O Sistema Completo dos Transcendentais

O diagrama acima apresenta o sistema completo das relações entre os transcendentais. Como indicado no último post, as setas que partem de cada transcendental indicam os diferentes pápeis que ele desempenha na apresentação da realidade nos outros transcendentais. A realidade se apresenta em cada transcendental porque o sistema inteiro dos transcendentais é apresentado em cada um deles e cada transcendental apresenta um aspecto diferente da realidade.
Observando o diagrama, vemos que entre os seis aspectos da realidade (imanência, atualidade, independência, transcendência, poder e conteúdo) há dois pares de aspectos complementares, de tal modo que se A apresenta em B um aspecto, B apresenta em A o aspecto complementar, e também dois aspectos que são seu próprio complementar.
O complementar da atualidade é o conteúdo. Aquilo que é atual é sempre alguma coisa, isto é, somente algo dotado de um conteúdo que pode ser atual. Se uma coisa real é atual para A por ser apresentado no transcendental B, então é preciso que a coisa real tenha um conteúdo passível de atualização para B por ser apresentado sob o transcendental A. E por outro lado, alguma coisa sempre é alguma coisa que é, ou seja, um conteúdo só é dado no horizonte da atualidade. Por isso, se o conteúdo de uma coisa real for dada num transcendental B por ser apresentado em A, então sua atualidade é dada em B por ser apresentada em A.
O complementar do poder é a independência. O poder da coisa é sua capacidade de se impor ao transcendental, enquanto a independência da coisa é o fato que ela tem posse efetiva das determinações que o transcendental lhe atribui. Ora, só é possível exercer um poder sobre uma coisa independente, pois é a independenência das coisas que faz com que aquilo que lhe foi imposto subsista. E por outro lado algo só mostra a sua independência na medida em que resiste o poder e evidencia sua subsistência própria. Se a coisa real se impõe ao transcendental B por ser apresentado no transcendental A, então é preciso que ela seja independente de A pela sua apresentação em B, e vice-versa.
A imanência e a transcendência são complementares de si mesmos. A imanência da realidade num transcendental é dada pela apresentação deste mesmo transcendental em si mesmo, logo a sua complementar é ela mesma.
Por outro lado, a transcendência da realidade consiste no fato de que ela é mais do que a face que ela mostra para um transcendental particular. Ora, se A indica o excesso da realidade integral sobre a face da realidade que é apresentada em B, é porque o modo da realidade A não está presente de maneira alguma no transcendental B. Se A não está presente de modo algum em B, B não está presente de modo algum em A, logo B indica igualmente o excesso da realidade sobre A.
(Essa explicação parece contradizer o fato que cada transcendental apresenta todos os outros transcendentais, pois afirma que há pelo menos um transcendental que não está presente de maneira alguma em cada transcendental. Entretanto, isso é só uma aparência, pois com essa expressão queremos dizer que ele é de fato apresentado, mas ele é apresentado de uma maneira completamente vazia e sem conteúdo, como uma mera intenção não preenchida. Isso se confirma numa meditação sobre a consciência: o raciocínio é para a consciência um veículo vazio de conteúdo próprio, e a consciência é para o pensamento apenas um sujeito indeterminado do pensamento.)
Observando essas relações, nós também percebemos que assim como em cada transcendental cada um dos transcendentais manifesta um dos aspectos da realidade, cada transcendental acaba por manifestar todos os aspectos da realidade. Assim o processo por meio do qual os transcendentais apresentam uns aos outros e deste modo se tornam apresentações da realidade é ao mesmo tempo o processo por meio do qual os transcendentais eles mesmos se revelam como sendo coisas reais.
Com isso já temos uma pista pra como resolver a questão da unidade da realidade, mas isso fica para outro post.