Hegel as a Boy

Abril 7, 2008

Harmonias e Modalidades - III

Arquivado em: Uncategorized — alcvargas @ 4:57 pm

Cheguei no último post à conclusão de que o modo puro de um transcendental x que estrutura o transcendental-y são aquelas realidades-y que necessariamente possuem um objeto intencional-x. Isso conecta o modo puro do transcendental x ao modo concreto do transcendental y, pois este último é justamente o modo y na medida em que ele efetivamente possui objetos intencionais x.  A única diferença seria que enquanto o modo concreto é simplesmente o transcendental na medida em que ele tem um objeto intencional, o modo puro é o transcendental na medida em que ele necessariamente tem esse objeto.

Agora, que espécie de necessidade é essa? Será que devemos postular a existência de realidades especiais que sempre possuem um objeto intencional? Mas como isso seria possível através de conceitos? Como poderíamos descobrir, por exemplo, um fenômeno que necessariamente é a manifestação de um ser? Além do mais, se o modo puro do transcendental se restringisse a apenas uma certa região especial do transcendental em que medida ele seria transcendental?

Não, a necessidade aqui não pode querer significar um certo grupo de realidades especiais, mas deve apontar para um modo do transcendental, ao transcendental na medida em que ele necessariamente possui um objeto intencional.

Agora, é uma tautologia, e, portanto uma necessidade, que o modo concreto possui um objeto intencional. Mas o modo concreto inclui dentro de si toda a realidade do transcendental e, portanto inclui muitas coisas desnecessárias. É necessário que a natureza possua um ser, mas a natureza não possui tão somente um ser genérico, mas ela possui um ser singular, pleno de contingências e especificidades. O modo puro de um transcendental x é, portanto, apenas a forma necessária do modo concreto do transcendental y que ele estrutura.

O modo puro de x deste modo pode ser correlacionado à totalidade do modo abstrato de y. Pois cada realidade concreta singular de y pode acabar se revelando como não sendo  concreta. Cada fenômeno pode talvez ser uma mera projeção da consciência e cada ação pode se revelar como sendo um mero reflexo. Mas cada uma dessas decepções e destes enganos jamais põe em dúvida a realidade da totalidade de um dado transcendental. A possibilidade de engano não nos faz colocar em cheque a realidade da experiência em geral e a possibilidade de ações involuntárias não nos faz duvidar de que quem vive uma vida possui uma consciência.

Temos então que o modo puro de um transcendental x é a totalidade do modo abstrato ou a forma necessária do modo concreto do transcendental y que é estruturado por ele. COM isso as deduções se simplificam bastante:

O modo concreto do logos é o pensamento.  A idéia de uma totalidade do logos é a idéia de uma mente divina que está a cada momento em ato, pensando. Logo o modo puro da verdade é a mente divina, o que antes chamei de “o absoluto”.

O modo concreto do ser é a essência. Uma essência possui necessariamente uma forma, que é justamente a presença virtual nela do conceito que ela exemplifica. A totalidade do ser, que não podemos duvidar que tenha uma forma, é o formalismo universal. O modo puro do logos é, por isso, o formalismo.

O modo concreto do fenômeno é a natureza. A totalidade dos fenômenos nos é dados no fenômeno global do mundo. Logo o modo puro do ser é o mundo.

O modo concreto da consciência é o ser-aí. A forma geral do ser-aí é justamente a experiência dos fenômenos, o se encontrar em seu meio e o lidar com eles. Por isso, o modo puro do aparecer é a experiência.

O modo concreto da ação é a intersubjetividade, a ação que mostra um sujeito a outros sujeitos. A totalidade das ações de uma pessoa é chamada da vida desta pessoa. Portanto, o modo puro da consciência é a vida.

O modo concreto da verdade é a história. Weber disse em algum lugar que “a História é o conjunto dos resultados impremeditados das nossas ações”. Isso acontece porque a história não é uma criação nossa, mas a verificação da verdade, seu acontecer concreto, que se dá quando enfrentamos a realidade. Os planos e projetos dos humanos, fracassados ou bem sucedidos, estruturam e dão forma à esse acontecimento. A totalidade da verdade, portanto, que necessariamente se realiza na história, é a totalidade destes bens individuais buscados pelas pessoas, é o bem supremo. Concluímos, portanto, que o modo puro da ação é o bem supremo.

Com isso deduzimos os modos puros dos transcendentais. Como se vê, alguns deles não são aqueles que estão presentes no esquema do primeiro post desta série. Isto só vem a confirmar o que dissemos antes sobre as intuições que seguem as harmonias e sua correção e confirmação mediante o raciocínio com conceitos. No próximo post, apresentarei uma versão corrigida do diagrama e depois retornarei à questão da unidade da realidade.

Para terminar, observem como as oposições se mantêm entre os modos puros: O Bem Supremo julga o Mundo, a dinâmica da Vida rejeita a estática do Formalismo e a Mente Divina é o oposto da Experiência, sempre relativa e circunstancial.

 

Não Há Comentários »

Ainda não há comentários.

Alimentação RSS de comentários a este artigo. URI do TrackBack

Deixe um comentário

Blog no WordPress.com.