Hegel as a Boy

Maio 15, 2008

Prosseguimento da Confusão Metafísica

Arquivado em: Uncategorized — alcvargas @ 10:33 pm

Decidi apresentar os vários tópicos anunciados no post passado expondo as intuições básicas que têm me guiado nessas meditações sobre a unidade da realidade, bem como as novas confusões nas quais essas intuições me envolveram.

 

Primeiro, vou repetir o que disse no post a unidade da realidade: há o domínio da realidade que transcende cada transcendental, mas ele (a) sempre se dá dentro de um modo específico e (b) ele é o que é porque possui todos seus modos. 

 

Essa afirmação de que a realidade “é o que é” por possuir todos seus modos foi explicada no post seguinte, “A Teoria da Função Transcendental”, onde foi mostrado que algo apresentado na consciência é real por possuir seis aspectos formais – imanência, atualidade, independência, transcendência, poder e conteúdo. Ou seja, algo só é real porque possui esses seis aspectos. Assim os pontos (a) e (b) de antes se uniram: algo real só é dado, pois sua apresentação em cada um dos transcendentais é dada e por isso todos os aspectos que lhe fazem reais são dados.

 

O termo “função transcendental” é algo que obtenho da filosofia de Xavier Zubiri. Zubiri abandona a noção de que o transcendental seria um sistema de propriedades ultragerias que antecedem as coisas reais e que as tornam reais. Para Zubiri, a realidade é constituída apenas de coisas reais  com sua talidade específica, isto é, o fato de terem tais e tais determinações. Por exemplo, esta mesa tem tal cor, tal altura, é feita de tal madeira etc…

 

A intuição fundamental de Zubiri é que algo é real pelo fato dele ser de tal ou tal modo, isto é que a sua talidade é o que o torna real, e não nenhuma superpropriedade além de sua talidade. Assim podemos considerar as várias determinações de uma coisa de duas maneiras: podemos as considerar meramente enquanto determinações das coisas, ou podemos as considerar enquanto determinações que fazem a coisa ser real e perguntar: Como é que essa determinação faz essa coisa ser real?

 

A investigação da dimensão transcendental é, por isso, para Zubiri a investigação das determinações, das talidades, enquanto determinações que tornam as coisas reais. Podemos, é claro, inverter a pergunta e perguntar: dada uma realidade e um aspecto formal da realidade, qual é a determinação que dá a aquela coisa este aspecto? Assim todas as determinações meramente formais da realidade que fazem uma coisa real ser real precisam ser dadas mediante determinações reais da mesma, o que é justamente o que é feito na teoria desenvolvida nesse post.

 

Mais tarde no post “O Sistema Completo dos Transcendentais”, na análise da complementaridade, se fez apelo a um outro sentido desses aspectos. Enquanto antes os aspectos formais da realidade eram descritos como relações entre a coisa real e a sua apresentação no transcendental, na explicação dos complementares eles eram tratados como relações entre coisas quaisquer.

 

Assim, enquanto antes se mostrou que a apreensão da coisa pela intuição apresentava seu poder sobre a consciência, neste último post se argumentou que se a coisa real se impõe ao transcendental B por ser apresentado no transcendental A, então é preciso que ela seja independente de A pela sua apresentação em B, pois só é possível exercer um poder sobre uma coisa independente.

 

O que está suposto nessa inferência? É a noção de que os transcendentais mantêm entre si relações de poder-independência, atualidade-conteúdo, imanência e transcendência e que é pelo fato de um transcendental estar numa determinada relação com outro, que quando ele apresenta esse transcendental ele apresenta a realidade sob essa mesma relação. Colocando de outra forma: Uma vez que uma apresentação da realidade se relaciona a outra, ela está sob a mesma relação com a realidade ela mesma, pois cada uma das apresentações é uma apresentação DA REALIDADE.

 

Para ilustrar isso, podemos usar a imagem das relações entre pessoas, pois a realidade se apresenta a cada pessoa na sua consciência e assim a relação entre as várias apresentações da realidade é espelhada na relação entre as pessoas. Considere a relação entre a fala e a escuta. A fala apresenta um conteúdo que a escuta confirma e torna atual. Nesse sentido, na medida em que são seres conscientes da realidade, o orador exibe à sua platéia a realidade como algo pleno de conteúdo e a platéia no seu assentimento mostra para o orador a atualidade da realidade. (Quando plenamente desenvolvida essa imagem “magicamente” se transforma numa espécie de fundamentação metafísica da teoria aristotélica dos quatro discursos exposta por Olavo de Carvalho).

 

Para tornar essa imagem da realidade mais palpável, no próximo post discutirei o seminário “A Coisa” de Heidegger, onde ele expressa uma visão similar da realidade com imagens claras e ricas. Essas imagens não só tornarão a concepção aqui apresentada mais manuseável, bem como mostrarão os problemas a serem solucionados para que eu continue.

Maio 6, 2008

Pausa para Realidades Mundanas

Arquivado em: Uncategorized — alcvargas @ 10:04 pm

Dando uma pausa na exposição metafísica, gostaria de vos informar que o autor destes modestos esboços metafísicos foi mencionado no mais recente programa do grande filósofo Olavo de Carvalho. As palavras de Olavo: 

“Eu queria começar aqui também é anunciando para vocês a minha próxima aula do seminário de filosofia na É Realizações, agora quarta-feira dia t de maio às 20h, rua França Pinto 498 em São Paulo, inscrições pelo telefone 011-5572-5363. Aliás, a propósito desta aula, eu queria responder aqui a uma mensagem que eu recebi do Antonio Vargas. Antonio Vargas é estudante de filosofia da universidade de Brasília e me mandou uma carta muitíssimo interessante com observações sobre Kant e algumas dúvidas e algumas contestações de coisas que eu tinha escrito sobre Kant, algumas delas estão no meu site www.olavodecarvalho.org. A carta do Antonio Vargas é tão boa que eu decidi que ela vai ser o assunto da minha próxima aula no seminário de filosofia quarta-feira.” (Transcrição feita por mim e não-revisada pelo Olavo) 

A carta é muito longa para que eu a reproduza aqui no blog, mas é essencialmente uma versão caprichada e extendida dos meus posts nesta discussão de Orkut que aconteceu na comunidade “Olavo de Carvalho do B”: http://www.orkut.com/CommMsgs.aspx?cmm=42033749&tid=2591383619147513345 

Agradeço a Roberto Ângelo dos Santos que me incentivou a escrever essa carta, a única maneira satisfatória de tirar minhas dúvidas sobre a leitura olaviana de Kant. 

Mudando de assunto, eu devo transferir esse blog de volta para o blogspot.com daqui a pouco, pois há o risco de que o wordpress seja bloqueado pelo provedores brasileiros, devido a uma decisão judicial. Mais informações aqui: http://naoaobloqueio.wordpress.com/ 

Bem é isso, até mais. 

Próximos tópicos metafísicos:

A Palestra “A Coisa” de Heidegger

Um diagrama tridimensional dos aspectos da realidade!

A relação entre aspectos da realidade e as suas modalidades

Problemas epistemológicos da dedução transcendental

Maio 2, 2008

O Sistema Completo dos Transcendentais

Arquivado em: Uncategorized — alcvargas @ 5:35 pm

               

 

O diagrama acima apresenta o sistema completo das relações entre os transcendentais. Como indicado no último post, as setas que partem de cada transcendental indicam os diferentes pápeis que ele desempenha na apresentação da realidade nos outros transcendentais. A realidade se apresenta em cada transcendental porque o sistema inteiro dos transcendentais é apresentado em cada um deles e cada transcendental apresenta um aspecto diferente da realidade. 

Observando o diagrama, vemos que entre os seis aspectos da realidade (imanência, atualidade, independência, transcendência, poder e conteúdo) há dois pares de aspectos complementares, de tal modo que se A apresenta em B um aspecto, B apresenta em A o aspecto complementar, e também dois aspectos que são seu próprio complementar. 

O complementar da atualidade é o conteúdo. Aquilo que é atual é sempre alguma coisa, isto é, somente algo dotado de um conteúdo que pode ser atual. Se uma coisa real é atual para A por ser apresentado no transcendental B, então é preciso que a coisa real tenha um conteúdo passível de atualização para B por ser apresentado sob o transcendental A. E por outro lado, alguma coisa sempre é alguma coisa que é, ou seja, um conteúdo só é dado no horizonte da atualidade. Por isso, se o conteúdo de uma coisa real for dada num transcendental B por ser apresentado em A, então sua atualidade é dada em B por ser apresentada em A.

O complementar do poder é a independência. O poder da coisa é sua capacidade de se impor ao transcendental, enquanto a independência da coisa é o fato que ela tem posse efetiva das determinações que o transcendental lhe atribui.  Ora, só é possível exercer um poder sobre uma coisa independente, pois é a independenência das coisas que faz com que aquilo que lhe foi imposto subsista. E por outro lado algo só mostra a sua independência na medida em que resiste o poder e evidencia sua subsistência própria. Se a coisa real se impõe ao transcendental B por ser apresentado no transcendental A, então é preciso que ela seja independente de A pela sua apresentação em B, e vice-versa.

A imanência e a transcendência são complementares de si mesmos. A imanência da realidade num transcendental é dada pela apresentação deste mesmo transcendental em si mesmo, logo a sua complementar é ela mesma. 

Por outro lado, a transcendência da realidade consiste no fato de que ela é mais do que a face que ela mostra para um transcendental particular. Ora, se A indica o excesso da realidade integral sobre a face da realidade que é apresentada em B, é porque o modo da realidade A não está presente de maneira alguma no transcendental B. Se A não está presente de modo algum em B, B não está presente de modo algum em A, logo B indica igualmente o excesso da realidade sobre A. 

(Essa explicação parece contradizer o fato que cada transcendental apresenta todos os outros transcendentais, pois afirma que há pelo menos um transcendental que não está presente de maneira alguma em cada transcendental. Entretanto, isso é só uma aparência, pois com essa expressão queremos dizer que ele é de fato apresentado, mas ele é apresentado de uma maneira completamente vazia e sem conteúdo, como uma mera intenção não preenchida. Isso se confirma numa meditação sobre a consciência: o raciocínio é para a consciência um veículo vazio de conteúdo próprio, e a consciência é para o pensamento apenas um sujeito indeterminado do pensamento.) 

Observando essas relações, nós também percebemos que assim como em cada transcendental cada um dos transcendentais manifesta um dos aspectos da realidade, cada transcendental acaba por manifestar todos os aspectos da realidade. Assim o processo por meio do qual os transcendentais apresentam uns aos outros e deste modo se tornam apresentações da realidade é ao mesmo tempo o processo por meio do qual os transcendentais eles mesmos se revelam como sendo coisas reais. 

Com isso já temos uma pista pra como resolver a questão da unidade da realidade, mas isso fica para outro post.

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