(Outro post sem revisão. Desculpa, o tempo é curto em dias de mudança, mas não resisto partilhar o que venho pensando)
O primeiro princípio não se manifesta e a apresentação não possui nenhuma realidade própria – ela está inteiramente fundamentada no primeiro princípio – esta é a única posição metafísica que consegue responder a Heidegger e seus semelhantes. Isso foi o que defendi no último post. É preciso agora começar a dar substância a essa posição.
Primeiro, me permita lançar mão da minha sistematização das faculdades humanas – por mais que seus fundamentos tenham sido deslocados com o meu primeiro post do mês. Nela há uma explicação de como é possível para o filósofo englobar toda a apresentação numa perspectiva transcendental. Isso ocorre pela expansão da percepção, onde a realidade percebida é apreendida na sua independência e onde o ser humano está presente de forma virtual, como expliquei nos posts “A Identidade, o Poder e o Virtual” e “A Verdade e o Virtual”.
Na percepção, o ser humano compreende a apresentação da realidade como uma possibilidade sua. Na medida em que ele pode, pela imaginação e pela memória, expandir o campo de sua percepção possível, ele passa a estar virtualmente presente em toda a apresentação. Ele estica e enche sua alma para que ela possa abarcar a realidade inteira. É dessa forma que o ser humano pode ter uma vivência da apresentação na sua transcendentalidade. É isto que torna possível que o fenomenólogo reduza a realidade à consciência, o heideggeriano a reduza ao ser, o nietzscheano à vontade de potência etc… Sempre se trata de uma expansão da percepção.
Ao assumirem a apresentação, esses pensadores mostram que nada que seja apresentado (e especialmente nada arqui-apresentado) possa ser um princípio da realidade. Mas se eles seguissem a dinâmica de seu projeto e não a congelassem nesse momento de expansão da alma, eles seriam naturalmente levados ao conhecimento de um primeiro princípio imanifesto que governa a apresentação.
Efetivamente, aquilo que é percebido pela consciência, a realidade apresentada, é colocada como possuindo uma determinada constituição independente: a expansão da alma não leva ao solipsismo. Essa constituição é independente no sentido de que há um conteúdo objetivo que é uma norma para a percepção. Ao elevar uma percepção deste conteúdo a um juízo que diz que as coisas realmente são de uma maneira ou de outra, eu atribuo esse contéudo à coisa mesma: a maçã é verde, ela não é apenas percebida como verde, o verde pertence à essa maça.
No entanto, não há dúvida de que a maçã tal como eu conheço está condicionada pela apresentação e mais especificamente pela presença virtual da minha consciência. Assim, antes de ser percebida como verde ou qualquer outra coisa, a maçã é percebida como uma coisa percebida. Não apenas o verde pertence a essa maça, mas as condições da apresentação também pertencem a ela. Mas é claro, essas condições não afetam tão somente à maçã, mas a todas as realidades perceptíveis.
Essa atribuição é impossível de ser feita a partir da percepção. A nossa percepção é sempre limitada a uma pequena parte da realidade, mesmo quando o tamanho da alma torna possível viagens mentais para qualquer lugar do mundo. Não há na percepção um fundamento para atribuir as condições da apresentação às coisas apresentadas, para fundamentar a apresentação nas coisas inapresentadas. Esse fundamento é, portanto, conhecido fora da percepção, pela razão, como o fundamento transcendente de toda a apresentação. Ele é o primeiro princípio de toda a realidade – Deus, em suma.
Na atividade da razão, as realidades são apreendidas segundo conceitos e por isso elas são conhecidas na sua transcendência em relação à manifestação: as coisas não apenas estão presentes de tal modo, elas são desse jeito. E o ser humano também reconhece que ele possui uma dimensão transcendente: se eu acredito que as coisas realmente sejam assim, é porque eu realmente acredito nisto – essa crença realmente me pertence. A razão se eleva sobre a percepção porque ela não apenas vê o fato objetivo, ela fundamenta a visão em razões e o fato visto em causas. E em uma e a mesma operação ela busca sistematizar a mente do sujeito em cadeias de razões e sistematizar a totalidade do ser em uma cadeia de fundamentos. Nela o homem não se defronta com um objeto, mas busca refletir a realidade sistemática do mundo fundamentado por Deus.
É preciso observar que Deus e a pessoa transcendente do homem não são fundamentos no sentido de serem “razões últimas”. Razões últimas são um resultado do trabalho de sistematizar a realidade, mas para que isso possa acontecer é preciso que já haja um fundamento para a apresentação que assegure a objetividade dos juízos e a possibilidade assim de perguntar pelo “porque” por trás deles. Deus fundamenta a apresentação na medida em que ela é a manifestação das coisas reais e a pessoa humana a fundamenta na medida em que ela é o campo da percepção possível.
Aqui não há nenhuma relação experiencial, nenhum tensão apresentativa entre o homem e Deus, como se homem e Deus estivessem presentes um ao outro. Tanto a pessoa humana quanto Deus fogem à apresentação. O que há é uma participação do homem na fundamentação divina: enquanto Deus é o fundamento do sistema do mundo, sua unidade é o modelo que o homem deseja imitar com suas sistematizações. A razão humana busca repetir, a nível mental, a criação do mundo e assim participar da realidade divina. Isto não é uma relação apresentativa, mas uma relação de semelhança e participação.
É preciso não cair aqui no erro racionalista: do fato que as coisas são conhecidas na sua transcendência pelos conceitos não se segue que os conceitos nos entregam como as coisas realmente são, para além da apresentação. A forma também é apenas mais um aspecto da apresentação, mas ela é justamente o aspecto que aponta para o fundamento da apresentação. Deus, portanto, não é uma arqui-inteligência em virtude do qual todas as coisas teriam forma (o que seria simplesmente outra forma de um primeiro princípio arqui-manifestativo) ao qual a razão humana se assemelharia. A participação não é uma semelhança metafísica entre o homem e Deus, como se a razão unisse ambos no seu ser, mas é um isomorfismo entre o trabalho da rãzão e a ação criadora. Não é uma unidade metafísica de duas realidades, mas uma unidade de duas ações, duas operações partindo de duas realidades diferentes.