e do verdadeiro na sua lista dos transcendentais.

O que é aquilo que por si aparece à consciência, aquilo cujo aparecer à consciência pertence à sua própria realidade? Não é nada além daquilo que por si aparece, o domínio dos fenômenos, do aparecer. Com isso fechamos o círculo e chegamos ao nosso ponto de partida. A consciência antecede o começo, pois é dentro dela que se dá o conhecimento, mas ela é também seu último objeto, pois o cume da escalda do conhecimento é justamente o autoconhecimento.

Bem o post já está bastante longo. Ao longo dos próximos posts desenvolverei melhor as conexões que apresentei hoje e exibirei as “harmonias escondidas” às quais fiz referência antes.

Quaisquer dúvidas, pedidos ou sugestões, por favor, comentem.

Desfazendo a Confusão- III

Arquivado em: definições — alcvargas @ 3:48 pm

No último post, chegamos a um esclarecimento fundamental: os transcendentais são os modos concretos da realidade. Contudo um problema ficou sem ser resolvido: como é possível que a realidade seja una se ela possui vários modos concretos?

Vamos primeiro demonstrar a necessidade da diferenciação dos modos concretos da realidade. A primeira determinação de algo, a determinação que torna possível que ele seja objeto de toda outra determinação é justamente a determinação ser real. Mas se assim fosse, a determinação “ser real” seria suporte de si mesmo, o que é um absurdo.

É preciso, portanto, que a realidade se diferencie em, ao menos, duas determinações, dois modos de realidade. Essas determinações serão, cada uma delas, suportes para todas as outras e também formas gerais de determinação. Elas não serão suporte de si mesmas porque cada uma será o suporte da outra. Assim essas determinações últimas formarão um círculo de determinações ultragerais. Isso é justamente o sistema circular dos transcendentais conectados via deduções transcendentais.

Esse caráter interconectado e interdependente dos modos concretos da realidade nos permite restaurar a unidade da realidade. O domínio único da realidade será o domínio daquelas cadeias de determinações que incluem todos os modos concretos da realidade. Por exemplo, uma pessoa real aparece, a sua aparência anuncia que ela é um ser, enquanto ser ela exemplifica uma forma, que por sua vez expressa uma verdade, que é verificada nas ações a seu respeito na comunidade que são expressões de vividos intencionais, que são justamente aqueles que apreendem a pessoa na medida em que aparece. A pessoa real não é algo para além dessas determinações, mas é justamente a unidade delas na sua remissão umas às outras.

Deste modo se reconstitui um domínio único da realidade dos quais todos os objetos são determinados por cada transcendental. Além disso há inúmeros objetos irreais que não são determinados por todos os modos concretos da realidade. Acerca destes falarei mais em outra ocasião. No próximo post, sairei deste reino de abstrações e oferecerei um esboço concreto das relações que conectam os transcendentais.

Quaisquer dúvidas, não hesitem em comentar.

Desfazendo a Confusão - II

Arquivado em: definições — alcvargas @ 3:48 pm

A última transformação da noção de “transcendental” ocorreu no post A Realidade e Os Transcendentais, onde houve uma mudança decisiva de perspectiva onde os transcendentais deixaram de ser vistos como conceitos ultragerais e passaram a ser considerados como domínios de objetos. Nesse sentido, o transcendental consciência designa o domínio dos vividos, o transcendental aparecer designa o domínio dos fenômenos e o transcendental ser designa o domínio dos entes, por exemplo.

Isso pareceria destruir a noção mesma de transcendentalidade, que pressupõe um domínio único da realidade. Essa conseqüência, entretanto, não se dá, pois por um lado a realidade não é primordialmente um domínio de objetos e segundo porque o reconhecimento dos seis domínios de objetos próprios aos transcendentais não impede a existência de um domínio unificado de coisas reais.

A resposta que segue é mais detalhada que aquela dada no post original e por isso será dada em duas partes. Agora vou me concentrar em analisar o que seja a realidade e no próximo post explicarei de que modo há um domínio único de coisas reais.

A realidade não é um domínio de objetos, pois a realidade é expressa não inicialmente pelo adjetivo “real”, mas pelo advérbio “realmente”. Y é realmente x, quando ser x lhe pertence, é um caráter seu. É apenas por x pertencer a y que ele pode ser a base para outras determinações de y, pois só nesse caso ele é de y.

Toda determinação real, portanto, é a determinação real de alguma coisa. A essa remissão de toda realidade a alguma coisa dei o nome de o caráter intencional da realidade.

Mas toda determinação pode ela mesma ser o “suporte” de outras determinações. Por exemplo, podemos dizer “esse ser humano é bacana e genial”, mas se trocássemos “ser humano” por “mamífero” a frase não teria mais sentido, pois ser bacana e genial são determinações que convém a ela enquanto pessoa e não enquanto mamífero. Ao ser a base de outras características, uma determinação é responsável pela sua realidade, e podemos por siso falar também no caráter constitutivo da realidade.

A realidade é perpassada por essa dualidade entre a intencionalidade e a constituição. Essa dualidade é o que é responsável pela ambigüidade no tratamento dos transcendentais, que ora são vistos como determinações ultragerais e ora são vistos como domínio de objetos.

Um transcendental determina seu objeto de uma maneira especial, pois de fato nada é dito de um objeto quando se diz que ele é um objeto da consciência ou um ser. Essas determinações são completamente vazias por si sós. Mas elas também nunca vêm sozinhas: algo é objeto da consciência por alguma percepção, vontade, lembrança imaginação etc… e algo é um ser neste ou naquele modo de ser. Os transcendentais são, portanto as formas de determinação das coisas.

Toda determinação, contudo, é determinação de algo e possui um suporte em outra determinação. Isso nos leva a postular para cada determinação uma série de outras determinações. Considere então uma determinação que fosse um suporte último para todas as outras determinações. Em última instância, seria por causa desta determinação que a coisa determinada poderia ter determinação alguma. Essa determinação determinaria o objeto de uma maneira completamente vazia, mas seria a base de toda outra determinação. Ou seja, ela seria justamente uma forma geral de determinação, um transcendental.

Desse modo vemos que toda transcendental é biface: enquanto intenção ele é uma forma geral de determinação, mas enquanto constituição ele é uma determinação que é suporte último de todas as outras determinações. Mas essa ambigüidade não pertence também à realidade enquanto tal? Toda determinação não pretende ser uma determinação real de uma realidade? Desse modo vemos que os transcendentais são os modos concretos da realidade.

Desfazendo a confusão - I

Arquivado em: definições — alcvargas @ 3:48 pm

Quando comecei deste blog, eu disse que ia primeiro apenas apresentar alguns conceitos básicos do meu sistema. Acontece que nos dois últimos meses, como vocês devem ter visto, um destes conceitos, o conceito de “transcendental” mudou bastante para mim. De fato, eu apresentei aqui três significados diversos do transcendental:

A) No post A Dúvida Radical, apresentei o transcendental como um conceito que abarca toda a realidade. Ele foi introduzido como um elemento central da dúvida radical: para que se duvide de tudo é preciso que seja possível reunir todas as minhas crenças num todo que seja duvidado. O objeto total das minhas crenças é a realidade. Se eu possuo um conceito transcendental, eu possuo um conceito que abarca toda a realidade. Posso então realizar uma suspensão universal de juízo suspendendo todo juízo sobre tudo que cai sob o universal.

B) Essa concepção de transcendental se manteve até o post Os Conceitos Transcendentais, onde eu tratei do que confere aos conceitos transcendentais sua ultrageneralidade. Eu rejeitei a explicação implícita na minha definição inicial pois dizer que um conceito é transcendental por ser circular: dizer que um conceito é transcendental por se aplicar a toda e qualquer coisa apenas conduz todos os conceitos de volta ao conceito de coisa, sem explicara ultrageneralidade e transcendentalidade deste conceito.

Além disso, eu mostrei que a minha interpretação original da transcendentalidade não poderia se sustentar uma vez que se admitisse que os transcendentais são interligados por deduções transcendentais. Uma dedução transcendental mostra que o uso ativo de um conceito x implica no uso (passivo) de outro conceito y. Dessa maneira se três conceitos são ligados por um par de deduções, de modo que o uso ativo de x implica o uso passivo de y e o uso ativo de y implica o uso passivo de z, não havia garantia alguma de que todo uso ativo de x caísse sob o conceito z. Assim haviam coisas que eram x mas não eram z, logo z teria uma extensão menor que x, logo z não poderia ser um transcendental.

A solução que dei para isso era o seguinte: existe uma pressuposição natural em favor do uso ativo dos conceitos. Assim quando há um uso passivo de um conceito, geralmente há também um uso ativo dele: em geral, uma percepção é percepção de um fenômeno real e um fenômeno é a manifestação de um ser real. É um erro pensar que a ultrageneralidade do conceito transcendental é a universalidade de uma proposição do tipo “Todos os gansos são brancos”, pois mesmo se encontramos exceções ao transcendental, a crença na sua ultrageneralidade permanece inabalada.

Com isso, a compreensão do que seja um transcendental mudou: ele não é mais um conceito que se aplica a toda e qualquer coisa, mas uma pressuposição que está suposto em toda determinação de toda coisa. Isso pode parecer transformar o transcendental em algo subjetivo, numa pressuposição que nós fazemos, mas esse não é o caso: existe uma pressuposição natural subjetiva de incluir todo objeto sob o domínio transcendental, mas correspondendo a essa pressuposição também há o caráter objetivo que existe em quase todos os objetos. A conexão dos transcendentais num sistema mostra que a pressuposição de um deles leva à pressuposição de todos os outros.

A faxina continua amanhã.

Fevereiro 22, 2008

Unidade e Multiplicidade

Arquivado em: fenomenologia — alcvargas @ 10:03 pm

Neste post, apresentarei um argumento adaptado do parágrafo 43 das Idéias de Husserl sobre a intencionalidade. O argumento toma a forma de uma análise de minha visão de uma cama. Após isso, o argumento será generalizado pela minha tese do caráter intencional da realidade em geral e não apenas da consciência.

1. Eu vejo uma cama. Eu só vejo o que dela dá para ver desde onde eu estou no espaço, mas isso não impede o fato de que o que eu vejo não é uma parte da cama, mas a cama ela mesma. A parte da cama que vejo não é um substituto da cama ela mesma, mas a parte da cama que é oferecido nesta visão da cama ela mesma.

2. Contudo minha visão poderia ser enganadora, poderia ser a visão de uma cama que não está lá. Mas mesmo assim, minha visão ainda seria a visão de uma cama e à minha visão pertence necessariamente uma cama como objeto intencional.

3. Agora, se minha visão fosse a única percepção possível da cama, então a cama em questão seria idêntica ao objeto intencional de minha visão: ela não seria nada além daquilo que é visto pela minha visão. Logo nesse caso ela seria de fato uma cama irreal, colocada apenas pela minha visão.

4. Por isso, uma percepção real de uma cama nunca pode ser uma percepção solitária que seja a única percepção. Mas não basta que haja várias percepções da cama, pois todas elas poderiam ser sintetizadas em uma única imaginação e mais uma vez se teria um único vivido que conteria a percepção total da cama de forma solitária.

5. Eu vejo uma cama real. A realidade da cama que apreendo pela visão se confirma pelo caráter superabundante de percepções que posso ter dela. Há tantas percepções que jamais seria possível para mim reuni-las todas num único imaginativo. À essa cama solitária corresponde uma multiplicidade irredutível de percepções possíveis que a apreendem.

6. O fato que o que aqui foi analisado é uma cama, em vez de algum outro objeto da consciência é irrelevante. O que importa é que um objeto da consciência que fosse totalmente dado num vivido da consciência seria indistinguível do objeto intencional deste vivido e por isso seria um objeto irreal. Portanto, a relação entre as percepções da cama e a cama real pode ser generalizada para a relação entre a consciência de um fenômeno e esse fenômeno. Todo fenômeno efetivo pode ser apreendido de incontáveis formas pela consciência.

7. Mas a superabundância do fenômeno real em relação à consciência é consequência de que o o objeto intencional de um vivido da consciência qualquer é um fenômeno, isto é, do fato que o domínio transcendental do aparecer constitui o domínio transcendental da consciência. Portanto, a relação obtém entre quaisuqer dois domínios transcendentais tais que um deles estrutura o outro. Da mesma forma que uma multiplicidade de vividos tem em vista um só fenômeno real, uma multiplicidade destes manifestam um só ente e uma multiplicidade de entes exibem uma mesma forma lógica.

Janeiro 25, 2008

O Transcendental enquanto tal

Arquivado em: fenomenologia — alcvargas @ 10:50 pm

Hoje irei tocar no nervo do problema colocado pela dúvida radical, uma tensão que reside na estrutura mesma dos transcendentais e que é escancarada pelo seu emprego na dúvida radical.

No primeiro post sobre a dúvida radical, expliquei que ela pode ser vista como uma tentativa de trata o transcendental enquanto tal: o filósofo apreende a totalidade da realidade sob o transcendental e em seguida coloca essa mesma realidade em parênteses, suspendendo toda e qualquer crença acerca dela. Desta forma, o fenomenólogo cartesiano vê a totalidade da realidade como uma realidade fenomenal, que aparece, e em seguida diz “deixo de lado a realidade desses fenômenos”. O que sobra então? Nada mais que a fenomenalidade dos fenômenos, a apreensão dos fenômenos apenas na medida em que eles são fenômenos.

Podemos tornar isso mais claro com os conceitos de uso ativo e uso passivo, pois a diferença entre o uso ativo e o uso passivo é justamente a diferença entre a realidade e a aparência no domínio de um transcnedental. Quando há uso ativo de um conceito transcendental, há atribuição real deste transcendental: o transcendental é algo da coisa (Ex: o aparecer é algo próprio ao gato). Entretanto, no uso passivo há tão somente uma atribuição condicional (Ex: o gato alucinado não aparece por si, mas apenmas por ser objeto da consciência). Suspender um juízo sobre uma realidade, não é, portanto, abandonar esse juízo por completo, mas fazer com que ele deixe de falar daquilo que pertence a essa realidade. É portanto a suspensão do uso ativo dos conceitos.

Dessa forma, para considerar um transcendental enquanto tal é preciso suspender seu uso ativo. Mas por outro lado, a pressuposição em favor do uso ativo é justamente o que dá unidade ao sistema dos transcendentais e constitui um domínio único da realidade em relação ao qual todos os transcendentais são ultragerais. Fora desta pressuposição aparecem objetos próprios a cada transcendental que não são abarcados pelos outros transcendentais, como o gato que é visto dentro de uma alucinação ou o ser que se mostra num agregado de fenômenos. Se esses objetos próprios são tomados como reais, então não há nenhum conceito ultrageral. Eles devem portanto, ser considerados como irreais.

Por isso, a dúvida radical não somente suspende a realidade, mas também introduz elementos irreais. Não é apenas uma perspectiva que abarca a totalidade da realidade, mas um salto para fora dela. No entanto, essa mesma dúvida deveria nos dar acesso à uma realidade absoluta, indubitável. As razões desta curiosa inferência serão estudadas em outro post.

A Realidade e Os Transcendentais

Arquivado em: fenomenologia, realidade — alcvargas @ 10:50 pm

Nos últimos posts eu tenho ressaltado a existência de “objetos próprios” de transcendentais, objetos que pertencem a um transcendental, mas não a todos. A existência de tais objetos é uma consequência da conexão dos transcendentais por deduções transcendentais. Para melhor compreender o que são esses objetos, é melhor investigar mais a fundo o que essa sistematização implica para a realidade dos transcendentais.

Mas o que vem a ser a realidade? Não quero entrar numa longa investigação sobre isso no momento então apenas motivarei uma sugestão por meio de três exemplos:

1) Com óculos vermelhos se vê uma mesa branca como uma mesa vermelha. Não se pode, então, dizer que a mesa é vista como ela realmente é, pois ela é branca e não vermelha. Mas por que isso depõe contra a realidade da percepção? Porque a mesa é vista com uma cor que não é dela.
2) Sentado num quarto vazio, imagino como ficaria bem ter uma mesa branca para preencher o espaço. Essa mesa é realmente um objeto de minha consciência, ela está, de fato, presente na minha mente. Mas ela não é uma mesa real: a sua aparição a mim não é algo que lhe pertence, mas uma conseqüência de ela ser imaginada por mim.
3) Em condições normais de visão, uma mesa branca é vista. Mas então, de repente, ela desaparece e uma voz eletrônica informa que o holograma-de-cinco-sentidos foi suspenso. Mais uma vez o que foi visto não foi uma mesa real. Não por qualquer problema perceptivo - mas porque a subsistência que a mesa aparentava ter, não era algo que lhe pertencia.

A partir desses exemplos, proponho a seguinte idéia: uma coisa é real quando tudo que ela é lhe pertence e alguma coisa é realmente x quando x é algo que lhe pertence, isto é, quando a atribuição de x a esse objeto for um caso do uso ativo do conceito x. Desta forma podemos dar uma leitura “metafísica” da dedução transcendental, mais rica que a leitura lógica dada antes.

Por exemplo, o argumento de Kant pelo princípio da causalidade responde à questão “Com que direito posso aplicar o conceito de causa à uma realidade empírica?”. Entretanto, para fazer isso, ele mostra que o uso ativo do conceito de sucessão (que está incluído no conceito de realidade empírica) implica no uso do conceito de causa e efeito. Desta forma, Kant responde a uma questão lógica (com que direito posso aplica esse conceito?) com uma consideração metafísica (o caráter causal de um evento confere realidade à seu caráter sucessivo).

Desta forma, a dedução transcendental de um conceito é a legitimação de seu uso mediante a demonstração de que o carácter que ele designa é responsável pela realidade do objeto. Mas como é que ele é responsável pela realidade do objeto? O objeto é real na medida em que o que é atribuído lhe pertence. A dedução transcendental de x mostra que o objeto, por ser realmente tal e qual, é um x. Ou seja, o carácter designado pelo conceito é justamente o carácter que permite às suas propriedades reais lhe pertencerem.

Isso aponta para o que há de mais interessante na realidade, seu caráter intencional. Toda característica real é uma característica que pertence a algo e a algo que é de determinada maneira, não necessariamente de modo real. Nesse sentido, aquilo que é realmente um objeto da consciência é um fenômeno e aquilo que é realmente um fenômeno é um ser. Não temos aqui um único objeto com três propriedades (ser objeto da consciência, aparece e ser), mas três grupos de objetos distintos (um conjunto de vividos, um conjunto de manifestações, uma essência) ligados por relações de remissão: os vividos são vividos destas manifestações que por sua vez são manifestações desta essência.

Com isso chegamos a uma boa conceituação de o que vem a ser um objeto próprio de um transcendental. Um objeto real é uma cadeia fechada de realidades ligadas por relações de remissão: um vivido de um fenômeno de um ser de uma forma de uma verdade de uma ação de um vivido. Um objeto irreal, ou um objeto próprio de um transcendental x, é um objeto que realmente é x, mas que não é realmente um objeto do transcendental que estrutura x. Assim por exemplo, temos vividos efetivos que não são vividos de fenômenos efetivos (Ex: alucinações), temos ações reais [transcendental alteridade] que não são ações de vividos efetivos (ex: vividos meramente atribuídos e não assumidos), seres reais que não são exemplificações de formas gerais (Ex: uma conexão causal que não segue uma lei). (2)

É isso por hoje. Quaisquer dúvidas, comentem.

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1. O conceito de realidade aqui apresentado é fortemente influenciado pela filosofia de Zubiri, mas não creio que seja exatamente o seu conceito, devido a alguns comentários dele sobre Kant.
2. Esses exemplos só podem ser plenamente compreendidos à luz das deduções transcendentais que articulam o sistema. Devo apresentar um esboço destas até o final do mês.

Duas notas rápidas

Arquivado em: Uncategorized — alcvargas @ 10:50 pm

Como alguns devem ter percebido, mudei os nomes dos últimos posts, para refletir o conteúdo em cada post em vez de seu lugar na série de posts sobre a dúvida radical. Fiz isso porque decidi adiar indefinidamente a análise da dúvida radical. Antes eu tinha como modelo a análise feita pelo Olavo de Carvalho em Consciência e Estranhamento, uma análise ao mesmo tempo clara e original do ato da dúvida. Contudo eu queria também continuar expondo os fundamentos do meu sistema transcendental e queria, em algum momento, enfocar o ato da dúvida radical como um ato exemplar de liberdade na filosofia. E por causa destes outros projetos embutidos, finalmente admiti para mim mesmo que há muito mais em jogo aqui que uma mera análise da dúvida radical e que não deveria englobar tudo sob esse título.

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Eu tenho, em posts passados, caracterizado o uso ativo de conceitos por meio da locução “por si”. Esse meio de caracterização é infeliz pois “por si” é uma locução muito forte. “Por si” traz consigo uma conotação de necessidade ou fundamento que não está presente em todo uso ativo. Quando, por exemplo, eu digo que fulano conseguiu tudo que ele tem por si, eu digo que ele sozinho é responsável por agora ter o que tem . No entanto quando eu digo que “a mesa é vermelha” não digo que ela seja responsável pela sua própria vermelhidão, mas tão somente que a vermelhidão é algo que lhe pertence, é algo da mesa, e não algo adicionado pela minha visão dela, por exemplo. É esta atribuição do vermelho como algo pertencente à mesa, como algo dela, que faz da frase ” a mesa é vermelha” um uso ativo do conceito.

Até agora me contentei em simplesmente explicar o uso do “por si” na caracterização do uso ativo e torcer para que as explicações fossem claras o suficiente para evitar qualquer confusão. Mudei de idéia e resolvi realizar esse esclarecimento terminológico pois em uma leitura que comecei este fim de semana , Sobre la Realidade de Xavier Zubiri, eu encontrei um termo que encapsula bem melhor o que é característico do uso ativo de um conceito - o termo “de suyo“. Com isso Zubiri expressa justamente que todos caracteres que percebemos de uma coisa são percebidas como algo que é dela e é justamente esta formalidade da percepção que faz com que ela seja uma percepão de uma realidade.

Entretanto, eu prefiro escrever tudo em uma só língua, então não passarei a pipocar meus textos com termos em espanhol. A menção a Zubiri está aqui apenas como uma indicação e também para mostrar como há maneiras melhores de caracterizar o uso passivo, pelo uso de palavras como “seu”, “sua”, “dele” e “dela”.

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