Hoje, darei substância às indicações do último post de uma descrição funcional dos transcendentais na constituição da realidade. Para tal, eu explicarei o modo a realidade é dada na consciência, que é o modo pelo qual nós, seres humanos, sempre a recebemos. Estas considerações nunca se referirão às propriedades intrínsecas da consciência, mas apenas à sua posição relativa dentro do sistema dos transcendentais. Por isso, depois da apresentação será possível generalizar os resultados e aplicá-los à constituição da realidade em geral.
A realidade é dada na consciência mediante a autoconsciência (a apercepção), a consciência do aparecer (a sensibilidade), a consciência do ser (o entendimento), a consciência do logos (a razão), a consciência da verdade (a intuição) e a consciência da ação (a vontade). A pergunta é como cada uma desses modos da consciência contribui à realidade.
A apercepção é autoconsciência, que é o modo da realidade dentro da qual estamos considerando a doação da realidade. Na autoconsciência, portanto, temos uma confirmação de sua doação e consciência de que a realidade não é algo alienígena à consciência. A apercepção estabelece a imanência da realidade na consciência.
A sensibilidade é consciência do aparecer, que estrutura a consciência, pois todo vivido efetivo é vivido de um fenômeno. Logo, a consciência do fenômeno pela sensibilidade é o que garante a atualidade da realidade. Algo é real para mim quando o encontrei na experiência.
O entendimento é a consciência do ser, que estrutura o aparecer. O fenômeno efetivo, que não é apenas o objeto de um vivido, mas que aparece por si, é um ser. Ou seja, consciência do ser pelo entendimento é consciência da independência da realidade.
A vontade é a consciência da ação, a qual é estruturada pela consciência. Para compreender a sua função transcendental imagine o que seria da consciência se ela não possuísse sua presença virtual (seu uso passivo) na ação. Assim toda consciência seria real e seria acompanhada pela presença virtual do fenômeno, de tal modo que ela se resumiria a ser um modo deficiente de presença do fenômeno e não possuiria um conteúdo próprio. Logo, a consciência da ação pela vontade é o que dá conteúdo à realidade na consciência.
A intuição é consciência da verdade, a qual é estruturada pela ação, que por sua vez é estruturada pela consciência. Assim, a consciência é o que torna a ação independente da verdade. A consciência da verdade, por isso, é consciência daquilo que as coisas dependiam antes de serem dadas na realidade da consciência. Na verdade, os fatos da consciência têm sua origem da qual procederam e se impuseram como fatos à consciência. Pela intuição temos consciência do poder da realidade sobre a consciência, sua impressão.
A razão é consciência do logos, que é estruturado pela verdade e que estrutura o ser. Ela é consciência, portanto, daquilo que confere atualidade à independência da realidade e daquilo que é o conteúdo do poder da realidade. Ou ainda, ela é consciência daquilo cujo conteúdo é dado pela independência e cuja atualidade é dada pelo poder. Ela é a consciência da transcendência da realidade, do fato que a coisa real é efetivamente uma coisa singular independente da consciência que se impõe a ela como uma realidade a ser considerada.
A consciência da realidade é alcançada pela ação conjunta dessas seis faculdades: a apercepção, a sensibilidade, o entendimento, a razão, a intuição e a vontade. Com elas a realidade é apreendida em todos seus aspectos: imanência, atualidade, independência, transcendência, poder e conteúdo.
No próximo post comentarei esta dedução das faculdades da consciência e sua relação com o problema da unidade da realidade.
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[...] no entendimento do ser. (Para ver o contexto maior dessas faculdades, é bom olhar os posts “A Teoria da Função Transcendental” e “Diagrama da [...]
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