Hegel as a Boy

Julho 16, 2008

A Experiência do Transcendental - I

Arquivado em: Uncategorized — alcvargas @ 10:50 pm

No post passado eu introduzi as imagens empregadas por Heidegger no seu texto A Coisa para ilustrar a metafísica que venho aqui desenvolvendo. Isso agora me parece ter sido um erro. Pois isso nos levou à questão da realidade dos transcendentais, uma questão inteiramente envolvida por obscuridade. Para tornar os conceitos aqui mais claros vou passar algum tempo esclarecendo alguns pressupostos.

Até aqui, tenho falado de uma forma ingênua de “a realidade”, sem, no entanto, justificar o que essa designação pressupõe, que seja, a existência de uma unidade de todas as coisas reais num campo chamado “a realidade”. É preciso corrigir isto determinando a experiência que fundamenta essa concepção da realidade como um campo transcendental.

(Por “campo transcendental” quero dizer um domínio de coisas cuja extensão seja aquela de uma determinação transcendental. Como todos os transcendentais compartilham o domínio comum chamado “a realidade” há somente um tal campo.)

Uma primeira hipótese é que essa concepção se fundamenta no reconhecimento que as coisas possuem uma constituição independente da nossa consciência deles. (Essa é a via adotada por Husserl e vários filósofos modernos). Nós nos deparamos com esse fato via o engano, quando descobrimos que as coisas não são como achávamos que eram. Essa experiência é ao mesmo tempo a experiência do caráter transcendental da consciência, pois com o engano nos damos conta também que não podemos conhecer nada fora da consciência e, portanto, que qualquer crença nossa pode eventualmente se mostrar como falsa.

O caráter transcendental da consciência não implica que a consciência é uma jaula que impediria o mundo de ser conhecido nem que ela é uma ilha autônoma capaz de conhecer a realidade sem auxílio de qualquer coisa fora da consciência. Apenas quer dizer que existe uma condição (a consciência) que abarca toda realidade conhecida pelo homem.

Essa condição transcendental, no entanto, não pode ser a base para afirmações sobre toda a realidade, pois nela a unidade da realidade é experimentada apenas na medida em que essa realidade se apresenta à inteligência humana. É possível a partir da consciência fazer afirmações válidas para a realidade cognoscível, mas não para toda a realidade enquanto tal.

Uma segunda experiência em que aparece a consciência de um campo transcendental é a intuição da verdade, a experiência da impressividade da realidade sobre a nossa mente: eu vejo que as coisas são assim e isso é algo óbvio, evidente, inescapável. Ao mesmo tempo em que a consciência experimenta a realidade se impondo a ela, ela também tem consciência de si mesma como aberta à realidade, capaz de apreendê-la enquanto tal. (Essa experiência lembra a tese aristotélica de que a alma é em certo sentido todas as coisas.)

Enquanto a primeira experiência tinha o perigo de ser interpretada como a experiência de um abismo entre consciência e realidade, essa segunda tem o perigo de ser interpretada como a fusão entre os dois, onde o ser humano seria impotente perante o mundo, o qual o determinaria de ponta a ponta.  No entanto isso está longe de ser o caso: é justamente no modo como cada pessoa reage à evidência da verdade que ela manifesta sua orientação própria e individual perante o mundo. Há até aqueles que fogem da verdade.

O ser humano na intuição da verdade experimenta a sua independência perante a realidade e assim o fazendo toma consciência da realidade como o campo transcendental dentro do qual ele deve ser quem ele é. Mais uma vez o campo transcendental é experimentado por meio de uma condição inescapável - antes era a condição de ser apresentada na consciência, agora é a condição de ser apresentada pela verdade à consciência.

Por isso, a experiência da verdade também não pode fundamentar as nossas asserções sobre “a realidade”. Ainda aqui o que está dado não é “a realidade” mas “a realidade na medida em que ela se apresenta à consciência”. Cada uma dessas duas experiências é um inverso da outra, o que se explica pelo fato que a independência e o poder são aspectos complementares da realidade, de tal modo que quando a realidade é apresentada sob um desses aspectos a consciência tem perante ela o outro.

No próximo post apresentarei a experiência da transcendência do mundo na razão, que é o verdadeiro fundamento da apreensão da realidade como um campo transcendental. Para confirmar isso, serão estudadas as conexões sistemáticas entre o entendimento, a razão e a intuição.

Junho 15, 2008

Voltando com A Coisa

Arquivado em: Uncategorized — alcvargas @ 2:34 am

Desculpa pela ausência de quase um mês, tive que me abster da publicação de meus esboços metafísicos para me dedicar à escrita da minha monografia de final de curso. Daqui a um mês o humilde autor deste blog estará formado.^^

No post passado eu falei da intuição de Xavier Zubiri de que as coisas reais são reais por serem tais e quais elas são, e não por terem uma determinação transcendental chamada “ser real”. Nesse post será apresentada uma visão igualmente anti-transcendentalista da realidade, avançada por Martin Heidegger no seu texto “A Coisa”.

Heidegger busca dizer o que é uma coisa pelo questionamento do que faz da jarra uma coisa, ou melhor, o que faz com que a jarra (uma coisa) seja uma coisa, ou seja, como que uma coisa é uma coisa.

De pronto ele rejeita algumas interpretações clássicas. Ele rejeita que a jarra seja uma coisa porque ela é algo subsistente ou que ela o seja por ser um algo subsistente produzido. Ambas essas interpretações se sugerem porque fazem da jarra algo mais que um objeto, algo que está diante de nós, mas ambas erram por não se perguntarem o que faz da jarra uma jarra; Heidegger é claro: a coisalidade da coisa deverá depender dela mesma e não de algo exterior a ela.

É verdade que a produção da jarra e sua subsistência contribuem para que a jarra seja uma jarra, mas ela não é uma jarra por ser esses motivos. Muito pelo contrário: é por ela ser uma jarra que ela teve que ser produzida e que ela possui sua subsistência própria. Nem mesmo a forma da jarra explica como ela é uma coisa: a forma é apenas aquilo da jarra que o oleiro deve ter em vista para que ele a produza.

A jarra não é uma jarra por exibir uma forma, mas por ser um receptáculo que pode conter algo. E aquilo que de fato contém na jarra é seu vazio. O vazio da jarra recebe aquilo que nela é vertido o acolhendo e retendo. A jarra recebe e guarda, contudo, para vazar, doar o líquido que tem dentro dela. É nesse doar que a jarra é uma jarra. Até mesmo uma jarra vazia, que não pode doar, ou uma jarra quebrada, incapaz de doar, são jarras por isso, pois não-poder-doar é algo próprio à jarra, em contraste com outras coisas.

Na doação da vaza estão presentes o céu e a terra, os mortais e os divinos. Na sua doação estão o líquido, fruto do matrimônio do céu e da terra nas chuvas, os mortais, que buscam saciar sua sede, e as divindades, para os quais se dá o líquido. Na doação da vaza céu e terra, mortais e divindades, habitam todos juntos.

A doação traz à luz como os membros dessa quadratura pertencem juntos. Na doação são realizadas a reunião do ser da jarra (a jarra está toda lá na vaza) e a reunião da quadratura. O ser coisa da coisa, o coisar da coisa consiste nessa reunião da quadratura.

A coisa coisa dando (um) lugar à unidade dos quatro. Mas essa unidade é algo próprio aos quatro. Cada um deles remete aos outros três devido a sua unidade. Cada um deles espelha a seu modo os outros e em o fazendo vem a ser si mesmo.

Heidegger emprega a imagem de uma roda de dança, a qual vou elaborar. Na dança cada um dos quatro dançantes responde aos movimentos dos outros e os espelha. A roda da dança que os une não é algo que lhes é imposto, mas é produto de seu próprio jogo de reflexos. Nessa dança cada dançarino se apropria da possibilidade de dançar e se juntar ao grupo e realiza desse modo sua realidade. Essa roda do céu e da terra, dos mortais e das divindades é o que se chama mundo e seu rodar é o mundar do mundo.

Os neologismos “coisar” e “mundar” servem para designar a irredutibilidade de ambos os fenômenos – não é possível “explicar” o mundo por meio de qualquer outra coisa que seu mundar nem o coisar da coisa. Ser-mundo ou ser-coisa não é algo que advém desde fora, mas de uma dinâmica interna própria. Os dois se relacionam, pois no seu coisar a coisa acolhe a unidade do mundo.

Temos aqui uma idéia da relação entre o que tenho chamado os transcendentais e as coisa reais. Os transcendentais na sua apresentação mútua realizam o mundo, a apresentação da realidade, e na coisa real reside a unidade dessas apresentações. É claro esse jogo de espelhos não foi descoberto por meio de indicações poéticas, mas pelas relações de estruturação indicadas pela dedução transcendental.

Também, apesar de sua conexão, as coisas não são dependentes das coisas reais. As coisas reais se apresentam no mundo e essa apresentação é constituída pelo mundar do mundo, mas a coisa real ela mesma não é constituída por isso. As coisas reais são reais possuindo os seis aspectos formais da realidade e desse modo sendo a ocasião para o espelhamento dos transcendentais.

No entanto há uma complicação que não é exposta no texto de Heidegger: o fato que o céu e a terra, os mortais e as divindades, são eles mesmas coisas reais. São coisas pelas quais a roda do mundo roda, mas são coisas reais mesmo assim. Mas como pode ser que eles se relacionem um com o outro ao mesmo tempo como coisas e como transcendentais? Espero caminhar em direção a uma dissolução desse problema nos posts seguintes.

Bem é isso, obrigado por terem tido paciência com a minha ausência. Como sempre não hesitem em comentar.

Maio 15, 2008

Prosseguimento da Confusão Metafísica

Arquivado em: Uncategorized — alcvargas @ 10:33 pm

Decidi apresentar os vários tópicos anunciados no post passado expondo as intuições básicas que têm me guiado nessas meditações sobre a unidade da realidade, bem como as novas confusões nas quais essas intuições me envolveram.

 

Primeiro, vou repetir o que disse no post a unidade da realidade: há o domínio da realidade que transcende cada transcendental, mas ele (a) sempre se dá dentro de um modo específico e (b) ele é o que é porque possui todos seus modos. 

 

Essa afirmação de que a realidade “é o que é” por possuir todos seus modos foi explicada no post seguinte, “A Teoria da Função Transcendental”, onde foi mostrado que algo apresentado na consciência é real por possuir seis aspectos formais – imanência, atualidade, independência, transcendência, poder e conteúdo. Ou seja, algo só é real porque possui esses seis aspectos. Assim os pontos (a) e (b) de antes se uniram: algo real só é dado, pois sua apresentação em cada um dos transcendentais é dada e por isso todos os aspectos que lhe fazem reais são dados.

 

O termo “função transcendental” é algo que obtenho da filosofia de Xavier Zubiri. Zubiri abandona a noção de que o transcendental seria um sistema de propriedades ultragerias que antecedem as coisas reais e que as tornam reais. Para Zubiri, a realidade é constituída apenas de coisas reais  com sua talidade específica, isto é, o fato de terem tais e tais determinações. Por exemplo, esta mesa tem tal cor, tal altura, é feita de tal madeira etc…

 

A intuição fundamental de Zubiri é que algo é real pelo fato dele ser de tal ou tal modo, isto é que a sua talidade é o que o torna real, e não nenhuma superpropriedade além de sua talidade. Assim podemos considerar as várias determinações de uma coisa de duas maneiras: podemos as considerar meramente enquanto determinações das coisas, ou podemos as considerar enquanto determinações que fazem a coisa ser real e perguntar: Como é que essa determinação faz essa coisa ser real?

 

A investigação da dimensão transcendental é, por isso, para Zubiri a investigação das determinações, das talidades, enquanto determinações que tornam as coisas reais. Podemos, é claro, inverter a pergunta e perguntar: dada uma realidade e um aspecto formal da realidade, qual é a determinação que dá a aquela coisa este aspecto? Assim todas as determinações meramente formais da realidade que fazem uma coisa real ser real precisam ser dadas mediante determinações reais da mesma, o que é justamente o que é feito na teoria desenvolvida nesse post.

 

Mais tarde no post “O Sistema Completo dos Transcendentais”, na análise da complementaridade, se fez apelo a um outro sentido desses aspectos. Enquanto antes os aspectos formais da realidade eram descritos como relações entre a coisa real e a sua apresentação no transcendental, na explicação dos complementares eles eram tratados como relações entre coisas quaisquer.

 

Assim, enquanto antes se mostrou que a apreensão da coisa pela intuição apresentava seu poder sobre a consciência, neste último post se argumentou que se a coisa real se impõe ao transcendental B por ser apresentado no transcendental A, então é preciso que ela seja independente de A pela sua apresentação em B, pois só é possível exercer um poder sobre uma coisa independente.

 

O que está suposto nessa inferência? É a noção de que os transcendentais mantêm entre si relações de poder-independência, atualidade-conteúdo, imanência e transcendência e que é pelo fato de um transcendental estar numa determinada relação com outro, que quando ele apresenta esse transcendental ele apresenta a realidade sob essa mesma relação. Colocando de outra forma: Uma vez que uma apresentação da realidade se relaciona a outra, ela está sob a mesma relação com a realidade ela mesma, pois cada uma das apresentações é uma apresentação DA REALIDADE.

 

Para ilustrar isso, podemos usar a imagem das relações entre pessoas, pois a realidade se apresenta a cada pessoa na sua consciência e assim a relação entre as várias apresentações da realidade é espelhada na relação entre as pessoas. Considere a relação entre a fala e a escuta. A fala apresenta um conteúdo que a escuta confirma e torna atual. Nesse sentido, na medida em que são seres conscientes da realidade, o orador exibe à sua platéia a realidade como algo pleno de conteúdo e a platéia no seu assentimento mostra para o orador a atualidade da realidade. (Quando plenamente desenvolvida essa imagem “magicamente” se transforma numa espécie de fundamentação metafísica da teoria aristotélica dos quatro discursos exposta por Olavo de Carvalho).

 

Para tornar essa imagem da realidade mais palpável, no próximo post discutirei o seminário “A Coisa” de Heidegger, onde ele expressa uma visão similar da realidade com imagens claras e ricas. Essas imagens não só tornarão a concepção aqui apresentada mais manuseável, bem como mostrarão os problemas a serem solucionados para que eu continue.

Maio 6, 2008

Pausa para Realidades Mundanas

Arquivado em: Uncategorized — alcvargas @ 10:04 pm

Dando uma pausa na exposição metafísica, gostaria de vos informar que o autor destes modestos esboços metafísicos foi mencionado no mais recente programa do grande filósofo Olavo de Carvalho. As palavras de Olavo: 

“Eu queria começar aqui também é anunciando para vocês a minha próxima aula do seminário de filosofia na É Realizações, agora quarta-feira dia t de maio às 20h, rua França Pinto 498 em São Paulo, inscrições pelo telefone 011-5572-5363. Aliás, a propósito desta aula, eu queria responder aqui a uma mensagem que eu recebi do Antonio Vargas. Antonio Vargas é estudante de filosofia da universidade de Brasília e me mandou uma carta muitíssimo interessante com observações sobre Kant e algumas dúvidas e algumas contestações de coisas que eu tinha escrito sobre Kant, algumas delas estão no meu site www.olavodecarvalho.org. A carta do Antonio Vargas é tão boa que eu decidi que ela vai ser o assunto da minha próxima aula no seminário de filosofia quarta-feira.” (Transcrição feita por mim e não-revisada pelo Olavo) 

A carta é muito longa para que eu a reproduza aqui no blog, mas é essencialmente uma versão caprichada e extendida dos meus posts nesta discussão de Orkut que aconteceu na comunidade “Olavo de Carvalho do B”: http://www.orkut.com/CommMsgs.aspx?cmm=42033749&tid=2591383619147513345 

Agradeço a Roberto Ângelo dos Santos que me incentivou a escrever essa carta, a única maneira satisfatória de tirar minhas dúvidas sobre a leitura olaviana de Kant. 

Mudando de assunto, eu devo transferir esse blog de volta para o blogspot.com daqui a pouco, pois há o risco de que o wordpress seja bloqueado pelo provedores brasileiros, devido a uma decisão judicial. Mais informações aqui: http://naoaobloqueio.wordpress.com/ 

Bem é isso, até mais. 

Próximos tópicos metafísicos:

A Palestra “A Coisa” de Heidegger

Um diagrama tridimensional dos aspectos da realidade!

A relação entre aspectos da realidade e as suas modalidades

Problemas epistemológicos da dedução transcendental

Maio 2, 2008

O Sistema Completo dos Transcendentais

Arquivado em: Uncategorized — alcvargas @ 5:35 pm

               

 

O diagrama acima apresenta o sistema completo das relações entre os transcendentais. Como indicado no último post, as setas que partem de cada transcendental indicam os diferentes pápeis que ele desempenha na apresentação da realidade nos outros transcendentais. A realidade se apresenta em cada transcendental porque o sistema inteiro dos transcendentais é apresentado em cada um deles e cada transcendental apresenta um aspecto diferente da realidade. 

Observando o diagrama, vemos que entre os seis aspectos da realidade (imanência, atualidade, independência, transcendência, poder e conteúdo) há dois pares de aspectos complementares, de tal modo que se A apresenta em B um aspecto, B apresenta em A o aspecto complementar, e também dois aspectos que são seu próprio complementar. 

O complementar da atualidade é o conteúdo. Aquilo que é atual é sempre alguma coisa, isto é, somente algo dotado de um conteúdo que pode ser atual. Se uma coisa real é atual para A por ser apresentado no transcendental B, então é preciso que a coisa real tenha um conteúdo passível de atualização para B por ser apresentado sob o transcendental A. E por outro lado, alguma coisa sempre é alguma coisa que é, ou seja, um conteúdo só é dado no horizonte da atualidade. Por isso, se o conteúdo de uma coisa real for dada num transcendental B por ser apresentado em A, então sua atualidade é dada em B por ser apresentada em A.

O complementar do poder é a independência. O poder da coisa é sua capacidade de se impor ao transcendental, enquanto a independência da coisa é o fato que ela tem posse efetiva das determinações que o transcendental lhe atribui.  Ora, só é possível exercer um poder sobre uma coisa independente, pois é a independenência das coisas que faz com que aquilo que lhe foi imposto subsista. E por outro lado algo só mostra a sua independência na medida em que resiste o poder e evidencia sua subsistência própria. Se a coisa real se impõe ao transcendental B por ser apresentado no transcendental A, então é preciso que ela seja independente de A pela sua apresentação em B, e vice-versa.

A imanência e a transcendência são complementares de si mesmos. A imanência da realidade num transcendental é dada pela apresentação deste mesmo transcendental em si mesmo, logo a sua complementar é ela mesma. 

Por outro lado, a transcendência da realidade consiste no fato de que ela é mais do que a face que ela mostra para um transcendental particular. Ora, se A indica o excesso da realidade integral sobre a face da realidade que é apresentada em B, é porque o modo da realidade A não está presente de maneira alguma no transcendental B. Se A não está presente de modo algum em B, B não está presente de modo algum em A, logo B indica igualmente o excesso da realidade sobre A. 

(Essa explicação parece contradizer o fato que cada transcendental apresenta todos os outros transcendentais, pois afirma que há pelo menos um transcendental que não está presente de maneira alguma em cada transcendental. Entretanto, isso é só uma aparência, pois com essa expressão queremos dizer que ele é de fato apresentado, mas ele é apresentado de uma maneira completamente vazia e sem conteúdo, como uma mera intenção não preenchida. Isso se confirma numa meditação sobre a consciência: o raciocínio é para a consciência um veículo vazio de conteúdo próprio, e a consciência é para o pensamento apenas um sujeito indeterminado do pensamento.) 

Observando essas relações, nós também percebemos que assim como em cada transcendental cada um dos transcendentais manifesta um dos aspectos da realidade, cada transcendental acaba por manifestar todos os aspectos da realidade. Assim o processo por meio do qual os transcendentais apresentam uns aos outros e deste modo se tornam apresentações da realidade é ao mesmo tempo o processo por meio do qual os transcendentais eles mesmos se revelam como sendo coisas reais. 

Com isso já temos uma pista pra como resolver a questão da unidade da realidade, mas isso fica para outro post.

Abril 28, 2008

Diagrama da Consciência e suas Faculdades

Arquivado em: Uncategorized — alcvargas @ 11:50 am

Em vez de voltar imediatamente ao problema da unidade da realidade como havia prometido, irei me demorar por alguns posts fixando e detalhando as conclusões apresentadas em “A Teoria da Função Transcendental”.

 Diagrama 1:

          

 Esse primeiro diagrama é um resumo das conclusões do último post. Lá foi demonstrado que o objeto da consciência é uma coisa real, pois ele possui todos os aspectos da realidade e esses aspectos são dados à consciência por meio da consciência da apresentação do objeto nos seis transcendentais. 

A cada transcendental estão associados uma faculdade da consciência e um aspecto da realidade. Qual aspecto é dado pela consciência de um transcendental depende das relações de estruturação que existem entre a consciência e esse transcendental. Essas relações estão indicadas pelas setas do diagrama. 

A seta azul clara indica que “a é estruturado por b” e a vermelha clara indica que “a estrutura b”.  As setas mais longas e escuras das mesmas cores indicam a composição dessas setas e a seta roxa indica a composição das setas escuras com as claras. 

Como a associação entre aspectos e transcendentais depende das relações de estruturação, as setas diferentes também podem ser lidas em termos desses aspectos. Desse modo, por exemplo, “a seta vermelha escura b” quer dizer: a apresentação de b em a apresenta o poder da coisa real sobre a, seu caráter impressivo. Em concreto: a apresentação da verdade na consciência apresenta o poder da realidade sobre a consciência. 

Agora, o diagrama acima mostra tão somente como os aspectos da coisa real são dados à consciência. Mas a coisa real é dada em cada um dos transcendentais. Esse diagrama deve, portanto, ser completado, mostrando todas as relações existentes entre os transcendentais. A partir da leitura mais rica dessas relações oferecida pelo diagrama, poderemos ver em um diagrama completo as funções que cada transcendental desempenha na apresentação da realidade em todos os outros transcendentais. Mas isso fica para o próximo post.

Abril 14, 2008

A Teoria da Função Transcendental

Arquivado em: Uncategorized — alcvargas @ 8:06 pm

Hoje, darei substância às indicações do último post de uma descrição funcional dos transcendentais na constituição da realidade. Para tal, eu explicarei o modo a realidade é dada na consciência, que é o modo pelo qual nós, seres humanos, sempre a recebemos. Estas considerações nunca se referirão às propriedades intrínsecas da consciência, mas apenas à sua posição relativa dentro do sistema dos transcendentais. Por isso, depois da apresentação será possível generalizar os resultados e aplicá-los à constituição da realidade em geral. 

A realidade é dada na consciência mediante a autoconsciência (a apercepção), a consciência do aparecer (a sensibilidade), a consciência do ser (o entendimento), a consciência do logos (a razão), a consciência da verdade (a intuição) e a consciência da ação (a vontade). A pergunta é como cada uma desses modos da consciência contribui à realidade.

A apercepção é autoconsciência, que é o modo da realidade dentro da qual estamos considerando a doação da realidade. Na autoconsciência, portanto, temos uma confirmação de sua doação e consciência de que a realidade não é algo alienígena à consciência. A apercepção estabelece a imanência da realidade na consciência. 

A sensibilidade é consciência do aparecer, que estrutura a consciência, pois todo vivido efetivo é vivido de um fenômeno. Logo, a consciência do fenômeno pela sensibilidade é o que garante a atualidade da realidade. Algo é real para mim quando o encontrei na experiência. 

O entendimento é a consciência do ser, que estrutura o aparecer. O fenômeno efetivo, que não é apenas o objeto de um vivido, mas que aparece por si, é um ser. Ou seja, consciência do ser pelo entendimento é consciência da independência da realidade. 

A vontade é a consciência da ação, a qual é estruturada pela consciência. Para compreender a sua função transcendental imagine o que seria da consciência se ela não possuísse sua presença virtual (seu uso passivo) na ação. Assim toda consciência seria real e seria acompanhada pela presença virtual do fenômeno, de tal modo que ela se resumiria a ser um modo deficiente de presença do fenômeno e não possuiria um conteúdo próprio. Logo, a consciência da ação pela vontade é o que dá conteúdo à realidade na consciência. 

A intuição é consciência da verdade, a qual é estruturada pela ação, que por sua vez é estruturada pela consciência. Assim, a consciência é o que torna a ação independente da verdade. A consciência da verdade, por isso, é consciência daquilo que as coisas dependiam antes de serem dadas na realidade da consciência. Na verdade, os fatos da consciência têm sua origem da qual procederam e se impuseram como fatos à consciência. Pela intuição temos consciência do poder da realidade sobre a consciência, sua impressão. 

A razão é consciência do logos, que é estruturado pela verdade e que estrutura o ser. Ela é consciência, portanto, daquilo que confere atualidade à independência da realidade e daquilo que é o conteúdo do poder da realidade. Ou ainda, ela é consciência daquilo cujo conteúdo é dado pela independência e cuja atualidade é dada pelo poder. Ela é a consciência da transcendência da realidade, do fato que a coisa real é efetivamente uma coisa singular independente da consciência que se impõe a ela como uma realidade a ser considerada. 

A consciência da realidade é alcançada pela ação conjunta dessas seis faculdades: a apercepção, a sensibilidade, o entendimento, a razão, a intuição e a vontade. Com elas a realidade é apreendida em todos seus aspectos: imanência, atualidade, independência, transcendência, poder e conteúdo.

No próximo post comentarei esta dedução das faculdades da consciência e sua relação com o problema da unidade da realidade. 

Por favor, não hesitem em comentar, perguntar, reclamar, criticar.

Abril 11, 2008

A Unidade da Realidade

Arquivado em: Uncategorized — alcvargas @ 12:12 pm

O problema da unidade da realidade é o problema de como seis modos diferentes da realidade, cada um deles refletindo dentro de si toda a realidade, podem ser modos de uma única realidade. 

Por exemplo, a consciência é um modo da realidade onde as coisas são determinadas por serem objetos de vividos. O problema é o estatuto destas “coisas”: elas não são elas mesmas um outro transcendental, não há um “sétimo transcendental” que seria “a realidade enquanto tal”. 

A resposta dada em posts anteriores foi: os objetos da consciência são fenômenos. Mas isso não pode estar certo. Pois “aparecer” é também um modo da realidade. Caso essa resposta fosse correta então cada transcendental teria como seu objeto um modo diferente específico da realidade. E uma coisa real seria assim seis coisas, conectadas por relações essenciais: a coisa seria um vivido de um fenômeno de um ser de um logos de uma verdade de uma ação de um vivido. Aqui o transcendental deixa de ser um modo da realidade para se tornar um modo de um modo da realidade, levando a absurdos. 

O erro surge de uma má interpretação da dedução transcendental. Ela não pode querer dizer que o objeto da consciência é um fenômeno, mas sim que é a fenomenalidade do objeto da consciência que lhe torna um objeto efetivo da consciência. Apesar disto, a concepção circular da coisa real possui um núcleo de verdade, na medida em que ela busca preservar a todo custo a intuição de que a realidade não é um sétimo modo transcendental. Nesse esforço ele chega à percepção de que a realidade da coisa real é constituída pela sua participação em cada um dos transcendentais. 

É preciso corrigir essa concepção lembrando que cada modo da realidade é um modo da realidade e que, portanto, a realidade transcende cada um de seus modos tomados sozinhos. Mas essa realidade é constituída pela interconexão dos modos diferentes.

Posto de outra maneira: há o domínio da realidade que transcende cada transcendental, mas ele (a) sempre se dá dentro de um modo específico e (b) ele é o que é porque possui todos seus modos. 

O erro que cometi antes foi um erro na análise da predicação. Eu disse que na asserção “a mesa é vermelha” que “mesa” era o suporte da determinação “vermelha”, mas isso está obviamente errado: é a coisa que é vermelha, ser-mesa é apenas aquilo que lhe dá a possibilidade de ser vermelho. 

É preciso, portanto, para completar nossa teoria da realidade oferecer uma teoria da função transcendental, mostrando o papel que cada modo da realidade tem na constituição da coisa real. Como a realidade é sempre apresentada sob um modo específico, o papel que cada modo possui irá mudar de acordo com o modo dado. O ser da realidade terá um papel diferente na sua constituição quando ela se apresenta na consciência e quando ela se apresenta no ser ele mesmo. 

Agora, uma vez que cada transcendental apresenta a realidade e este é o único modo pelo qual a realidade é dada, então cada um apresenta também todos os modos da realidade incluindo a si mesmo. Por isso, o papel que cada transcendental tem na constituição da realidade é dado pela apresentação deste transcendental. Nesse sentido, o papel que o logos possui na constituição da realidade na consciência é o papel que a razão, a consciência do logos, possui na constituição da consciência. 

Continua no próximo post.

Abril 9, 2008

Harmonias e Modalidades - IV

Arquivado em: Uncategorized — alcvargas @ 4:33 pm

 Para concluir essa série introdutória de posts aos temas das harmonias do sistema de transcendentais e dos modos da realidade, aqui estão dois diagramas  representando o sistema. Por razões diagramáticas o modo concreto “intersubjetividade” foi chamado de “comunidade”, mas tenho suspeitas que nenhum dos dois seja verdadeiramente adequado.

                                  Os Modos da Realidade

A direção das setas não tem nenhum significado no diagrama. Elas servem apenas para enquadrar as duas séries de modos puros: A Vida - A Mente Divina - O Mundo e A Experiência - O Bem Supremo - O Formalismo.

A dualidade entre ser determinação da realidade e ser suporte de realidade que está presente em cada um dos transcendentais se espelha na relação entre essas duas séries, que podem alternativamente ser tomadas como as realidades fundamentais e como os ambientes de encontro das realidades fundamentais.

Podemos imaginar a realidade sendo divida em três níveis, o terrestre, o divino e o humano e nesse caso vemos a busca pela bem como aquilo que liga os humanos a Deus, o formalismo como a ligação entre Deus e o mundo e a experiência como o lugar onde o humano descobre o mundo e é afetado por ele.

Ou podemos imaginar o bem o formalismo e a experiência como as realidades fundamentais e neste caso a mente divina é o que assegura a harmonia entre a busca pelo Bem e a forma do ser, o ser humano é o agente do bem na experiência e o mundo é o lugar da manifestação das formas. 

É isso por hoje.

Sintam-se à vontade para deixar comentários, sugestões, perguntas e indagações.

Abril 7, 2008

Harmonias e Modalidades - III

Arquivado em: Uncategorized — alcvargas @ 4:57 pm

Cheguei no último post à conclusão de que o modo puro de um transcendental x que estrutura o transcendental-y são aquelas realidades-y que necessariamente possuem um objeto intencional-x. Isso conecta o modo puro do transcendental x ao modo concreto do transcendental y, pois este último é justamente o modo y na medida em que ele efetivamente possui objetos intencionais x.  A única diferença seria que enquanto o modo concreto é simplesmente o transcendental na medida em que ele tem um objeto intencional, o modo puro é o transcendental na medida em que ele necessariamente tem esse objeto.

Agora, que espécie de necessidade é essa? Será que devemos postular a existência de realidades especiais que sempre possuem um objeto intencional? Mas como isso seria possível através de conceitos? Como poderíamos descobrir, por exemplo, um fenômeno que necessariamente é a manifestação de um ser? Além do mais, se o modo puro do transcendental se restringisse a apenas uma certa região especial do transcendental em que medida ele seria transcendental?

Não, a necessidade aqui não pode querer significar um certo grupo de realidades especiais, mas deve apontar para um modo do transcendental, ao transcendental na medida em que ele necessariamente possui um objeto intencional.

Agora, é uma tautologia, e, portanto uma necessidade, que o modo concreto possui um objeto intencional. Mas o modo concreto inclui dentro de si toda a realidade do transcendental e, portanto inclui muitas coisas desnecessárias. É necessário que a natureza possua um ser, mas a natureza não possui tão somente um ser genérico, mas ela possui um ser singular, pleno de contingências e especificidades. O modo puro de um transcendental x é, portanto, apenas a forma necessária do modo concreto do transcendental y que ele estrutura.

O modo puro de x deste modo pode ser correlacionado à totalidade do modo abstrato de y. Pois cada realidade concreta singular de y pode acabar se revelando como não sendo  concreta. Cada fenômeno pode talvez ser uma mera projeção da consciência e cada ação pode se revelar como sendo um mero reflexo. Mas cada uma dessas decepções e destes enganos jamais põe em dúvida a realidade da totalidade de um dado transcendental. A possibilidade de engano não nos faz colocar em cheque a realidade da experiência em geral e a possibilidade de ações involuntárias não nos faz duvidar de que quem vive uma vida possui uma consciência.

Temos então que o modo puro de um transcendental x é a totalidade do modo abstrato ou a forma necessária do modo concreto do transcendental y que é estruturado por ele. COM isso as deduções se simplificam bastante:

O modo concreto do logos é o pensamento.  A idéia de uma totalidade do logos é a idéia de uma mente divina que está a cada momento em ato, pensando. Logo o modo puro da verdade é a mente divina, o que antes chamei de “o absoluto”.

O modo concreto do ser é a essência. Uma essência possui necessariamente uma forma, que é justamente a presença virtual nela do conceito que ela exemplifica. A totalidade do ser, que não podemos duvidar que tenha uma forma, é o formalismo universal. O modo puro do logos é, por isso, o formalismo.

O modo concreto do fenômeno é a natureza. A totalidade dos fenômenos nos é dados no fenômeno global do mundo. Logo o modo puro do ser é o mundo.

O modo concreto da consciência é o ser-aí. A forma geral do ser-aí é justamente a experiência dos fenômenos, o se encontrar em seu meio e o lidar com eles. Por isso, o modo puro do aparecer é a experiência.

O modo concreto da ação é a intersubjetividade, a ação que mostra um sujeito a outros sujeitos. A totalidade das ações de uma pessoa é chamada da vida desta pessoa. Portanto, o modo puro da consciência é a vida.

O modo concreto da verdade é a história. Weber disse em algum lugar que “a História é o conjunto dos resultados impremeditados das nossas ações”. Isso acontece porque a história não é uma criação nossa, mas a verificação da verdade, seu acontecer concreto, que se dá quando enfrentamos a realidade. Os planos e projetos dos humanos, fracassados ou bem sucedidos, estruturam e dão forma à esse acontecimento. A totalidade da verdade, portanto, que necessariamente se realiza na história, é a totalidade destes bens individuais buscados pelas pessoas, é o bem supremo. Concluímos, portanto, que o modo puro da ação é o bem supremo.

Com isso deduzimos os modos puros dos transcendentais. Como se vê, alguns deles não são aqueles que estão presentes no esquema do primeiro post desta série. Isto só vem a confirmar o que dissemos antes sobre as intuições que seguem as harmonias e sua correção e confirmação mediante o raciocínio com conceitos. No próximo post, apresentarei uma versão corrigida do diagrama e depois retornarei à questão da unidade da realidade.

Para terminar, observem como as oposições se mantêm entre os modos puros: O Bem Supremo julga o Mundo, a dinâmica da Vida rejeita a estática do Formalismo e a Mente Divina é o oposto da Experiência, sempre relativa e circunstancial.

 

Posts antigos »

Blog no WordPress.com.