Esboço de um Sistema
Segue um esboço dos argumentos pelos quais seria justificada a hipótese do sistema circular de transcendentais que é a minha hipótese de fundo nas minhas investigações daqui. Algumas das conexões podem parecer meramente lingüísticas, e outras apenas metafóricas, mas é por isso que o chamo apenas de um esboço. Eu defendo este esboço, apesar de sua fragilidade, pois intuitivamente as conexões conceituais nele apresentadas são fortíssimas.
Comecemos com o primeiro modo de realidade que conhecemos, que é a realidade fenomenal, aquela que se faz presente na experiência sensível. Esse é o campo do aparecer. Ele é nitidamente um campo transcendental: ele não determina nada mas é um meio dentro do qual todas as coisas podem se manifestar: deus se manifesta em milagres, a pessoa nos seus atos, as estruturas na ordem visível.
Consideremos agora o momento de determinar algo pelo aparecer. O que é aquilo que realmente aparece, que por-si é um fenômeno? É um ser, é algo que possui uma subsistência própria. Isso contrasta com o fenômeno que tem uma subsistência apenas em virtude de ser o correlato da consciência e que desvanece junto com ela, como uma imaginação.
Ser, então, seria o segundo transcendental na ordem do conhecimento. Tudo que realmente aparece tem um ser. A dualidade entre forma e suporte é manifestada exemplarmente pelo ser que permeia toda nossa linguagem sob a forma da cópula e ao mesmo tempo pode ser substantivado quando dizemos que algo é um ser.
Mas o ser enquanto uma forma geral de determinação é uma determinação do que as coisas são. Aquilo que realmente é um ser é a resposta a uma pergunta do tipo “O que é isso?”. “Isso” no caso só poderá ser algo que cai sob um conceito ou uma forma. Assim o transcendental do ser é estruturado pelo transcendental do logos.
Tudo que é, possui uma forma, uma razão, um conceito. O conceito pode ser tanto um objeto intencional, na medida em que todo ser exemplifica e anuncia os conceitos sob quais ele cai, ou o conceito pode ser uma intenção que determina outro algo. Mas o que é determinado pelo conceito? O que é por-si conceitual, lógico? Ora, é claramente a verdade, que é a norma de toda lógica. A verdade, pela sua própria realidade, é imediatamente coerente e apreensível pelo conceito.
Esboçar o que seja a verdade é, para mim, algo muito difícil. O que seria a verdade enquanto um modo concreto da realidade? Só posso conceber isso com metáforas de luz: como se ver a realidade nesse modo fosse a ver iluminada por uma luz tão forte que entrasse em todo buraco de toda coisa e a revelasse em todos seus detalhes. Toda realidade é uma espécie de atualidade, mas a verdade parece ser isso de forma eminente.
Mas o que é aquilo cuja realidade envolve ser verdadeiro, que espécie de realidade entra para a luz, passa para o ato? Bem, seria a ação. Na ação algo desdobra o que ela realmente é, se exterioriza e revela. Mas precisamos ser mais específicos: que tipo de ação? Será que com isso nós queremos dizer que todas as coisas podem ser vistas como manifestações de potências ocultas? Não, de maneira alguma. As coisas se verificam na ação, elas são confirmadas na sua verdade, elas revelam ser aquilo que elas pretendiam ser. A ação em questão é a ação de constantemente reconhecer as coisas na sua verdade. Ela é ação dentro de uma comunidade humana, ação dotada de sentido e que responde ao sentido.
A ação ou a alteridade entra, portanto, como o quinto modo concreto da realidade partindo do aparecer. A ação precisa ser uma forma vazia de determinação, sob pena de cravarmos uma fossa entre o mundo da comunidade e nosso mundo interior, povoando a vida de todos nós de segredos inconfessáveis por princípio.
Agora, o que é por-si uma ação, qual é o objeto de determinação de uma ação? Ora, naturalmente um vivido da consciência. Temos um preconceito natural que ação manifesta principalmente apenas aquele vivido que chamamos a vontade, mas isso não é verdadeiro, todo vivido se expressa em ações. A percepção de um obstáculo se traduz num desvio para evitá-lo, um pensamento se traduz num discurso, uma dor num grito, uma reflexão insistente numa hesitação. De fato, jamais seria possível que aprendêssemos o nome de qualquer estado interno se não o manifestássemos em ações.
Aquilo que por si age e se expressa é a consciência. Até mesmo a melancolia e o desespero profundos descritos por Kierkegaard se expressa, a diferença é apenas que esta expressão é muito mais articulada e sutil que um grito de dor ocasionado pelo ferrão de uma abelha. Agora, a transcendentalidade da consciência é uma tese clássica da filosofia e não só da filosofia moderna. Ela já está presente em Aristóteles quando ele diz que a alma é em certo sentido todas as coisas e em Santo Tomás quando ele toma essa compreensão da alma como a base para a inclusão do bem e do verdadeiro na sua lista dos transcendentais.
O que é aquilo que por si aparece à consciência, aquilo cujo aparecer à consciência pertence à sua própria realidade? Não é nada além daquilo que por si aparece, o domínio dos fenômenos, do aparecer. Com isso fechamos o círculo e chegamos ao nosso ponto de partida. A consciência antecede o começo, pois é dentro dela que se dá o conhecimento, mas ela é também seu último objeto, pois o cume da escalda do conhecimento é justamente o autoconhecimento.
Bem o post já está bastante longo. Ao longo dos próximos posts desenvolverei melhor as conexões que apresentei hoje e exibirei as “harmonias escondidas” às quais fiz referência antes.
Quaisquer dúvidas, pedidos ou sugestões, por favor, comentem.