Quero neste post responder a uma objeção natural contra a idéia de que as coisas não são manifestas em razão de uma realidade arqui-manifesta. Essa objeção não é uma objeção lógica em sentido estrito, mas uma tensão entre essa idéia e um exemplo clássico de apresentação, a apresentação do mundo pela luz, a presença do mundo para o olho durante o dia. Nessa apresentação, parece que de fato, as coisas estão presentes em virtude da coisa mais presente, o Sol.
A centralidade da intuição do Sol para a cognição humana é uma tese da teoria da tripla intuição de Olavo de Carvalho. Segundo essa teoria, o ser humano pode saber que ele possui um conhecimento materialmente válido e não apenas logicamente válido porque ele possui a tripla intuição de (a) o Sol (b) a visão do Sol e (c) a luz que liga o Sol e minha visão dele. Essa intuição se diferencia da visão de um copo, por exemplo, pois a visão de um copo, embora venha acompanhada da consciência da própria visão, não traz consigo a intuição da conexão causal que conecta a visão ao objeto. A luz, no entanto, é ao mesmo tempo a conexão causal que liga o Sol ao olho e a condição da visão, e por isso a intuição da luz não pode deixar de estar presente na intuição do Sol. Na visão da fonte de luz, portanto, temos uma intuição que sabemos corresponder ao objeto.
Colocada desta maneira, a idéia parece ser de uma obviedade estonteante e é natural perguntar por que ela nunca foi apresentada antes. Olavo atribui isso ao fato de que a teoria do conhecimento nunca se deteve no exame da percepção deste corpo único que é a luz. Pois bem, nesse post eu gostaria de examinar a nossa visão do corpo associado, o Sol.
Desde pequenos nos acostumamos a ouvir sobre essa coisa no céu, esse objeto celeste, o Sol. Gostaria de investigar os fundamentos que existem para dizermos que o Sol é uma coisa que fica no céu, a uma distância enorme de nós. De fato, como sabemos que o Sol é uma coisa distante? Uma montanha distante parece pequena, tem cores não muito fortes e sua forma não é muito detalhada. Mas o Sol tem a luz mais forte que conhecemos, então esse critério não se aplica a ele. Como então, imaginamos uma fonte por trás desta explosão de luz que vemos no céu todo dia?
Um indício de sua distância é o fato de que o Sol sempre aprece detrás das nuvens, nunca na frente delas. Então ele está mais longe que todas as nuvens. Outro indício é o seguinte: quando ele se levanta, começa o dia e todas as coisas ficam iluminadas e quando ele se põe termina o dia e tudo cai no escuro. Então essa luz no céu se move, então deve ser um corpo, como todas as coisas que por aqui se movem. E ele deve ser um corpo bem distante para que ao brilhar ele consiga iluminar tanto. Bem distante e bem grande: a desproporção entre o tamanho do Sol ao olho nu e seu efeito luminoso sugere sua distância e seu tamanho verdadeiro.
Mas tudo isso são relações: estar atrás das nuvens, se levantar e se por, iluminar o mundo inteiro. Olhando para o Sol, efetivamente, não vejo um objeto distante. O Sol, visto sozinho, é apenas um furo branco no céu, uma região de luz pura onde não há coisa alguma. Onde está, então a coisa arqui-manifesta em virtude da qual todas as coisas são manifestas? O que vejo é um espaço de manifestação pura, de apresentação pura, sem que nada seja apresentado.
A coisa que ilumina a todas as coisas aparece enquanto a fonte de toda luz, até mesmo da luz pura que atravessa o céu. É sendo a fonte da luz pura que ele ilumina todo o resto. Mas não o conhecemos enquanto realidade, enquanto coisa, apenas enquanto fundamento da manifestação. A “objeção”, portanto, está desmontada: o sol não é a coisa arqui-manifesta em virtude da qual todas as coisas estão manifestas, mas o fundamento da luz pura.
Mas como é que ele é o fundamento da manifestação? Como é que a presença luminosa do mundo está fundamentada no Sol? Por meio da luz pura. Mas o que é luz pura, o que vemos quando olhamos para ela? Vemos a luz que deixa as coisas se apresentarem e nada mais. A luz pura é um vácuo visual que declara: não há nem-uma realidade na apresentação pura. Eis a intuição mais simples do que chamei a idealidade da apresentação.
O vazio da luz não é um furo no céu pelo qual o Sol despejaria sua luz para o resto do mundo, mas essa ausência é idêntica à luminosidade máxima. O fundamento, enquanto uma realidade que fundamenta a apresentação diz “o que é, é e o que não é, não é” – essa insistência no ser e esse vazio do nada são visualmente presentes por meio da luz pura, a qual em-si nada possui, mas que permite que todas as coisas reais aparecerem. O fundamento da apresentação a fundamenta justamente afirmando sua própria realidade e a idealidade da apresentação.
Entendo que esse post tenha sido um pouco obscuro. Por favor, não hesitem em deixar seus comentários, dúvidas, perguntas, pedidos etc…