(post sem nenhuma revisão de português)
As considerações sobre a natureza sistemática da filosofia ficam para outro post. Ontem percebi uma maneira extremamente clara de colocar a minha leitura de Heidegger e do desafio que vejo que ele coloca para qualquer metafísica e espero hoje conseguir expô-la.
A grande crítica que Heidegger faz à metafísica é a confusão entre o ser e a entidade, ou seja, a interpretação do ser como aquilo que é comum aos entes. Dizer que o ser é a entidade é dizer que as coisas são, que elas estão no ser, porque alguma coisa, os entes verdadeiros, são apresentados.
(Heidegger não emprega a distinção entre apresentado/apresentação, mas ela me é útil aqui: há as realidades apresentadas, mas elas estão “dentro” (de algum modo,em algum sentido) da apresentação – toda a questão de Heidegger é pensar essa apresentação dos apresentados, o ser dos entes.)
A interpretação metafísica do ser é claramente discernível na solução aristotélica da analogia do ser. Aristóteles vê que as coisas se apresentam como coisas-que-são, ele vê a ultrageneralidade do ser, que engloba toda a apresentação. Ele se pergunta então pela razão pela qual se diz que as coisas são e ele responde: se diz que as coisas são em virtude de sua relação com a substância, que é por si mesma, que é verdadeiramente ente. Aqui claramente temos que o ser das coisas corresponde ao fao de que alguma coisa é apresentada.
Essa tese aristotélica se apóia numa distinção originalmente traçada por Platão, o pai da metafísica e do esquecimento do ser segundo Heidegger. Essa distinção é a distinção entre aquelas coisas que são simplesmente e aquelas coisas que são em virtude desta primeira categoria. Essa é a relação em Platão entre as Formas e seus exemplares sensíveis, que são por “participarem” das formas. Essa distinção em Platão se coneta àquela entre aquilo-que-as-coisas-são (que Heidegger [na minha tradução em inglês] chama whatness) e que-as-coisas-são [thatness] – o fato-que-as-coisas-são fica subordinado ao fato das coisas serem isso ou aquilo, ao fato de participarem das formas. Aqui mais uma vez as coisas são em virtude de alguma coisa - uma realidade arqui-manifesta, que é própria ao ser e assim à apresentação - ser apresentada.
Prefiro continuar falando da apresentação em lugar do ser, pois ao contrário de Heidegger, considero que além do ser há vários outros transcendentais que englobam a apresentação enquanto tal e não considero que o ser possua alguma preeminência entre eles: ao contrário, os transcendentais formam um sistema onde cada um “depende” de certa forma de todos os outros. Mas o que é a apresentação, o que são os transcendentais, que tipo de realidade eles tem? As respostas a essas questões serão esboçadas em breve.
Para situar melhor o leitor, permita que eu esclareça o pouco o que vem a ser a apresentação. Eu, você e todos nós somos reais e estamos presentes em um mundo onde encontramos várias outras realidades de tipos distintos: realidades pessoais, vitais, inorgâncias, espirituais, demoníacas, materiais, divinas etc… Todas essas realidades são apresentam traços e marcas características: cores, partes, tamanhos, quantidades etc… Esse complexo de todas as coisas na sua presença recíproca umas as outras é a apresentação. A apresentação é o quadro, a configuração geral “dentro” do qual nos fazemos presentes – a apresentação é a apresentação dos apresentados. Posto de maneira poética, a apresentação são as leis anônimas, a roda do destino, a necessidade sob a qual todas as coisas entram quando elas surgem no mundo.
Então, a metafísica se caracterizou por explicar a presença das coisas reais em virtude da presença de uma realidade arqui-presente. Com isso, segundo Heidegger, ela escamoteou o problema da apresentação – pois o que seja uma realidade arqui-presente vai depender de uma prévia compreensão do que seja a apresentação. Buscando sempre conhecer essa realidade supremamente manifesta, a tradição filosófica herdou acriticamente a interpretação platônica da distinção entre a apresentação e os apresentados em termos de whatness e thatness e apenas reformulou essa apresentação de maneiras cada vez mais distiantes de uma apreensão original da apresentação. Toda a metafísica, portanto, teria desde sempre tido um discurso subterrâneo, um pensamento impensado que seria seu verdadeiro fundamento. Toda metafísica se assentaria numa apreensão original da apresentação que ela não tematiza explicitamente.
O princípio proposto pela metafísica, não pode, portanto ser um primeiro princípio nem da nossa própria operação intelectiva nem das realidades apresentadas. Por um lado, a nossa apreensão deste primeiro princípio é sempre mediada por uma apreensão da apresentação, que por isso é nosso verdadeiro ponto de partida. Por outro, esse princípio é intrinsecamente manifesto e por isso intrinsecamente condicionado pela apresentação enquanto tal. O esquecimento do ser é igualmente o abandono da terra pelos deuses. De fato, o ser heideggeriano funciona em vários aspectos como a Necessidade impessoal que regia até mesmo o mundo divino.
Para que a metafísica atinja o verdadeiro fundamento da realidade é preciso, portanto, abandonar a equação metafísica de que as coisas se manifestam em virtude de uma realidade arqui-manifesta. O princípio é algo radicalmente não manifesta, algo que não faz sentido dizer que se manifesta, uma coisa-em-si kantiana. Mas ademais, é preciso se precaver contra o erro inicial, o erro que levou à postulação de uma realidade arqui-manifesta, que é a consideração de que a manifestação universal, isto é, a apresentação possua alguma realidade por si que precisa ser explicada ou fundamentada. Esse é o erro que Heidegger preserva, o erro da presença autônoma da apresentação, com o qual ele fundamenta a existência humana numa pré-compreensão do ser. É preciso dizer com coragem: a apresentação é algo puramente ideal, sem nenhuma realidade própria. A apresentação é uma consequência de realidades que por si não se apresentam. A presença recíproca das coisas não as caracteriza intimamente, mas é meramente um fato /relacional/. Não há necessidade nem leis anônimas que regem as coisas reais, toda necessidade precisa ser reconduzida para a coisa real imanifesta que a fundamenta.
Continua em outro post.