Hegel as a Boy

Março 7, 2009

Notas para Março

Arquivado em: sistema — alcvargas @ 5:40 pm

Tem muita coisa que eu quero comentar aqui no blog , mas estarei me mudando para Berlim este mês, então não sei o quanto poderei postar (essa também foi a razão por ter havido só um post em fevereiro).

1. A Imanência e a Ação

Pelo esclarecimento da imanência pela noção de “aqui” e tambem pela verdade “pelos frutos os conhecereis”, me pareceu que a imanência da realidade é aprendida no momento em que agimos – a autoconsciência nela contida é a consciência que temos das coisas em virtude delas estarem envolvidas com a ação. Parece então que a imanência seria aprendida pela nossa vontade – mas a vontade não estaria presente antes em todo modo de apreender  a realidade?

Até aqui tenho apresentado as faculdades como envolvendo duas atividades diferentes, a apreensão da realidade e a apreensão de si mesmo, sempre sob aspectos complementares: na intuição a pessoa apreende a realidade sob o aspecto de sua potência e a si mesma como algo independente, na razão ela coloca a si mesma como transcendente e ela compreende o objeto de seu pensamento da mesma maneira. Isso acontece porque cada faculdade é um modo da presença do homem, a qual sempre envolve duas coisas: se fazer presente entre as coisas (se pôr de certa maneira) e deixar que as coisas lhe sejam presentes. Eu tinha identificado esses dois aspectos da presença com a vontade e a inteligência humanas respectivamente. No entanto, agora, talvez fosse melhor substituir esse par pelo par kantiano da espontaneidade/receptividade.

Esse par traz  a luz certos problemas a serem resolvidos. Por exemplo, no sentimento, o ser humano está presente soba mera forma da atualidade – o que esclarecemos em termos de algo que já está lá, à disposição – como que essa autoposição possa ser considerada espontânea? Como é que eu me coloco como algo que já estava à disposição? Não seria antes mais correto dizer que eu me encontro desta maneira? Mas se eu me encontro desta maneira então não seria melhor dizer que eu sou um objeto para mim mesmo e que o que tratamos aqui não é de sentimento, mas de sensação?

Este par conceitual também traz problemas relativos ao conhecimento a priori. Pois afinal, a espontaneidade do sujeito é o que torna possível a síntese a priori da intuição em Kant. Mas nesse caso, não há tão somente espontaneidade, mas também recpetividade – o sujeito se põe como idêntico a si mesmo no eu penso, ele se capta segundo suas potências, mas ao mesmo tempo ele possui as intuiçoes a priori do espaço e do tempo que são uma apreensão do objeto sob a mesma maneira – e é apenas por apreender os objetos desta maneira que as categorias ligadas à autoconsciência do sujeito podem ser aplicadas também aos objetos. É como se a auto-intuição fosse só uma promessa que precisasse ser completada com a intuição da realidade. Nesse sentido, os dois pares de faculdades complementares – a intuição & a percepção, o sentimento & a sensação – estariam inextricavelmente ligadas. E o conhecimento é apriori aqui somente no sentido dele ser um conhecimento que versa sobre a apresentação da realidade e não sobre as realidades específicas apresentadas. Não há nenhuma conotação subjetivista nesse conhecimento.

Posto de lado esses problemas com a identificação da apreensão da imanencia com a vontade, podemos ver que a intuição & a percepção se relacionam com a razão da mesma forma que o sentimento & a sensação se relacionam com a vontade. O caso que usei para explicar o primeiro par era a experiência perceptual e mais importante, o erro perceptual – em ambos os casos se trata de um momento da inteligência, onde a inteligência capta alguma coisa, mas não o capta de forma imediatamente aarticulada – tanto a intuição como a percepção nos dão “proto-juízos”: a intuição nos dá uma realidade que orienta os nossos juízos enquanto a percepção nos fornece dados independentes que precisam ser articulados em juízos. O juízo que expressa um estado de coisas e apreende a realidade na sua transcendência é realizado pela razão, que media entre a intuição e a percepção. Eu compreendo que falei pouco até agora aqui no blog  desta mediação, então por favor não hesitem em colocar quaisquer dúvidas na caixa de comentários.

Agora, da mesma forma, a vontade se expressa numa ação que coloca o homem no meio do mundo enquanto o sentimento e a sensação são formas de “ação retida”, para usar uma expressão de Hegel. No sentimento o ser humano se encontra como o agente cuja ação realizará as possibilidades do mundo enquanto a sensação encontra as coisas à disposição pelas quais um projeto do ser humano é realizado pela ação.

No entanto ainda acho que ainda não encontrei os nomes corretos para essas coisas. Apreender uma possibilidade do mundo não é uma função da inteligência? Assim parece que todas as faculdades envolvem o par inteligência/vontade. Por outro lado, o trabalho da inteligência não parece exemplarmente capturado na tríade percepção-razão-intuição? Então parece que há duas tríades a tríade da inteligência e a tríade da vontade (sentimento-vontade-sensação) – mas então a vontade não se reduz à apreensão da imanência, que precisa ser especificada.

Uma solução pode ser encontrada se atendo à peculiaridade da razão e da vontade: elas capturam o homem e a realidade sob o mesmo aspecto. Quando eu realmente acredito em alguma coisa eu acredito que aquela coisa é realmente deste jeito: assim, de um só golpe, a razão caputra o homem e a coisa pensada como realidades que possuem uma constituição intrínseca que transcende a apresentação. Quando eu ajo, eu estou no meio das coisas e elas estão ao meu alcance: a vontade apreende tanto o homem quanto as coisas como imanentes à apresentação. Como fazer aqui uma distinção entre duas ações, entre a espontaneidade do homem e sua recpetividade da realidade? Antes parece que a distinção entre espontaneidade/receptividade presente nas faculdades auxiliares (a intuição & a percepção/o senitmento & a sensação) é uma forma pela qual elas ficam proporcionais e assim mediam entre a inteligência e a vontade. Os pares inteligência/vontade e receptividade/espontaneidade, seriam na realidade apenas o mesmo par tomado em dois níveis diferentes.

Temos portanto um primeiro sistema triádico: presença-inteligência-vontade, que se desdobra em duas tríades: percepção-razão-intuição e sentimento-ação-sensação – que se unem numa hexidade ação-sensação-percepção-razão-intuição-sentimento-ação – a qual tem como “centro” a presença completa do homem – então ela é de fato um sistema de sete fatores – lambrando que essa presença pode se desdobrar numa díade (inteligência & vontade) ou na tríade original, dando um sistema de faculdades de oito ou nove elementos.

(Eu fiz esses malabarismos sistemáticos apenas para evidenciar o seguinte: que no sistema o número é o que menos importa, é uma consideração absolutamente abstrata. Então, embora todos os diagramas até agora tenham tido uma forma hexagonal, meu sistema não é de modo nenhum hexagonal, mas real. O pensamento sistemático não é uma forma dura que seja impossível de mexer, mas o ambiente onde os conceitos reaprecem em inúmeros níveis, lhes dando inúmeras camadas de significado e com isso uma agilidade e uma riqueza que não se encontra mais. O sistema filosófico é ao mesmo tempo a catedral gótica rígida, bela e imponente e a mulitplicação de cores de um caleidoscópio. Não se trata de reconstruir a realidade ”desde fora”, mas ter dentro da realidade as cores e as tintas necessárias para desenhar um mapa. Isso me conduz ao próximo tópico, que é justamente o caráter infinito do sistema.)

(Percebo agora quão ineficiente é apresentar um estudo em progresso num blog – para mim meu pensamento marcha num ritmo constante, todos os passos estão presentes, mas para vocês leitores eu devo parecer dar saltos e pulos enormes. Não tenho a menor segurança de ter apresentado aqui no blog todos os resultados ao qual fiz referência agora – por isso peço e repeço que vocês me avisem se não entenderam alguma coisa.)

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