Hegel as a Boy

Julho 26, 2008

A Experiência do Transcendental na Razão

Arquivado em: Uncategorized — alcvargas @ 5:50 pm

Estamos à procura da experiência na qual a realidade se apresenta ao ser humana na forma de um campo transcendental, isto é, enquanto uma determinação supergeral que inclui a tudo. No post passado duas experiências foram analisadas e descartadas: a experiência do poder da realidade na intuição da verdade e a experiência de sua independência da realidade no entendimento do ser. (Para ver o contexto maior dessas faculdades, é bom olhar os posts “A Teoria da Função Transcendental” e “Diagrama da Consciência“.)

Aquilo que sugeria que nessas experiências a realidade fosse apresentada como um campo transcendental foi que em ambas é conhecida uma condição para a realidade inteira: no entendimento toda a realidade está sob a condição de ser objeto da consciência e na intuição toda a realidade apresentada à consciência está sob a condição de estar na verdade. Contudo a realidade só se encontra sob essas condições na medida em que ela é experimentada pelo ser humano e logo o que é conhecido como um campo transcendental nelas não é a realidade enquanto tal, mas a apresentação da realidade.

Portanto, essas experiências não podem fundamentar asserções sobre a realidade enquanto um campo transcendental, por duas razões. Primeiro, porque não está dito em nenhum lugar que toda a realidade se apresenta. E segundo porque a realidade transcende a sua apresentação e logo a realidade é diferente de sua apresentação.

Hoje irei discutir a experiência da realidade que o ser humano tem no uso de sua faculdade onde ele experimenta justamente a realidade enquanto algo que transcende a sua apresentação, a razão.

A razão apresenta a realidade enquanto transcendente porque quando fazemos um juízo (por exemplo, “a grama é verde”) nós julgamos como a coisa é e não como ela parece ser. A coisa real é reconhecida, então, não só na sua independência da consciência (que é o modo como o entendimento a toma), mas na sua transcendência em relação a ela, ao fato que ela é por si uma coisa independente.

(Observação: é importante não cair na confusão racionalista de dizer que uma vez que a razão conhece a realidade enquanto realidade transcendente que ela a conhece na sua transcendência. Essa confusão é análoga a dizer que se conhece a riqueza de um indivíduo vendo que ele tem um carro importado. Que nada – eu sei que ele é rico, mas eu não conheço por isso sua riqueza. Traçar essa distinção é a essência da crítica de Kant à “coisa-em-si” e com isso vê-se quanta bobagem é dita sobre o pretenso “ceticismo” da filosofia crítica)

Essa objetividade dos juízos na razão se funda na sua inclusão dentro de uma rede de inferências onde o juízo é justificado por outros juízos. Sem seu lugar nessa rede inferencial, o juízo não estaria fundamentado na coisa e revelaria apenas a opinião do juiz.

Não quero entrar aqui numa discussão sobre a arquitetura dessa rede inferencial: se ela possui um princípio último que justifica todos os outros (fundacionalismo), se ela é justificado por uma cadeia infinita de juízos (inifnitismo) ou se ela é um sistema circular (coerentismo). O único que me importa é que ela é uma rede de infinitos juízos conectados que juntos determinam como é o mundo.

Agora, cada inferência é uma passagem de uma informação a outra e enquanto tal pressupõe uma unidade. Por exemplo, o silogismo clássico “Todos os homens são mortais/ Sócrates é homem/ Sócrates é mortal”, a passagem de “Sócrates é homem” para Sócrates é mortal” depende da unidade do sujeito Sócrates. Assim a o sistema incondicionado da razão, onde todos os juízos tem seu lugar, pressupõe ele mesmo uma  unidade incondicionada da realidade. Assim na razão a realidade é experimentada como possuindo uma unidade incondicionada, isto é, transcendental.

Talvez essa demonstração tenha parecido muito abstrata então passo a uma consideração mais palpável. A razão é a faculdade das inferências ou dos conceitos. Ela é assim um movimento de uma informação a outra. Nesse movimento se experimenta justamente a unidade do espaço das informações, isto é, a realidade. Dito de outro modo: a experiência da realidade numa rede é a experiência da realidade como uma coisa só, assim como no meu movimento pelo mundo eu conheço a unidade do espaço. A experiência da razão é por isso a experiência da realidade como um campo transcendental.

 No próximo post a análise da razão continua.

Julho 16, 2008

A Experiência do Transcendental

Arquivado em: Uncategorized — alcvargas @ 10:50 pm

No post passado eu introduzi as imagens empregadas por Heidegger no seu texto A Coisa para ilustrar a metafísica que venho aqui desenvolvendo. Isso agora me parece ter sido um erro. Pois isso nos levou à questão da realidade dos transcendentais, uma questão inteiramente envolvida por obscuridade. Para tornar os conceitos aqui mais claros vou passar algum tempo esclarecendo alguns pressupostos.

Até aqui, tenho falado de uma forma ingênua de “a realidade”, sem, no entanto, justificar o que essa designação pressupõe, que seja, a existência de uma unidade de todas as coisas reais num campo chamado “a realidade”. É preciso corrigir isto determinando a experiência que fundamenta essa concepção da realidade como um campo transcendental.

(Por “campo transcendental” quero dizer um domínio de coisas cuja extensão seja aquela de uma determinação transcendental. Como todos os transcendentais compartilham o domínio comum chamado “a realidade” há somente um tal campo.)

Uma primeira hipótese é que essa concepção se fundamenta no reconhecimento que as coisas possuem uma constituição independente da nossa consciência deles. (Essa é a via adotada por Husserl e vários filósofos modernos). Nós nos deparamos com esse fato via o engano, quando descobrimos que as coisas não são como achávamos que eram. Essa experiência é ao mesmo tempo a experiência do caráter transcendental da consciência, pois com o engano nos damos conta também que não podemos conhecer nada fora da consciência e, portanto, que qualquer crença nossa pode eventualmente se mostrar como falsa.

O caráter transcendental da consciência não implica que a consciência é uma jaula que impediria o mundo de ser conhecido nem que ela é uma ilha autônoma capaz de conhecer a realidade sem auxílio de qualquer coisa fora da consciência. Apenas quer dizer que existe uma condição (a consciência) que abarca toda realidade conhecida pelo homem.

Essa condição transcendental, no entanto, não pode ser a base para afirmações sobre toda a realidade, pois nela a unidade da realidade é experimentada apenas na medida em que essa realidade se apresenta à inteligência humana. É possível a partir da consciência fazer afirmações válidas para a realidade cognoscível, mas não para toda a realidade enquanto tal.

Uma segunda experiência em que aparece a consciência de um campo transcendental é a intuição da verdade, a experiência da impressividade da realidade sobre a nossa mente: eu vejo que as coisas são assim e isso é algo óbvio, evidente, inescapável. Ao mesmo tempo em que a consciência experimenta a realidade se impondo a ela, ela também tem consciência de si mesma como aberta à realidade, capaz de apreendê-la enquanto tal. (Essa experiência lembra a tese aristotélica de que a alma é em certo sentido todas as coisas.)

Enquanto a primeira experiência tinha o perigo de ser interpretada como a experiência de um abismo entre consciência e realidade, essa segunda tem o perigo de ser interpretada como a fusão entre os dois, onde o ser humano seria impotente perante o mundo, o qual o determinaria de ponta a ponta.  No entanto isso está longe de ser o caso: é justamente no modo como cada pessoa reage à evidência da verdade que ela manifesta sua orientação própria e individual perante o mundo. Há até aqueles que fogem da verdade.

O ser humano na intuição da verdade experimenta a sua independência perante a realidade e assim o fazendo toma consciência da realidade como o campo transcendental dentro do qual ele deve ser quem ele é. Mais uma vez o campo transcendental é experimentado por meio de uma condição inescapável – antes era a condição de ser apresentada na consciência, agora é a condição de ser apresentada pela verdade à consciência.

Por isso, a experiência da verdade também não pode fundamentar as nossas asserções sobre “a realidade”. Ainda aqui o que está dado não é “a realidade” mas “a realidade na medida em que ela se apresenta à consciência”. Cada uma dessas duas experiências é um inverso da outra, o que se explica pelo fato que a independência e o poder são aspectos complementares da realidade, de tal modo que quando a realidade é apresentada sob um desses aspectos a consciência tem perante ela o outro.

No próximo post apresentarei a experiência da transcendência do mundo na razão, que é o verdadeiro fundamento da apreensão da realidade como um campo transcendental. Para confirmar isso, serão estudadas as conexões sistemáticas entre o entendimento, a razão e a intuição.

Blog no WordPress.com.