Hegel as a Boy

Abril 6, 2009

O Sol e o Sol do meio dia

Arquivado em: Uncategorized — alcvargas @ 5:30 pm

Me desculpem, no último post eu fiz uma salada na minha fenomenologia do Sol, a qual preciso esclarecer prontamente antes de apresentar algumas idéias que me vieram ontem a noite enquanto eu meditava sobre o Sol.

No último post, eu disse duas coisas aparentemente contraditórias: (i) que o Sol “não era nada”, que ele era um vazio no nosso campo visual, que quando olhávamos para ele não viamos nenhuma coisa, apenas a luz pura e (ii) que era óbvio que em um único ato percebíamos o sol, a luz e nossa própria visão. Como foi que eu consegui dizer essas duas coisas? Será que eu estou simplesmente proferindo palavras para satisfazer alguma idiosincrasia sem consideração pela coisa mesma?

Nada disso. O que busquei fazer no último post foi desconstruir o que pode ser chamado de “o Sol do meio do dia”. Ele não é o Sol cujo trajeto vemos todo dia e sob o calor do qual trabalhamos, mas uma imagem filosófica que recorta o Sol no seu momento mais representativo, o meio dia. O Sol do meio dia se torna nas mãos dos filósofos uma poderosa imagem. Ele é a coisa cuja essência reside na iluminação, numa manifestação absoluta que faz com que todas as outras coisas sejam manifestas. A partir da imagem da manifestação luminosa, o filósofo pula para a manifestação enuqanto tal e a fundamenta numa realidade arqui-manifesta.

Como nos últimos posts eu combati essa posição a respeito da manifestação, eu quis também mostrar que essa imagem que a sugeria estava viciada. Por isso, eu sublinhei que o Sol só era conhecido como objeto por causa de suas relações: quando ele se esconde debaixo das nuvens e quando ele se movimenta pelo céu e faz ele mudar de cor, por exemplo. O Sol do meio dia, tomado de forma isolada, não pode ser uma realidade arqui-manifesta, mas apenas o vazio da apresentação pura, que não possui nenhuma realidade por-si.

O Sol do meio dia só está ancorado na realidade por ser um recorte do Sol concreto que nem sempre é arqui manifesta, mas se levanta no amanhecer, se esconde por trás das nuvens e se reflete no mar, se põe ao entardecer e à noite compartilha a iluminação do mundo com a lua, as estrelas, os relâmpagos e o fogo. A apreensão concreta do Sol mostra justamente que a manifestação não é nada por si e nem está fundada em algo que sempre está manifesto, mas é fruto da copresença das coisas, que se manifestam nas sua incessante interação, na dança dos astros e dos elementos.

Talvez dirão: mas isso também é um recorte, mas um recorte que favorece o “pior”: o Sol do meio dia é justamente a “melhor parte” do Sol, quando ele participa da “verdadeira realidade”, enquanto o Sol que se movimenta é apenas a parte sensível do Sol, que esconde sua natureza soberana. Mas é justamente por isso que coloquei a pergunta no último post: como é que a apresentação pura está fundamentada na coisa-em-si? A resposta provisória que dei foi que a coisa-em-si afirmando sua própria realidade e reiterando a irrealidade da apresentação pura, criava justamente esse brilho pura que é o Sol do meio dia. Se eu faço um recorte, ele é apenas provisório, a fim de exibir as articulações da totalidade.

No próximo post, meditações que partem do Sol concreto.

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