A Unidade da Realidade
O problema da unidade da realidade é o problema de como seis modos diferentes da realidade, cada um deles refletindo dentro de si toda a realidade, podem ser modos de uma única realidade.
Por exemplo, a consciência é um modo da realidade onde as coisas são determinadas por serem objetos de vividos. O problema é o estatuto destas “coisas”: elas não são elas mesmas um outro transcendental, não há um “sétimo transcendental” que seria “a realidade enquanto tal”.
A resposta dada em posts anteriores foi: os objetos da consciência são fenômenos. Mas isso não pode estar certo. Pois “aparecer” é também um modo da realidade. Caso essa resposta fosse correta então cada transcendental teria como seu objeto um modo diferente específico da realidade. E uma coisa real seria assim seis coisas, conectadas por relações essenciais: a coisa seria um vivido de um fenômeno de um ser de um logos de uma verdade de uma ação de um vivido. Aqui o transcendental deixa de ser um modo da realidade para se tornar um modo de um modo da realidade, levando a absurdos.
O erro surge de uma má interpretação da dedução transcendental. Ela não pode querer dizer que o objeto da consciência é um fenômeno, mas sim que é a fenomenalidade do objeto da consciência que lhe torna um objeto efetivo da consciência. Apesar disto, a concepção circular da coisa real possui um núcleo de verdade, na medida em que ela busca preservar a todo custo a intuição de que a realidade não é um sétimo modo transcendental. Nesse esforço ele chega à percepção de que a realidade da coisa real é constituída pela sua participação em cada um dos transcendentais.
É preciso corrigir essa concepção lembrando que cada modo da realidade é um modo da realidade e que, portanto, a realidade transcende cada um de seus modos tomados sozinhos. Mas essa realidade é constituída pela interconexão dos modos diferentes.
Posto de outra maneira: há o domínio da realidade que transcende cada transcendental, mas ele (a) sempre se dá dentro de um modo específico e (b) ele é o que é porque possui todos seus modos.
O erro que cometi antes foi um erro na análise da predicação. Eu disse que na asserção “a mesa é vermelha” que “mesa” era o suporte da determinação “vermelha”, mas isso está obviamente errado: é a coisa que é vermelha, ser-mesa é apenas aquilo que lhe dá a possibilidade de ser vermelho.
É preciso, portanto, para completar nossa teoria da realidade oferecer uma teoria da função transcendental, mostrando o papel que cada modo da realidade tem na constituição da coisa real. Como a realidade é sempre apresentada sob um modo específico, o papel que cada modo possui irá mudar de acordo com o modo dado. O ser da realidade terá um papel diferente na sua constituição quando ela se apresenta na consciência e quando ela se apresenta no ser ele mesmo.
Agora, uma vez que cada transcendental apresenta a realidade e este é o único modo pelo qual a realidade é dada, então cada um apresenta também todos os modos da realidade incluindo a si mesmo. Por isso, o papel que cada transcendental tem na constituição da realidade é dado pela apresentação deste transcendental. Nesse sentido, o papel que o logos possui na constituição da realidade na consciência é o papel que a razão, a consciência do logos, possui na constituição da consciência.
Continua no próximo post.