Antes do conteúdo de hoje uma nota clerical: saí do conservadorismo em debate – já não moro mais em Brasília então fica difícil eu particpar do grupo. Ademais, como expliquei alhures, fiz aqueles resumos nas coxas. E o meu colega de blog Uriel anda com a cabeça meio alterada.
Como alguns de vocês sabem, eu sou aluno do curso de filosofia de Olavo de Carvalho. Ele nos passou recentemtne um exercício, um esboço do qual me levou para um campo bem distante do proposto, mas acabei gostando do que escrevi e por isso estou conservando aqui, acho que facilitará a compreensão de algumas coisas que falo sobre:
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Eu me lembro que ele [Antonio] me contou uma história que mostra como a vontade de ser livre lhe era própria desde pequeno. Poucos anos dele ter se mudado para Brasília, na terceira ou na quarta série, ele era vítima de uma pegadinha boba dos demais meninos do colégio: eles lhe perguntavam “Ei Antonio, você gosta de fulana?” e daí se ele respondia que sim, insistiam que ele era apaixonado pela menina e se ele respondia que não, diziam que a detestava – e depois quando ele aprendeu a se calar e nada responder adaptaram a pargunta para “Ei Anotnio, você gosta de mulheres?”. E tudo isso o irritava muito, todo esse véu de convenções sociais, toda essa sexualidade implícita nas brincadeiras das crianças brasileiras lhe tiravam do sério, deturpavam o sentido de todas suas ações. O que Antonio almejava não era a liberdade de poder fazer o que ele quisesse, mas a liberdade de ser livre dessas compulsões como a seuxalidade, que lhe tiravam a possibilidade de determinar o sentido de suas ações.
Agora, o curioso é que a vontade de dominar o sentido do que ele agia e dizia poderia ter levado Antonio a tentar dominar a língua portuguesa que ele estava aprendendo, para ele poder se exprimir melhor e nesse caso em particular poder responder a pegadinha de uma maneira que calasse os chatos que o atormentavam. Mas não foi isso o que o introspectivo Antonio fez, muito pelo contrário. Ele simplesmente se retraiu da vida social e se concentrava nas coisas que ele gostava e onde as coisas eram claras, onde havia ordem e clareza: na matematica e nos jogos e, mais tarde, na especulação teórica, que ele só veio a chamar de “filosofia” bem tarde, no segundo grau, após algumas leituras adolescentes de Nietzsche e, mais importante, após a leitura de uma biografia de Heidegger. O desejo por liberdade se uniu a um prazer de saber.
O desejo por liberdade não era nesse tempo um desejo genuíno, mas uma roupagem bonita para algo bem mais simples, o desejo de ser ele mesmo e ser conhecido. O adolescente Antonio não reconhecia isso, achava até que ele não dava bola para o que os outros pensavam dele, mas na verdade, o que ele queria era um argumento perfeito, que forçasse as pessoas a vê-lo como ele se via. Ele percebia a contradição entre não quere dar bola para as aparências e querer aparentar o que ele realmente era, mas apenas a registrava não processava o fato. A percepção de que era preciso abandonar o elemento comum da vontade e do querer dizer só começaria bem mais tarde, no plano altamente teórico de uma discussão com Heidegger e que atingiria verdadeira fruição com a leitura das Confissões de Santo Agostinho após o término da faculdade.
Antonio foi em busca, então, não de uma expressão que se conformasse a sua vontade, mas de um objeto que não estivesse submetido ao jogo das segundas intenções, um objeto sobre o qual ele pudesse ter certeza do que ele pensava. Mas isso naturalmente era muito difícil para um adolescente. Como que ele poderia pensar diretamente e com certeza sobre o ser? É isso, talvez, o que lhe atraiu tanto em Martin Heidegger e Alain Badiou, suas principais influencias quando ele entrou na faculdade de filosofia. Cada um lhe oferecia um acesso ao ser: fosse pela analítica existencial, fosse pela ontologia matemática. Sua paixão pela matemática acabou lhe levando a preferir o segundo modo, mas ele demorou a rejeitar taxativamente o primeiro, tanto que no seu primeiro trabalho de faculdade ele tentou unir os dois.
Foi durante seus anos da UnB que tornaram claro para ele essa direção de sua vida. Heidegger passou de um mestre para um grande inimigo, um mago que queria deixar a si mesmo e toda a filosofia ser submergida pelas compulsões que Antonio tanto detestava. Sua irritação com o marxismo, o heideggerianismo, a psicanálise e tantas outras escolas nunca foi especificamente de conteúdo, mas de tom: “Eu sei o que está por trás de você, eu sei a sua verdade”. Se o que lhe incomodava era o tom, a solução que ele descobriu nesse tempo foi mudar de tom: ele assumia completamente a responsabilidade por aparentar ter uma “verdade” para o hermenuta da suspeita responder e buscava determinar como que ele deveria ser para não aparentar isso, para roubar do fofoqueiro filosófico seu direito de fuçar genealogias.
Essa busca pela liberdade na verdade e vice versa estava por trás até mesmo de sua vida amorosa e religiosa. Pois, de fato, Antonio buscava sempre era “viver seu sistema”, como diziam pitorescamente os idealistas. E isso significava aprender a desistir da vontade própria para conquistar a vontade livre. E que outra maneira de soltar a vontade do que amar alguém incondicionalmente, entrar numa relação que exigisse a presença de sua pessoa, com toda sua responsabilidade e liberdade, onde se prender à sua personalidade única e excêntrica (esse luxo viciado que ele tinha tão cuidadosamente montado na sua adolescência) seria a perdição. E como que sua vontade de ser livre podia se manifestar de tantas maneiras (no amor, na filosofia, na arte …) sem que ele reconhecesse que o mundo inteiro se baseava no amor livre divino e buscasse agradecer e participar desse amor das formas que Deus tinha posto?
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