Hegel as a Boy

Julho 10, 2009

Parte I: Sobre Deleuze

Arquivado em: Uncategorized — alcvargas @ 7:03 pm

Obrigações de estudo me mantiveram afastado do blog nos últimos meses e a situação talvez continue nos próximos. Para que esse troço não morra de vez, algumas reflexões a partir de uma transcrição de uma aula do Deleuze que encontrei num acervo muito legal de textos.

(Essas reflexões geraram um texto um tanto longo que serã quebrado numa série de posts. Neste primeiro, apresento um resumo do texto de Deleuze.)

Deleuze insiste ao longo de sua fala que qualquer enunciado divide o sujeito em dois: “o sujeito da enunciação”, quem fala, e “o sujeito do enunciado”, de quem se fala. Essa divisão do sujeito estaria já presente em Descartes: a divisão entre o eu que pensa e que, por isso, pode ter sua existência intuída, e o eu que está andando, trabalhando, etc… cuja existência é duvidosa e precisa ser fundamentada. Deleuze não discorda dessa análise cartesiana do enunciado, muito pelo contrário, ele está tão convicto de que o enunciado envolve a divisão do sujeito que ele quer escapar desta divisão apelando para a tese de que “não existem enunciados individuais”.

Deleuze diagnostica um problema análogo com os desejos. O desejo também divide o sujeito: desejo é falta de alguma coisa, ele tem uma referência intrínseca a um objeto que o transcende e por isso só pode ser satisfeito temporariamente por prazeres, que são “descargas” temporárias, mas nunca a obtenção do objeto mesmo. O sujeito está dividido então entre os prazeres temporários que ele consegue e o bem transcendente que ele busca, ou no caso dele realmente conseguir esse bem, entre as descargas temporárias e o gozo final. O sujeito está preso pelo desejo na redoma formada pela falta de realidade própria do desejo, pelo prazer e pelo gozo.

Um encurralamento semelhante ocorre dentro do enunciado: lá o sujeito é preso entre o sujeito da enunciação, o cogito certo porém vazio, o sujeito do enunciado, determinado porém duvidoso, e Deus, que não é Descartes. Há uma diferença no tratamento que Deleuze dá aos dois casos: enquanto ele critica os enunciados enquanto tais, ele se llimita, de vez em quando, a somente criticar uma certa compreensão do desejo e não os desejos enquanto tais. Por outro lado ele diz que “todo desejo é um enunciado, todos os enunciados sao desejos”.

E por que os enunciados e os desejos são detestados por Deleuze? Primeiro, porque eles matam o pensamento, o relacionando sempre a um sujeito dividido entre o sujeito da enunciação e o sujeito do enunciado. Essa divisão é a introdução do dualismo, que nivela todos os enunciados do pensamento na sua oposição entre os predicados “ser um” e “ser múltiplo”, uma nivelação que impede o /processo/ do pensamento. Aqui a unidade do enunciado provém do sujeito de enunciação enquanto a sua multiplicidade é assinalada pelo sujeito do enunciado. Além disso, Deleuze crê que estas divisões estejam por trás de um exercício hipócrita do poder, exemplificada na má-fé: “Eu te compreendo enquanto cidadão (ou seja, enquanto um sujeito de enunciação da lei), mas, enquanto policial, preciso te prender (ou seja, enquanto sujeito do enunciado da lei)”. E assim há uma justificativa geral do poder que pode ser formulado “já que somos todos sujeitos de enunciação, vamos simplesmente aceitar o que é enunciado.”

Em que medida estas concepções de enunciado e desejo podem ser sustentadas será o assunto dos próximos dois posts.

4 Comentários »

  1. Não consigo ver tanto dualismo em Deleuze, ao contrário, na minha leitura percebo que o tempo todo ele tenta quebrar com esse paradigma (influencido por Spinoza e Nietzsche).

    Comment por Stéfani — Julho 12, 2009 @ 5:49 pm

  2. Bem, eu não disse que ele acha que essa divisão seja real em algum sentido primitivo, mas ele certamente diz neste e outros textos que ela é realmente um efeito de certas práticas e concepções que ele quer evitar com seu imanentismo.

    Comment por alcvargas — Julho 12, 2009 @ 11:15 pm

  3. …gostei do seu resumo sobre o assunto me ajudou e muito….grato continue assim que vc está ajudando muita gente

    Comment por osvaldo luiz da silva — Agosto 31, 2009 @ 11:52 am

    • ó, brigado. Ajudando com o que, exatamente? Você estuda filosofia?

      Comment por alcvargas — Agosto 31, 2009 @ 12:02 pm


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