O Sistema de Conceitos Transcendentais
No último post, foi apresentado um argumento de Kant que mostra como a possibilidade de considerações causais está pressuposta na percepção de eventos temporais. Ou, para usar os termos então introduzidos, o uso ativo do conceito de sucessão temporal implica o uso passivo do conceito de causalidade.
O cerne do argumento poderia ser resumido assim: aquilo que é por si sucessivo (em vez de ser sucessivo por ser percebido sucessivamente) é um efeito determinado por uma causa. Mas o espaço e o tempo são para Kant as noções gerais sob as quais caem tudo que aparece. E as categorias, incluindo a de causa e efeito, são aquelas que determinam o ser em geral, que para Kant é o objeto. Logo o argumento se encaixa dentro de um maior que é o seguinte: aquilo que aparece por si é um ser.
Preste atenção na relação deduzida entre os domínios do aparecer e do ser: tudo que realmente aparece também é. Logo o domínio do ser inclui o domínio do aparecer. Aquelas aparências que não são captadas pelas categorias do ser não são de fato fenômenos, mas entes psicológicos. Por outro lado, aquilo que é, mas não aparece, é um fenômeno possível. O ser, por incluir o campo do aparecer, determina as possibilidades do aparecer.
Com isso nós nos elevamos do nível dos conceitos meramente universais de sucessão temporal e causalidade para os conceitos transcendentais de ser e aparecer. De fato, se o caráter transcendental do conceito de fenômeno for assegurado, o argumento maior se converte numa prova da transcendentalidade do ser, pois ele prova que a extensão do ser é maior ou igual à extensão dos fenômenos. (1)
Vamos agora voltar ao argumento de Kant que prova a possibilidade necessária de aplicar os conceitos de causa e efeito aos fenômenos temporais. Ora, possibilidade é possibilidade de ser efetivado. Logo, para completar o argumento de Kant seria necessário se perguntar que conceito por sua vez torna possível o uso ativo dos conceitos de causa e efeito, da mesma forma que o uso passivo destes possibilita os juízos sobre sucessão temporal.
Generalizando, podemos dizer que a consideração transcendental de um conceito só se completa após um par de deduções: a primeira lhe assegura um domínio de objetos mostrando seu uso passivo no uso ativo de outro conceito, enquanto a segunda mostra o conceito que torna possível seu uso ativo. Nesse sentido, Kant, após mostrar na analítica transcendental que as categorias do ser constituem os objetos do mundo fenomenal, mostra no apêndice à dialética transcendental que as idéias da unidade lógica tornam possível o emprego das categorias.
Juntando estas duas idéias temos idéia de um sistema interligado de transcendentais, onde o caráter transcendental de um deles garante este caráter de todos os outros. Se houver uma quantidade finita de conceitos transcendentais então este sistema será circular, pois cada transcendental requererá outro para possibilitar seu uso passivo.
Isso não prova, mas torna plausível a idéia de um sistema circular de transcendentais. No próximo post será analisado o que significa a suspensão cartesiana do uso ativo de um transcendental dentro do contexto de tal sistema. Por enquanto vos deixarei apenas com o esboço com o qual presentemente trabalho deste sistema. Mais adiante passarei vários posts comentando este esboço, explicitando as deduções transcendentais que ele pressupõe e mostrando inúmeras harmonias que se revelam a qualquer um que brinque com ele um pouco.
Quaisquer dúvidas, favor comentar.
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1. É óbvio que, para que seja possível tomar o conceito de aparecer como um conceito transcendental, é preciso libertá-lo do domínio espaço-temporal no qual Kant o colocou. Os idealistas pós-kantianos fizeram isto em certa medida, mas essa generalização foi efetivamente levada a cabo apenas com Husserl, no século XX.
P.S. Se alguma boa alma puder fazer uma imagem mais bonitnha do sistema, ou sugerir algo melhor que o Paint para tal, agradeço. =)
Comentário de Antonio Vargas — Janeiro 14, 2008 @ 12:36 am