Hegel as a Boy

Junho 15, 2008

Voltando com A Coisa

Arquivado em: Uncategorized — alcvargas @ 2:34 am

Desculpa pela ausência de quase um mês, tive que me abster da publicação de meus esboços metafísicos para me dedicar à escrita da minha monografia de final de curso. Daqui a um mês o humilde autor deste blog estará formado.^^

No post passado eu falei da intuição de Xavier Zubiri de que as coisas reais são reais por serem tais e quais elas são, e não por terem uma determinação transcendental chamada “ser real”. Nesse post será apresentada uma visão igualmente anti-transcendentalista da realidade, avançada por Martin Heidegger no seu texto “A Coisa”.

Heidegger busca dizer o que é uma coisa pelo questionamento do que faz da jarra uma coisa, ou melhor, o que faz com que a jarra (uma coisa) seja uma coisa, ou seja, como que uma coisa é uma coisa.

De pronto ele rejeita algumas interpretações clássicas. Ele rejeita que a jarra seja uma coisa porque ela é algo subsistente ou que ela o seja por ser um algo subsistente produzido. Ambas essas interpretações se sugerem porque fazem da jarra algo mais que um objeto, algo que está diante de nós, mas ambas erram por não se perguntarem o que faz da jarra uma jarra; Heidegger é claro: a coisalidade da coisa deverá depender dela mesma e não de algo exterior a ela.

É verdade que a produção da jarra e sua subsistência contribuem para que a jarra seja uma jarra, mas ela não é uma jarra por ser esses motivos. Muito pelo contrário: é por ela ser uma jarra que ela teve que ser produzida e que ela possui sua subsistência própria. Nem mesmo a forma da jarra explica como ela é uma coisa: a forma é apenas aquilo da jarra que o oleiro deve ter em vista para que ele a produza.

A jarra não é uma jarra por exibir uma forma, mas por ser um receptáculo que pode conter algo. E aquilo que de fato contém na jarra é seu vazio. O vazio da jarra recebe aquilo que nela é vertido o acolhendo e retendo. A jarra recebe e guarda, contudo, para vazar, doar o líquido que tem dentro dela. É nesse doar que a jarra é uma jarra. Até mesmo uma jarra vazia, que não pode doar, ou uma jarra quebrada, incapaz de doar, são jarras por isso, pois não-poder-doar é algo próprio à jarra, em contraste com outras coisas.

Na doação da vaza estão presentes o céu e a terra, os mortais e os divinos. Na sua doação estão o líquido, fruto do matrimônio do céu e da terra nas chuvas, os mortais, que buscam saciar sua sede, e as divindades, para os quais se dá o líquido. Na doação da vaza céu e terra, mortais e divindades, habitam todos juntos.

A doação traz à luz como os membros dessa quadratura pertencem juntos. Na doação são realizadas a reunião do ser da jarra (a jarra está toda lá na vaza) e a reunião da quadratura. O ser coisa da coisa, o coisar da coisa consiste nessa reunião da quadratura.

A coisa coisa dando (um) lugar à unidade dos quatro. Mas essa unidade é algo próprio aos quatro. Cada um deles remete aos outros três devido a sua unidade. Cada um deles espelha a seu modo os outros e em o fazendo vem a ser si mesmo.

Heidegger emprega a imagem de uma roda de dança, a qual vou elaborar. Na dança cada um dos quatro dançantes responde aos movimentos dos outros e os espelha. A roda da dança que os une não é algo que lhes é imposto, mas é produto de seu próprio jogo de reflexos. Nessa dança cada dançarino se apropria da possibilidade de dançar e se juntar ao grupo e realiza desse modo sua realidade. Essa roda do céu e da terra, dos mortais e das divindades é o que se chama mundo e seu rodar é o mundar do mundo.

Os neologismos “coisar” e “mundar” servem para designar a irredutibilidade de ambos os fenômenos – não é possível “explicar” o mundo por meio de qualquer outra coisa que seu mundar nem o coisar da coisa. Ser-mundo ou ser-coisa não é algo que advém desde fora, mas de uma dinâmica interna própria. Os dois se relacionam, pois no seu coisar a coisa acolhe a unidade do mundo.

Temos aqui uma idéia da relação entre o que tenho chamado os transcendentais e as coisa reais. Os transcendentais na sua apresentação mútua realizam o mundo, a apresentação da realidade, e na coisa real reside a unidade dessas apresentações. É claro esse jogo de espelhos não foi descoberto por meio de indicações poéticas, mas pelas relações de estruturação indicadas pela dedução transcendental.

Também, apesar de sua conexão, as coisas não são dependentes das coisas reais. As coisas reais se apresentam no mundo e essa apresentação é constituída pelo mundar do mundo, mas a coisa real ela mesma não é constituída por isso. As coisas reais são reais possuindo os seis aspectos formais da realidade e desse modo sendo a ocasião para o espelhamento dos transcendentais.

No entanto há uma complicação que não é exposta no texto de Heidegger: o fato que o céu e a terra, os mortais e as divindades, são eles mesmas coisas reais. São coisas pelas quais a roda do mundo roda, mas são coisas reais mesmo assim. Mas como pode ser que eles se relacionem um com o outro ao mesmo tempo como coisas e como transcendentais? Espero caminhar em direção a uma dissolução desse problema nos posts seguintes.

Bem é isso, obrigado por terem tido paciência com a minha ausência. Como sempre não hesitem em comentar.

3 Comentários »

  1. Seu blog é o melhor, mesmo!
    É professor de filosofia?
    bisous

    Comentário por Yasmim — Junho 20, 2008 @ 2:32 pm

  2. Olá, sobre este texto “a coisa”, vc saberia me dizer qual a refereência bibliográfica dele? é q fiz uma tradução de uma cópia só do texto e não tenho a referência e agora estou precisando, se puder me ajudar ficarei muito contente!
    beijos

    Comentário por Tania — Julho 15, 2009 @ 12:52 pm

    • oi, normalmente eu poderia, mas agora estou viajando e longe dos meus livros então, não, desculpa

      Comentário por alcvargas — Julho 21, 2009 @ 10:13 am


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