Estamos à procura da experiência na qual a realidade se apresenta ao ser humana na forma de um campo transcendental, isto é, enquanto uma determinação supergeral que inclui a tudo. No post passado duas experiências foram analisadas e descartadas: a experiência do poder da realidade na intuição da verdade e a experiência de sua independência da realidade no entendimento do ser. (Para ver o contexto maior dessas faculdades, é bom olhar os posts “A Teoria da Função Transcendental” e “Diagrama da Consciência“.)
Aquilo que sugeria que nessas experiências a realidade fosse apresentada como um campo transcendental foi que em ambas é conhecida uma condição para a realidade inteira: no entendimento toda a realidade está sob a condição de ser objeto da consciência e na intuição toda a realidade apresentada à consciência está sob a condição de estar na verdade. Contudo a realidade só se encontra sob essas condições na medida em que ela é experimentada pelo ser humano e logo o que é conhecido como um campo transcendental nelas não é a realidade enquanto tal, mas a apresentação da realidade.
Portanto, essas experiências não podem fundamentar asserções sobre a realidade enquanto um campo transcendental, por duas razões. Primeiro, porque não está dito em nenhum lugar que toda a realidade se apresenta. E segundo porque a realidade transcende a sua apresentação e logo a realidade é diferente de sua apresentação.
Hoje irei discutir a experiência da realidade que o ser humano tem no uso de sua faculdade onde ele experimenta justamente a realidade enquanto algo que transcende a sua apresentação, a razão.
A razão apresenta a realidade enquanto transcendente porque quando fazemos um juízo (por exemplo, “a grama é verde”) nós julgamos como a coisa é e não como ela parece ser. A coisa real é reconhecida, então, não só na sua independência da consciência (que é o modo como o entendimento a toma), mas na sua transcendência em relação a ela, ao fato que ela é por si uma coisa independente.
(Observação: é importante não cair na confusão racionalista de dizer que uma vez que a razão conhece a realidade enquanto realidade transcendente que ela a conhece na sua transcendência. Essa confusão é análoga a dizer que se conhece a riqueza de um indivíduo vendo que ele tem um carro importado. Que nada – eu sei que ele é rico, mas eu não conheço por isso sua riqueza. Traçar essa distinção é a essência da crítica de Kant à “coisa-em-si” e com isso vê-se quanta bobagem é dita sobre o pretenso “ceticismo” da filosofia crítica)
Essa objetividade dos juízos na razão se funda na sua inclusão dentro de uma rede de inferências onde o juízo é justificado por outros juízos. Sem seu lugar nessa rede inferencial, o juízo não estaria fundamentado na coisa e revelaria apenas a opinião do juiz.
Não quero entrar aqui numa discussão sobre a arquitetura dessa rede inferencial: se ela possui um princípio último que justifica todos os outros (fundacionalismo), se ela é justificado por uma cadeia infinita de juízos (inifnitismo) ou se ela é um sistema circular (coerentismo). O único que me importa é que ela é uma rede de infinitos juízos conectados que juntos determinam como é o mundo.
Agora, cada inferência é uma passagem de uma informação a outra e enquanto tal pressupõe uma unidade. Por exemplo, o silogismo clássico “Todos os homens são mortais/ Sócrates é homem/ Sócrates é mortal”, a passagem de “Sócrates é homem” para Sócrates é mortal” depende da unidade do sujeito Sócrates. Assim a o sistema incondicionado da razão, onde todos os juízos tem seu lugar, pressupõe ele mesmo uma unidade incondicionada da realidade. Assim na razão a realidade é experimentada como possuindo uma unidade incondicionada, isto é, transcendental.
Talvez essa demonstração tenha parecido muito abstrata então passo a uma consideração mais palpável. A razão é a faculdade das inferências ou dos conceitos. Ela é assim um movimento de uma informação a outra. Nesse movimento se experimenta justamente a unidade do espaço das informações, isto é, a realidade. Dito de outro modo: a experiência da realidade numa rede é a experiência da realidade como uma coisa só, assim como no meu movimento pelo mundo eu conheço a unidade do espaço. A experiência da razão é por isso a experiência da realidade como um campo transcendental.
No próximo post a análise da razão continua.