A Experiência do Transcendental - I
No post passado eu introduzi as imagens empregadas por Heidegger no seu texto A Coisa para ilustrar a metafísica que venho aqui desenvolvendo. Isso agora me parece ter sido um erro. Pois isso nos levou à questão da realidade dos transcendentais, uma questão inteiramente envolvida por obscuridade. Para tornar os conceitos aqui mais claros vou passar algum tempo esclarecendo alguns pressupostos.
Até aqui, tenho falado de uma forma ingênua de “a realidade”, sem, no entanto, justificar o que essa designação pressupõe, que seja, a existência de uma unidade de todas as coisas reais num campo chamado “a realidade”. É preciso corrigir isto determinando a experiência que fundamenta essa concepção da realidade como um campo transcendental.
(Por “campo transcendental” quero dizer um domínio de coisas cuja extensão seja aquela de uma determinação transcendental. Como todos os transcendentais compartilham o domínio comum chamado “a realidade” há somente um tal campo.)
Uma primeira hipótese é que essa concepção se fundamenta no reconhecimento que as coisas possuem uma constituição independente da nossa consciência deles. (Essa é a via adotada por Husserl e vários filósofos modernos). Nós nos deparamos com esse fato via o engano, quando descobrimos que as coisas não são como achávamos que eram. Essa experiência é ao mesmo tempo a experiência do caráter transcendental da consciência, pois com o engano nos damos conta também que não podemos conhecer nada fora da consciência e, portanto, que qualquer crença nossa pode eventualmente se mostrar como falsa.
O caráter transcendental da consciência não implica que a consciência é uma jaula que impediria o mundo de ser conhecido nem que ela é uma ilha autônoma capaz de conhecer a realidade sem auxílio de qualquer coisa fora da consciência. Apenas quer dizer que existe uma condição (a consciência) que abarca toda realidade conhecida pelo homem.
Essa condição transcendental, no entanto, não pode ser a base para afirmações sobre toda a realidade, pois nela a unidade da realidade é experimentada apenas na medida em que essa realidade se apresenta à inteligência humana. É possível a partir da consciência fazer afirmações válidas para a realidade cognoscível, mas não para toda a realidade enquanto tal.
Uma segunda experiência em que aparece a consciência de um campo transcendental é a intuição da verdade, a experiência da impressividade da realidade sobre a nossa mente: eu vejo que as coisas são assim e isso é algo óbvio, evidente, inescapável. Ao mesmo tempo em que a consciência experimenta a realidade se impondo a ela, ela também tem consciência de si mesma como aberta à realidade, capaz de apreendê-la enquanto tal. (Essa experiência lembra a tese aristotélica de que a alma é em certo sentido todas as coisas.)
Enquanto a primeira experiência tinha o perigo de ser interpretada como a experiência de um abismo entre consciência e realidade, essa segunda tem o perigo de ser interpretada como a fusão entre os dois, onde o ser humano seria impotente perante o mundo, o qual o determinaria de ponta a ponta. No entanto isso está longe de ser o caso: é justamente no modo como cada pessoa reage à evidência da verdade que ela manifesta sua orientação própria e individual perante o mundo. Há até aqueles que fogem da verdade.
O ser humano na intuição da verdade experimenta a sua independência perante a realidade e assim o fazendo toma consciência da realidade como o campo transcendental dentro do qual ele deve ser quem ele é. Mais uma vez o campo transcendental é experimentado por meio de uma condição inescapável - antes era a condição de ser apresentada na consciência, agora é a condição de ser apresentada pela verdade à consciência.
Por isso, a experiência da verdade também não pode fundamentar as nossas asserções sobre “a realidade”. Ainda aqui o que está dado não é “a realidade” mas “a realidade na medida em que ela se apresenta à consciência”. Cada uma dessas duas experiências é um inverso da outra, o que se explica pelo fato que a independência e o poder são aspectos complementares da realidade, de tal modo que quando a realidade é apresentada sob um desses aspectos a consciência tem perante ela o outro.
No próximo post apresentarei a experiência da transcendência do mundo na razão, que é o verdadeiro fundamento da apreensão da realidade como um campo transcendental. Para confirmar isso, serão estudadas as conexões sistemáticas entre o entendimento, a razão e a intuição.


