Hegel as a Boy

abril 12, 2010

Timeu e a Filosofia Brasileira

Filed under: Uncategorized — alcvargas @ 1:26 pm

Comecei a ler o Timeu hoje – seguirei um curso sobre o diálogo ao longo do semestre. Li a introdução e não me contive tecer alguns comentários:

Crítias em 26d: “Vamos transferir para a realidade dos fatos os cidadãos e a cidade que ontem nos descreveste como uma espécie de mito, admitindo que a cidade seja esta mesma, e seus moradores, como imaginaste, nossos verdadeiros antepassados…não havendo menor inconsistência de nossa parte em considerar os homens de hoje como os que verdadeiramente existiram naquele tempo”

É preciso ler, no mínimo, duas vezes. Primeiro, a Cidade ideal descrita por Sócrates na República deverá ser identificada com a cidade descrita por Sólão, formada pelos antepassados dos atenienses, donos de grandes feitos registrados pelos sacerdotes egípcios. A Cidade será “esta mesma”, Atenas, e os moradores da cidade serão os primeiros atenienses. “Os homens de hoje” são os homens ideais da cidade que imaginamos hoje e eles são idênticos aos homens que existiram “naquele tempo”.

Hoje, para ser mais específico, os homens juntos a Sócrates são Crítias, Timeu e Hermócrates, aceitos como interlocutores pela semelhança de sua dupla formação política e filosófica com a formação dos guardiões da Cidade. Por esses interlocutores a Cidade deverá ser animada depois que Sócrates a pintou como um belo animal em repouso, “como uma espécie de mito”.  Eles a animarão por meio de um relato egípcio, que nada esquece e tudo recorda a partir da primeira geração, a cosmogonia. Estes “homens de hoje”  representarão os cidadãos da Atenas v. 1.0 e darão testemunho a Sócrates da história de sua cidade e dos feitos heróicos pelos quais ela se mostrou uma verdadeira Cidade, ein wirklicher Staat.

Crítias, em 27A-B: “..Receberei das mãos dele [, Timeu,] os homens que esse discurso puser no mundo e, das tuas [, Sócrates], determinados indivíduos que tiveram o privilégio de serem educados por ti; e em harmonia com a história e os ensinamentos de Solão, na qualidade de juízes os chamaremos diante de nosso tribunal, para elevá-los oficialmente à condição de concidadãos, como se eles fossem, de fato, os atenienses daquele tempo, de cujo desaparecimento nos informam os escritos sagrados, razão de designá-los, desde agora, como atenienses e nossos verdadeiros concidadãos.”

Crítias receberá dois grupos de homens. Os homens tal como descritos na cosmogonia, isto é, a humaindade definida por sua natureza e sua função cósmica e “determinados indivíduos” educados por Sócrates, os personagens do diálogo, a platéia de Crítias. Qual grupo de homens é chamado diante do tribunal? Quem é chamado terá a honra de se tornar ateniense – será o homem no seu estado natural que será adotado pela cidade de Atenas? Ou é a educação filosófica que faz dos homens concidadãos de Sócrates?

As camadas de 26d permitem aceitar ambas as interpretações. Timeu, o primeiro a discursar, é natural da Lócrida e seus concidadãos não são atenienses. No entanto, ele possui uma formação filosófica e quem pratica a verdadeira filosofia é cidadão, em primeiro lugar, da Cidade ideal. Se a Cidade é a primeira Atenas, então o amante da sabedoria pode elevar outros ao estatuo de concidãos, como es eles fossem, de fato, os atenienses daquele tempo.

A Cidade Ideal é Atenas, que existe desde a primeira geração dos homens, quando eles foram dados aos deuses como seu rebanho e coro. Ao explicar sua indulgência da curiosidade de seus anfitriões Sócrates observa que pensar sobre a Cidade exige mais do que o provincianismo dos poetas, capazes apenas de contar as histórias de seus ouvintes, e mais do que o cosmopolitismo dos sofistas, acomodados na paz e, por isso, ignorantes da defesa do espaço político na guerra. A vida da cidade e a universalidade da cultura só se encontram juntos nos concidadãos que veêm sua cidade como uma possibilidade intrínseca do ser humano. Sem isso, a cultura não cultiva nenhum solo e a cidade se fecha.

De fato, além dos sofistas, Platão aqui critica autores de comédias, que teriam feito troço dele por se inspirar em  no Egito. Platão vira o jogo e reescreve a fundação de Atenas, investindo sua Cidade demasiada “egípcia” da autoridade das origens. A identificação das duas cidades de Sócrates abre a cultura grega para o estrangeiro por meio de uma nova narrativa sobre suas origens. O avô de Crítias coloca o mito de Atlântida como uma refundação mitopoética da cultura grega opinando que “Se Sólão tivesse concluído a história [bastante estranha, mas rigorosamente verdadeira] , que trouxera do Egito…, a meu parecer nenhum poeta, nem Hesíodo nem Homero, houvera alcançado mais fama do que ele“. Talvez não fosse fora de lugar relembrar Os Lusíadas: “Cesse tudo o que a Musa antiga canta/ que hoje um novo valor se alevanta”, “As verdadeiras vossas são tamanhas/ que excedem as sonhadas, fabulosas“.

Um Timeu é o que a renascente filosofia brasileira mais precisa. O maior perigo, depois de décadas de um academicismo sufocante fascinado pelas modas internacionais, é o seqüestro da inteligência por uma filosofia “marginal” ansiosa por “romper” com Academia & Europa. Timeu tupiniquim, um arranjo da tensão entre a universalidade da filosofia e a naturalidade brasileira, o subterfúgio de encontrar no solo do filosofar nativo a tradição ocidental & metafísica tão rechaçada.

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