A Dúvida Radical
No último post, falei sobre a liberdade de uma maneira geral e prometi explicar em posts subseqüentes sobre como a filosofia é livre. Vou começar falando disso discutindo um ato exemplar da liberdade da filosofia: a dúvida radical.
A dúvida radical foi um método inventado por Descartes para descobrir um fundamento inabalável para o conhecimento: tentando duvidar de todas as suas crenças, ele descobriria a única coisa da qual ele não podia duvidar, uma crença sobre a qual ele poderia ter certeza absoluta.
Mais tarde, no século XX, o filósofo Edmund Husserl retomou a idéia de dúvida radical e a elaborou propondo a idéia de uma epokhé filosófica. Ao contrário de Descartes, que tentou negar tudo que ele podia negar, para então chegar à uma única parcela inegável da realidade, Husserl com sua epokhé simplesmente suspende todo juízo acerca do mundo, ele coloca o mundo “fora de circuito”, o põe “entre parênteses”. Com isso ele modifica o âmbito de sua investigação, e encontra um domínio onde ele pode ter crenças indubitáveis.
Enquanto Descartes buscou a única coisa sobre a qual ele não podia ter dúvidas, para então deduzir o resto de seus conhecimentos, Husserl busca um novo domínio, onde ele possa investigar qualquer coisa e ter uma certeza absoluta nesta investigação. (1)
Essa colocação do mundo entre parênteses é um ato de liberdade pura e simples: não há nada que force o filósofo a fazer isso, é algo que ele deve empreender por si mesmo. É uma tentativa de tomar um passo para trás da totalidade do conhecimento para poder começar “do zero” a partir de um ponto de partida que não pressupõe a nenhum outro e onde podemos ter completa certeza daquilo que falamos.
Agora isso tudo parece meio confuso: como é possível suspender o endosso a toda e qualquer crença? E a crença de que eu estou de fato fazendo isso? E as minhas crenças sobre o significado das palavras?
Para poder elucidar um pouco essa operação introduzirei algumas noções que tem haver com deduções transcendentais, que foram explicadas no segundo post. A primeira noção é a noção de conceito transcendental, ou simplesmente de um transcendental.(2)
Um conceito transcendental é um conceito que pode ser aplicado a todo e qualquer coisa. O caráter transcendental de um conceito muitas vezes se manifesta linguisticamente. Nesse sentido, o caráter transcendental da unidade é sugerido pelo fato que para nós “coisa” e “uma coisa” têm o mesmo significado. Exatamente quais são os conceitos transcendentais é um assunto de alguma controvérsia entre os filósofos.
Essa noção nos ajuda a compreender como a dúvida radical consegue ter a totalidade do conhecimento dentro de seu escopo. Para que isso seja possível é preciso que o filósofo tenha um conceito com o qual ele consiga se referir a todo e qualquer conhecimento ou a todo e qualquer objeto de conhecimento. Talvez ele use para tal justamente o conceito de conhecimento. Mas isso não e necessário e há objeções à idéia de que o conhecimento ou a cognoscibilidade (= capacidade de ser conhecido) sejam transcendentais.
De fato, o transcendental empregado pelo filósofo não é uma matéria de pouca importância. Pois o que acontece quando ele suspende todas suas crenças acerca daquilo que cai sob o escopo do transcendental? Ele dá um passo “para trás” de todas essas crenças e se encontra no campo vazio deste transcendental. Ou seja, tudo aquilo que “sobreviver” à dúvida radical, toda “certeza” que restar após a dúvida radical será uma certeza sobre o transcendental enquanto tal, sem acréscimos. Assim a dúvida radical é uma maneira de considerar as coisas somente segundo um determinado transcendental. Por exemplo, se “representação” for o transcendental empregado, então a dúvida radical reduzirá todas às coisas àquilo que elas são enquanto representadas.
O transcendental empregado num dado ato de dúvida radical desempenha então vários papéis: permite que a dúvida tenha como objeto a totalidade das crenças, delimita o escopo da dúvida caracterizando o que sobrevive dela e dá à dúvida um propósito, o de apreender as coisas exatamente na medida em que elas são caracterizadas por este transcendental.
A análise continua no próximo post
———————
1.Como Olavo de Carvalho coloca, comparar a dúvida universal de Descartes com a suspensão de juízo de Husserl é como comparar um relógio de areia com um relógio de quartzo: ambos servem à mesma função, mas o segundo é infinitamente mais refinado e preciso. Por isso, no texto estarei tratando tão simplesmente da “dúvida universal”, querendo com isso me referir tanto a um procedimento quanto ao outro.
2. Apesar de semelhança, os conceitos de “transcendental” e “dedução transcendental não tem a mesma origem. Este último é uma idéia kantiana, enquanto o primeiro surgiu na escolástica medieval. No próximo post irei relacionar os dois melhor.
alô, passei só para dizer que li os dois últimos posts – que não havia lido ainda – e que aguardo o próximo!
estou gostando da conversa entre você e o daniel nos comentários, na verdade ajuda a dar uma perspectiva mais clara do que você escreveu.
=)
Comentário de m. m. g. — Janeiro 7, 2008 @ 9:14 pm