Hegel as a Boy

Janeiro 25, 2008

O Transcendental enquanto tal

Arquivado em: fenomenologia — alcvargas @ 10:50 pm

Hoje irei tocar no nervo do problema colocado pela dúvida radical, uma tensão que reside na estrutura mesma dos transcendentais e que é escancarada pelo seu emprego na dúvida radical.

No primeiro post sobre a dúvida radical, expliquei que ela pode ser vista como uma tentativa de trata o transcendental enquanto tal: o filósofo apreende a totalidade da realidade sob o transcendental e em seguida coloca essa mesma realidade em parênteses, suspendendo toda e qualquer crença acerca dela. Desta forma, o fenomenólogo cartesiano vê a totalidade da realidade como uma realidade fenomenal, que aparece, e em seguida diz “deixo de lado a realidade desses fenômenos”. O que sobra então? Nada mais que a fenomenalidade dos fenômenos, a apreensão dos fenômenos apenas na medida em que eles são fenômenos.

Podemos tornar isso mais claro com os conceitos de uso ativo e uso passivo, pois a diferença entre o uso ativo e o uso passivo é justamente a diferença entre a realidade e a aparência no domínio de um transcnedental. Quando há uso ativo de um conceito transcendental, há atribuição real deste transcendental: o transcendental é algo da coisa (Ex: o aparecer é algo próprio ao gato). Entretanto, no uso passivo há tão somente uma atribuição condicional (Ex: o gato alucinado não aparece por si, mas apenmas por ser objeto da consciência). Suspender um juízo sobre uma realidade, não é, portanto, abandonar esse juízo por completo, mas fazer com que ele deixe de falar daquilo que pertence a essa realidade. É portanto a suspensão do uso ativo dos conceitos.

Dessa forma, para considerar um transcendental enquanto tal é preciso suspender seu uso ativo. Mas por outro lado, a pressuposição em favor do uso ativo é justamente o que dá unidade ao sistema dos transcendentais e constitui um domínio único da realidade em relação ao qual todos os transcendentais são ultragerais. Fora desta pressuposição aparecem objetos próprios a cada transcendental que não são abarcados pelos outros transcendentais, como o gato que é visto dentro de uma alucinação ou o ser que se mostra num agregado de fenômenos. Se esses objetos próprios são tomados como reais, então não há nenhum conceito ultrageral. Eles devem portanto, ser considerados como irreais.

Por isso, a dúvida radical não somente suspende a realidade, mas também introduz elementos irreais. Não é apenas uma perspectiva que abarca a totalidade da realidade, mas um salto para fora dela. No entanto, essa mesma dúvida deveria nos dar acesso à uma realidade absoluta, indubitável. As razões desta curiosa inferência serão estudadas em outro post.

2 Comentários »

  1. [...] sua vez, os modos puros da realidade correspondem a o que antes designei como o transcendental enquanto tal. Neles, o transcendental é visado em toda sua extensão, não apenas no modo como ele se dá na [...]

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  2. [...] alcvargas @ 2:05 am Os modos puros da realidade correspondem a o que antes designei como o transcendental enquanto tal. Neles, o transcendental é visado em toda sua extensão, não apenas no modo como ele se dá na [...]

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