Hegel as a Boy

Abril 2, 2008

Harmonias e Modalidades - II

Arquivado em: Uncategorized — alcvargas @ 2:05 am

Os modos puros da realidade correspondem a o que antes designei como o transcendental enquanto tal. Neles, o transcendental é visado em toda sua extensão, não apenas no modo como ele se dá na realidade, mas também na sua presença ideal, no seu uso passivo, em outros transcendentais. Como ele abrange tanto o uso ativo quanto o uso passivo , ao modo puro de um transcendental corresponde o par formado por ele e o transcendental que ele estrutura.

Há duas maneiras de agrupar os transcendentais dois a dois de modo consecutivo:

(A) (Consciência - Aparecer) (Ser - Logos) (Verdade - Ação)

(B) (Aparecer - Ser) (Logos - Verdade) (Ação - Consciência)

Agora, no diagrama do post passado eu listei junto com os três modos de cada transcendental a ciência de cada um, pois descobri o sistema primeiro como um sistema de ciências e só depois foi que articulei o sistema de transcendentais. Se tomarmos os pares de ciências, temos o resultado notável que os pares (A) compartilham formas de pensar enquanto os pares (B) compartilham objetos:

(A) a psicologia e fenomenologia ambos procedem pela experiência, a ontologia e a lógica ambas são disciplinas formais e a teologia e a ética são reflexões espirituais.

(B) a fenomenologia e a ontologia ambas são ciências sobre o mundo, a lógica e a teologia ambas tematizam o absoluto, seja na forma do princípios do pensamento seja sob o modo do fundamento da existência, e por fim a psicologia e a ética ambas são ciências do ser humano.

Esses raciocínios não podem ser transferidos sem mais para o sistema de transcendentais, porque a ciência associada ao transcendental da verdade, a teologia, toma seu nome do modo puro deste ranscendental, e assim a conexão do transcendental com o modo puro não foi explicada ainda.

Isso na realidade é um ponto muito geral sobre o valor filosófico das harmonias sistemáticas. As harmonias por si só não constituem teses filosóficas. O que elas fazem é indicar relações que precisam ser verificadas e definidas conceitualmente. Algumas harmnoias podem desparecer nesse proceso enquanto novas aparecem. E desse modo o pensamento conceitual a visão das harmonias vão juntos traçando o caminho do sistema. Um pensamento que não aprecia a beleza e a elegância é cego, uma bela construção sem fundamentos é vazia.

Agora, a primeira coisa que podemos observar sobre esses modos puros é que embora cada um corresponda a um par de modos abstratos, o modo abstrato que estrutura o par é o termo focal do modo puro. Alguns exemplos: os fenômenos por si poderiam ser um caos de aparições, mas eles formam um mundo justamente pela sua ligação com o ser, ao qual primeiro pertence a noção de um todo subsistente; a ontologia, por sua vez, somente é um pensamento formal pela sua ligação com as categorias lógicas.

Assim cada modo puro corresponde a um par de modos abstratos, mas tem como termo focal o lado estruturador do par. Esse lado possui no outro um uso passivo, ou uma presença ideal, enquanto no seu próprio domínio ele possui um uso ativo, ou uma presença real.  O modo puro é uma extensão do transcendental estruturante, que abarca tanto o uso real quanto o uso ideal. É o transcendental enquanto tal, em contraste com o transcendental enquanto realidade.

Consideremos como se chega ao modo puro via a suspensão da realidade. O transcendental enquanto tal é aquilo que resta após a suspensão de toda realidade determinada pelo transcendental. Ele é, portanto, algo como uma realidade que não pode ser suspensa. Por outro lado, a suspensão da realidade de um transcendental o reduz a seu papel de ser objeto intencional de outro transcendental, absorbe o uso ativo no uso passivo. (1)

Dito isso, dado um transcendental x que estrutura um transcendental y, aquilo que necessariamente resta após a suspensão da realidade visada por x  são os objetos intencionais exigidos por y, ou posto de outro modo, são as realidades-y que necessariamente possuem um objeto intencional-x. Elas podem ser contrastadas, portanto, com todas aquelas realidades-y que podem ou não possuir um objeto intencional real. Esclarecerei isso no próximo post passando à dedução dos modos puros.

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(1) Esse fenômeno de absorção será melhor explicado qunado eu voltar a falar da dúvida radical.

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