O princípio da apercepção transcendental é um dos legados mais importantes de Kant e parte integral de sua dedução transcendental das categorias. Com ele Kant busca estabelecer uma ligação entre a identidade do sujeito das representações e a unidade do objeto representado de tal modo que a identidade do sujeito justifique o emprego das categorias às aparências. O estudo deste princípio me permitirá esclarecer melhor a operação da percepção (a faculdade humana de conhecer o ser)*, pela qual as coisas reais são experimentadas como independentes do ser humano e onde o ser humano se intui como “poder”. Esse estudo começa com esse post, mas não acaba com ele.
O princípio da apercepção transcendental é enunciado por Kant da seguinte maneira: “O ‘Eu penso’ deve poder acompanhar cada uma de minhas representações”. Na explicação do princípio, Kant deixa claro que ele só vale para as representações que devem me informar sobre alguma coisa (para que eu conheça algo via uma representação eu devo poder reconhecê-la como sendo minha) e também que o princípo inclui, além do reconhecimento da posse de uma representação, o reconhecimento da própria identidade do sujeito que pensa. Kant considera esse princípio analítico e não requerendo nenhuma justificãção. É um fato constatado pelo filósofo.
Kant observa que esse princípio “inclui uma síntese”. Isso ocorre porque para que eu reconheça minha identidade em várias representações diferentes é preciso que todas estejam presentes em uma e a mesma consciência. A constatação da identidade do sujeito é, portanto, correlativa a pensamentos onde uma multiplicidade de representações é unida.
Essa correlação se fortalece pelo fato que a identidade do sujeito é “vazia”, isto é, não há nenhuma representação especial “separada” que seria uma marca do sujeito e que acompanharia todas as minhas representações. Como Hume observou, quando ele procruava no seu íntimo ele não encontrava nenhum sujeito que permanecia idêntico, mas apenas percepções diversas. Assim sendo, a identidade da consciência ao longo das várias representações nada mais é senão a identidade do pensamento sintético que os abrange e os reúne em uma só consciência. Eu sei que sou eu quem penso A e sou eu quem penso B porque A e B são duas representações contidas num mesmo pensamento C.
Agora, a unidade de um pensamento onde várias coisas diferentes são contidas requer que os vários conteúdos possuam uma unidade própria a eles, para além da unidade exterior que eles possuem por serem todos pensados por mim. “A caixa é pesada” expressa um pensamento complexo, pois em um ato de pensamento eu penso duas coisas, mas “Quando eu seguro a caixa, eu sinto peso” expressa a conexão entre dois pensamentos. Apenas uma unidade no objeto dá a um pensamento unidade.
Há, portanto, uma ligação estreita entre a identidade do sujeito e a objetividade do pensamento, entendida como a captação pela parte do pensamento de algo que é independente dele. A possibilidade de estabelecer a identidade do sujeito implica na possibilidade de sintetizar os conteúdos da consciência num só pensamento, mas isso implica que deva haver entre os conéúdos uma unidade objetiva independente do sujeito. Ademais, para que um pensamento complexo seja um só é preciso que ele seja pensado por uma só pessoa e desse modo o pensamento objetivo requer a identidade do sujeito. Dessa maneira, a identidade do sujeito e a objetividade do objeto são recíprocos.
Bem isso é a exposição do princípio de Kant. No próximo post eu começo a elucidar com seu auxílio as noções de “poder” e “independência”.