Hegel as a Boy

Janeiro 25, 2008

O Transcendental enquanto tal

Arquivado em: fenomenologia — alcvargas @ 10:50 pm

Hoje irei tocar no nervo do problema colocado pela dúvida radical, uma tensão que reside na estrutura mesma dos transcendentais e que é escancarada pelo seu emprego na dúvida radical.

No primeiro post sobre a dúvida radical, expliquei que ela pode ser vista como uma tentativa de trata o transcendental enquanto tal: o filósofo apreende a totalidade da realidade sob o transcendental e em seguida coloca essa mesma realidade em parênteses, suspendendo toda e qualquer crença acerca dela. Desta forma, o fenomenólogo cartesiano vê a totalidade da realidade como uma realidade fenomenal, que aparece, e em seguida diz “deixo de lado a realidade desses fenômenos”. O que sobra então? Nada mais que a fenomenalidade dos fenômenos, a apreensão dos fenômenos apenas na medida em que eles são fenômenos.

Podemos tornar isso mais claro com os conceitos de uso ativo e uso passivo, pois a diferença entre o uso ativo e o uso passivo é justamente a diferença entre a realidade e a aparência no domínio de um transcnedental. Quando há uso ativo de um conceito transcendental, há atribuição real deste transcendental: o transcendental é algo da coisa (Ex: o aparecer é algo próprio ao gato). Entretanto, no uso passivo há tão somente uma atribuição condicional (Ex: o gato alucinado não aparece por si, mas apenmas por ser objeto da consciência). Suspender um juízo sobre uma realidade, não é, portanto, abandonar esse juízo por completo, mas fazer com que ele deixe de falar daquilo que pertence a essa realidade. É portanto a suspensão do uso ativo dos conceitos.

Dessa forma, para considerar um transcendental enquanto tal é preciso suspender seu uso ativo. Mas por outro lado, a pressuposição em favor do uso ativo é justamente o que dá unidade ao sistema dos transcendentais e constitui um domínio único da realidade em relação ao qual todos os transcendentais são ultragerais. Fora desta pressuposição aparecem objetos próprios a cada transcendental que não são abarcados pelos outros transcendentais, como o gato que é visto dentro de uma alucinação ou o ser que se mostra num agregado de fenômenos. Se esses objetos próprios são tomados como reais, então não há nenhum conceito ultrageral. Eles devem portanto, ser considerados como irreais.

Por isso, a dúvida radical não somente suspende a realidade, mas também introduz elementos irreais. Não é apenas uma perspectiva que abarca a totalidade da realidade, mas um salto para fora dela. No entanto, essa mesma dúvida deveria nos dar acesso à uma realidade absoluta, indubitável. As razões desta curiosa inferência serão estudadas em outro post.

A Realidade e Os Transcendentais

Arquivado em: fenomenologia, realidade — alcvargas @ 10:50 pm

Nos últimos posts eu tenho ressaltado a existência de “objetos próprios” de transcendentais, objetos que pertencem a um transcendental, mas não a todos. A existência de tais objetos é uma consequência da conexão dos transcendentais por deduções transcendentais. Para melhor compreender o que são esses objetos, é melhor investigar mais a fundo o que essa sistematização implica para a realidade dos transcendentais.

Mas o que vem a ser a realidade? Não quero entrar numa longa investigação sobre isso no momento então apenas motivarei uma sugestão por meio de três exemplos:

1) Com óculos vermelhos se vê uma mesa branca como uma mesa vermelha. Não se pode, então, dizer que a mesa é vista como ela realmente é, pois ela é branca e não vermelha. Mas por que isso depõe contra a realidade da percepção? Porque a mesa é vista com uma cor que não é dela.
2) Sentado num quarto vazio, imagino como ficaria bem ter uma mesa branca para preencher o espaço. Essa mesa é realmente um objeto de minha consciência, ela está, de fato, presente na minha mente. Mas ela não é uma mesa real: a sua aparição a mim não é algo que lhe pertence, mas uma conseqüência de ela ser imaginada por mim.
3) Em condições normais de visão, uma mesa branca é vista. Mas então, de repente, ela desaparece e uma voz eletrônica informa que o holograma-de-cinco-sentidos foi suspenso. Mais uma vez o que foi visto não foi uma mesa real. Não por qualquer problema perceptivo - mas porque a subsistência que a mesa aparentava ter, não era algo que lhe pertencia.

A partir desses exemplos, proponho a seguinte idéia: uma coisa é real quando tudo que ela é lhe pertence e alguma coisa é realmente x quando x é algo que lhe pertence, isto é, quando a atribuição de x a esse objeto for um caso do uso ativo do conceito x. Desta forma podemos dar uma leitura “metafísica” da dedução transcendental, mais rica que a leitura lógica dada antes.

Por exemplo, o argumento de Kant pelo princípio da causalidade responde à questão “Com que direito posso aplicar o conceito de causa à uma realidade empírica?”. Entretanto, para fazer isso, ele mostra que o uso ativo do conceito de sucessão (que está incluído no conceito de realidade empírica) implica no uso do conceito de causa e efeito. Desta forma, Kant responde a uma questão lógica (com que direito posso aplica esse conceito?) com uma consideração metafísica (o caráter causal de um evento confere realidade à seu caráter sucessivo).

Desta forma, a dedução transcendental de um conceito é a legitimação de seu uso mediante a demonstração de que o carácter que ele designa é responsável pela realidade do objeto. Mas como é que ele é responsável pela realidade do objeto? O objeto é real na medida em que o que é atribuído lhe pertence. A dedução transcendental de x mostra que o objeto, por ser realmente tal e qual, é um x. Ou seja, o carácter designado pelo conceito é justamente o carácter que permite às suas propriedades reais lhe pertencerem.

Isso aponta para o que há de mais interessante na realidade, seu caráter intencional. Toda característica real é uma característica que pertence a algo e a algo que é de determinada maneira, não necessariamente de modo real. Nesse sentido, aquilo que é realmente um objeto da consciência é um fenômeno e aquilo que é realmente um fenômeno é um ser. Não temos aqui um único objeto com três propriedades (ser objeto da consciência, aparece e ser), mas três grupos de objetos distintos (um conjunto de vividos, um conjunto de manifestações, uma essência) ligados por relações de remissão: os vividos são vividos destas manifestações que por sua vez são manifestações desta essência.

Com isso chegamos a uma boa conceituação de o que vem a ser um objeto próprio de um transcendental. Um objeto real é uma cadeia fechada de realidades ligadas por relações de remissão: um vivido de um fenômeno de um ser de uma forma de uma verdade de uma ação de um vivido. Um objeto irreal, ou um objeto próprio de um transcendental x, é um objeto que realmente é x, mas que não é realmente um objeto do transcendental que estrutura x. Assim por exemplo, temos vividos efetivos que não são vividos de fenômenos efetivos (Ex: alucinações), temos ações reais [transcendental alteridade] que não são ações de vividos efetivos (ex: vividos meramente atribuídos e não assumidos), seres reais que não são exemplificações de formas gerais (Ex: uma conexão causal que não segue uma lei). (2)

É isso por hoje. Quaisquer dúvidas, comentem.

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1. O conceito de realidade aqui apresentado é fortemente influenciado pela filosofia de Zubiri, mas não creio que seja exatamente o seu conceito, devido a alguns comentários dele sobre Kant.
2. Esses exemplos só podem ser plenamente compreendidos à luz das deduções transcendentais que articulam o sistema. Devo apresentar um esboço destas até o final do mês.

Duas notas rápidas

Arquivado em: Uncategorized — alcvargas @ 10:50 pm

Como alguns devem ter percebido, mudei os nomes dos últimos posts, para refletir o conteúdo em cada post em vez de seu lugar na série de posts sobre a dúvida radical. Fiz isso porque decidi adiar indefinidamente a análise da dúvida radical. Antes eu tinha como modelo a análise feita pelo Olavo de Carvalho em Consciência e Estranhamento, uma análise ao mesmo tempo clara e original do ato da dúvida. Contudo eu queria também continuar expondo os fundamentos do meu sistema transcendental e queria, em algum momento, enfocar o ato da dúvida radical como um ato exemplar de liberdade na filosofia. E por causa destes outros projetos embutidos, finalmente admiti para mim mesmo que há muito mais em jogo aqui que uma mera análise da dúvida radical e que não deveria englobar tudo sob esse título.

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Eu tenho, em posts passados, caracterizado o uso ativo de conceitos por meio da locução “por si”. Esse meio de caracterização é infeliz pois “por si” é uma locução muito forte. “Por si” traz consigo uma conotação de necessidade ou fundamento que não está presente em todo uso ativo. Quando, por exemplo, eu digo que fulano conseguiu tudo que ele tem por si, eu digo que ele sozinho é responsável por agora ter o que tem . No entanto quando eu digo que “a mesa é vermelha” não digo que ela seja responsável pela sua própria vermelhidão, mas tão somente que a vermelhidão é algo que lhe pertence, é algo da mesa, e não algo adicionado pela minha visão dela, por exemplo. É esta atribuição do vermelho como algo pertencente à mesa, como algo dela, que faz da frase ” a mesa é vermelha” um uso ativo do conceito.

Até agora me contentei em simplesmente explicar o uso do “por si” na caracterização do uso ativo e torcer para que as explicações fossem claras o suficiente para evitar qualquer confusão. Mudei de idéia e resolvi realizar esse esclarecimento terminológico pois em uma leitura que comecei este fim de semana , Sobre la Realidade de Xavier Zubiri, eu encontrei um termo que encapsula bem melhor o que é característico do uso ativo de um conceito - o termo “de suyo“. Com isso Zubiri expressa justamente que todos caracteres que percebemos de uma coisa são percebidas como algo que é dela e é justamente esta formalidade da percepção que faz com que ela seja uma percepão de uma realidade.

Entretanto, eu prefiro escrever tudo em uma só língua, então não passarei a pipocar meus textos com termos em espanhol. A menção a Zubiri está aqui apenas como uma indicação e também para mostrar como há maneiras melhores de caracterizar o uso passivo, pelo uso de palavras como “seu”, “sua”, “dele” e “dela”.

Janeiro 17, 2008

Os Conceitos Transcendentais

Arquivado em: fenomenologia — alcvargas @ 6:28 pm

Desculpa pela ausência prolongada.

Antes de continuar com a análise da dúvida radical, eu gostaria de responder à pergunta sobre o que faz com que os transcendentais sejam de fato transcendentais, isto é, o que lhes confere o caráter de serem conceitos ultragerais, que se aplicam a toda e qualquer coisa.

Essa explicação dos transcendentais é circular: dizer que algo é transcendental quando ele se aplica a todas as coisas é simplesmente dizer que ele é tão geral quanto o conceito de coisa, mas não explica em que consiste essa universalidade.

Nós já podemos avançar um pouco na explicação do caráter transcendental observando que “coisa” aqui não se refere tão somente a coisas independentes, como teclados, casas, pessoas, divindades, e nuvens. Ele se refere também à cor do céu, ao amor entre joão e maria, à distância entre o sol e a terra, ao espaço ocupado por marte no universo, às possibilidades do leitor não estar entendendo nada disso. Chamamos a tudo isso de coisa. Por isso os transcendentais são supracategoriais: a divisão das coisas em categorias seria sua divisão nos tipos mais amplos possíveis, como qualidade, quantidade, substância e relação, por exemplo. Pelos transcendentais não serem restritos a um só tipo de coisa, como a de “coisa subsistente”, eles são supracategoriais.

Transcender as categorias, no entanto, não confere aos transcendentais sua ultrageneraliadade: que haja seres em cada uma das categorias não implica que todas as coisas incluídas em cada categoria sejam seres. Além do mais, a determinação das categorias elas mesmas só pode ser feito a partir de um transcendental: categorias são os conceitos mais gerais sob os quais podem ser classificadas as coisas que pertencem a um dado transcendental. Logo dizer que algo é transcendental por ser supracategorial é circular.

Além de ser circular, a definição dos transcendentais dada acima também parece ser falsa se eles forem considerados segundo a distinção entre uso ativo e passivo. Considerado transcendentalmente, um conceito recebe a legitimidade de sua aplicação por ser essencial à circunscrição de um domínio de objetos. Como foi visto antes, a forma geral de um argumento transcendental é dizer que “Algo que por si é um x é um y”. Dois exemplos:

  • Algo que por si aparece sucessivamente no tempo (ao contrário daquilo que é sucessivo apenas por ser percebido sucessivamente) é um efeito determinado por uma causa (Argumento de Kant na segunda analogia)
  • Algo que por si é um objeto da consciência é algo que se dá à consciência, algo que aparece,um fenômeno (Dedução transcendental do conceito de fenômeno do conceito de consciência)

Agora, o que é o uso ativo de um conceito? O uso ativo de um conceito é quando aplicamos um conceito a algum objeto sem nenhuma qualificação. Por exemplo, quando dizemos “A mesa está vermelha” estamos fazendo um uso ativo de ‘vermelho’, ao contrário de quando dizemos “A mesa parece estar vermelha, pois estou usando óculos vermelhos”.Nessa última frase não há uso ativo de ‘vermelho’, pois não estamos chamando o objeto de vermelho, mas o objeto considerado sob certo aspecto.

Uma dedução transcendental mostra que todo caso em que há o uso ativo do conceito x, deve ser possível também aplicar o conceito y. Assim na segunda analogia Kant mostra que toda alteração no tempo é um efeito determinado por uma causa. Essa necessária possibilidade de aplicação de um conceito, seu uso para tornar possível o uso ativo de outro é chamado o uso passivo desse conceito.

O que é relevante neste momento é que a possibilidade de aplicação implicada pelo uso passivo de um conceito não é necessariamente a possibilidade do uso ativo do mesmo. Muito pelo contrário: quando um argumento transcendental mostra que o uso passivo de um conceito é requerido para o uso ativo de outro, o uso desse conceito é imediatamente dividido: por um lado há o uso ativo, quando o conceito é atribuído ao objeto, por outro há o uso meramente passivo, quando este conceito é atribuído ao objeto em virtude de ele cair sob outro conceito. Desta forma, na sua dedução do conceito de causa, Kant distingue o uso ativo da noção de sucessão temporal de seu uso passivo na percepção.

Isso causa um problema terrível para a pretensão de ultrageneralidade dos conceitos. Tomemos um transcendental clássico, o conceito de ser. No esboço de sistema apresentado no útlimo post, ele constitui o campo do aparecer, que por sua vez estrutura o campo da consciência. Assim o uso ativo do conceito de consciência envolve o uso passivo do conceito de aparecer e o uso ativo deste último envolve o uso passivo do conceito de ser. Entretanto, pela “brecha” que acabamos de ver, o uso ativo do conceito de consciência não implica o uso passivo do conceito de ser, muito menos seu uso ativo. Desse modo, é completamente plausível que haja um objeto da consciência que não seja um ser. Uma alucinação seria uma ótima candidata. Logo a conexão dos conceitos transcendentais num sistema de uso ativo e passivo não garante, e até parece negar, seu caráter ultrageral.

Não obstante a transcendentalidade de cada um dos conceitos envolvidos no exemplo parece algo natural: faz todo sentido perguntar pelo modo de ser de uma alucinação ou o modo pelo qual um objeto matemático muito complexo entra na consciência. Deste modo, algo deve estar faltando na nossa imagem do emprego dos conceitos transcendentais e isso deve ser responsável pela objeção que deduzimos. A objeção foi deduzida do fato que o uso passivo não implica no uso ativo. Ela estaria neutralizada se tivéssemos alguma garantia de que todo uso de um conceito é um uso ativo, mas isso é absurdo.

No entanto, se prestarmos atenção à maneira como nos comportamos naturalmente vemos que não nos perguntamos a cada momento se um conceito está sendo usado passivamente ou ativamente, mas naturalmente pressupomos seu uso ativo. Por exemplo, quando vejo uma árvore se balançar, eu naturalmente presumo que ela mesma se balança e não que minha percepção seja algo interior à minha consciência. E quando eu investigo a árvore, eu presumo que ela tenha um ser, uma subsistência própria e não seja uma manifestação de alguma outra coisa. Há assim uma pressuposição em favor do uso ativo dos conceitos.

É essa pressuposição constante que fazemos, essa orientação natural da mente, que quase-garante a ultrageneralidade dos transcendentais. É claro de vez em quando essa pressuposição pode se mostrar errada: aquilo que à primeira vista era uma propriedade do objeto se revela uma mera ilusão ótica. No entanto, tais exceções não atestam contra nossas pressuposições naturais, que continuamos a empregar na sua máxima generalidade, intocadas por tais discrepâncias. Dizemos com a maior tranquilidade que a visão é visão de coisas no mundo e que nem tudo é o que parece. Há aqui uma espécie própria de generalidade, que é diferente da generalidade comum expressa em juízos como “Todo ganso é branco” “2 + 2 = 4″ e “Ouro é um metal”. Essa forma curiosa de generalidade é a ultrageneralidade própria dos transcendentais.

No próximo post espero poder realizar a tão adiada análise da dúvida radical com auxílio dos conceitos até aqui desenvolvidos.

Obrigado pela paciência, o texto foi grande hoje. Qualquer coisa, favor comentem.

Janeiro 3, 2008

O Sistema de Conceitos Transcendentais

Arquivado em: fenomenologia, sistema — alcvargas @ 11:32 pm

No último post, foi apresentado um argumento de Kant que mostra como a possibilidade de considerações causais está pressuposta na percepção de eventos temporais. Ou, para usar os termos então introduzidos, o uso ativo do conceito de sucessão temporal implica o uso passivo do conceito de causalidade.

O cerne do argumento poderia ser resumido assim: aquilo que é por si sucessivo (em vez de ser sucessivo por ser percebido sucessivamente) é um efeito determinado por uma causa. Mas o espaço e o tempo são para Kant as noções gerais sob as quais caem tudo que aparece. E as categorias, incluindo a de causa e efeito, são aquelas que determinam o ser em geral, que para Kant é o objeto. Logo o argumento se encaixa dentro de um maior que é o seguinte: aquilo que aparece por si é um ser.

Preste atenção na relação deduzida entre os domínios do aparecer e do ser: tudo que realmente aparece também é. Logo o domínio do ser inclui o domínio do aparecer. Aquelas aparências que não são captadas pelas categorias do ser não são de fato fenômenos, mas entes psicológicos. Por outro lado, aquilo que é, mas não aparece, é um fenômeno possível. O ser, por incluir o campo do aparecer, determina as possibilidades do aparecer.

Com isso nós nos elevamos do nível dos conceitos meramente universais de sucessão temporal e causalidade para os conceitos transcendentais de ser e aparecer. De fato, se o caráter transcendental do conceito de fenômeno for assegurado, o argumento maior se converte numa prova da transcendentalidade do ser, pois ele prova que a extensão do ser é maior ou igual à extensão dos fenômenos. (1)

Vamos agora voltar ao argumento de Kant que prova a possibilidade necessária de aplicar os conceitos de causa e efeito aos fenômenos temporais. Ora, possibilidade é possibilidade de ser efetivado. Logo, para completar o argumento de Kant seria necessário se perguntar que conceito por sua vez torna possível o uso ativo dos conceitos de causa e efeito, da mesma forma que o uso passivo destes possibilita os juízos sobre sucessão temporal.

Generalizando, podemos dizer que a consideração transcendental de um conceito só se completa após um par de deduções: a primeira lhe assegura um domínio de objetos mostrando seu uso passivo no uso ativo de outro conceito, enquanto a segunda mostra o conceito que torna possível seu uso ativo. Nesse sentido, Kant, após mostrar na analítica transcendental que as categorias do ser constituem os objetos do mundo fenomenal, mostra no apêndice à dialética transcendental que as idéias da unidade lógica tornam possível o emprego das categorias.

Juntando estas duas idéias temos idéia de um sistema interligado de transcendentais, onde o caráter transcendental de um deles garante este caráter de todos os outros. Se houver uma quantidade finita de conceitos transcendentais então este sistema será circular, pois cada transcendental requererá outro para possibilitar seu uso passivo.

Isso não prova, mas torna plausível a idéia de um sistema circular de transcendentais. No próximo post será analisado o que significa a suspensão cartesiana do uso ativo de um transcendental dentro do contexto de tal sistema. Por enquanto vos deixarei apenas com o esboço com o qual presentemente trabalho deste sistema. Mais adiante passarei vários posts comentando este esboço, explicitando as deduções transcendentais que ele pressupõe e mostrando inúmeras harmonias que se revelam a qualquer um que brinque com ele um pouco.

Quaisquer dúvidas, favor comentar.

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1. É óbvio que, para que seja possível tomar o conceito de aparecer como um conceito transcendental, é preciso libertá-lo do domínio espaço-temporal no qual Kant o colocou. Os idealistas pós-kantianos fizeram isto em certa medida, mas essa generalização foi efetivamente levada a cabo apenas com Husserl, no século XX.

O Uso Ativo e Passivo de Conceitos

Arquivado em: Kant — alcvargas @ 11:32 pm

No último post eu iniciei uma análise do método cartesiano da dúvida radical. Para tanto foi introduzida a noção de conceito transcendental. Para continuar com a análise gostaria de introduzir algumas noções relativas à deduções transcendentais. Tomarei um argumento transcendental de Kant (a segunda anlogia da experiência na Crítica da Razão Pura) para explicá-las. Para evitar que o post se torne enorme, agora só vou introduzir as noções e no próximo eu as relaciono com a dúvida radical.

O problema que Kant enfrenta na segunda analogia é encontrar por qual maneira é possível perceber uma sucessão temporal. Ele demonstra que toda percepção é sucessiva na primeira parte da crítica. Agora, apesar de toda percepção ser sucessiva, nem todo objeto é sucessivo: nós vemos uma casa parte por parte mas a casa ela mesma não se faz “parte por parte”, mas nós vemos uma briga se desenrolar e essa briga de fato é um evento temporal: ela não é existe toda ao mesmo tempo, mas acontece à mediada que o tempo passa.

Kant observa que a diferença entre a percepção da casa e a percepção do evento temporal é que em um caso a ordem das percepções é arbitrária: posso tanto olhar a casa de baixo para cima como de cima para baixo. O caráter sucessivo aqui não está no objeto, mas na sua relação conosco, na sua percepção. Por outro lado a briga é em si sucessiva: a parte dela que já passou, jamais poderá ser percebida de novo. Aqui a ordem das percepções das aprtes da briga é irreversível.

Com isso Kant conclui que a percepção sucessiva é percepção de um evento no tempo apenas se ela for acompanhada da consciência da irreversibilidade da ordem desta sucessão. Isto é, apenas se a ordem da sucessão for determinada por uma regra. Uma regra afirma que sob dada condição algo é verdadeiro. Logo a idéia de uma sucessão determinada por uma regra é a noção de uma sucessão determinada por um antecedente, a noção de um evento que tem uma causa. Por isso, para que seja possível circunscrever o domínio dos objetos temporais é preciso empregar o conceito de casualidade: perceber uma sucessão temporal é sempre perceber algo causado.

Isto é, resumidamente o argumento de Kant. Nele, é provado que para que sejam feitas afirmações temporais do tipo “Eu acordei hoje de manhã e agora estou trabalhando” é preciso pressupor que os objetos de tais afirmações estão sujeitos às categorias de causa e efeito, isto é, podemos investigar quais são as suas causas. Eu chamo uso passivo de um conceito esse emprego estruturante, onde ele não é usado explicitmanete em um juízo mas a possibilidade de seu emprego é pressuposta pelo juízo em questão. Eu chamo uso ativo justamente o uso explícito de um conceito num juízo, seja ele afirmativo, negativo, ou modalizado: “A culpa é do Cicrano” “A culpa não é do Fulano” “A culpa talvez seja do Beltrano” todos são exemplos de usos ativos do conceito ‘culpa’. Kant no argumento justifica o uso ativo do conceito de causa no mundo espaço-temporal mostrando que ele necessariamente possui um uso passivo nele.

As relações estabelecidas por deduções transcendentais entre usos ativos e passivos de conceitos adiantará a análise da dúvida radical, pois a suspensão de juízo praticada na dúvida é justamente a opção de não fazer qualquer uso ativo do conceito transcendental que lhe confere seu escopo universal. Mais sobre isso no próximo post. Quaisquer dúvidas comentem.

A Dúvida Radical

Arquivado em: definições, fenomenologia — alcvargas @ 11:32 pm

No último post, falei sobre a liberdade de uma maneira geral e prometi explicar em posts subseqüentes sobre como a filosofia é livre. Vou começar falando disso discutindo um ato exemplar da liberdade da filosofia: a dúvida radical.

A dúvida radical foi um método inventado por Descartes para descobrir um fundamento inabalável para o conhecimento: tentando duvidar de todas as suas crenças, ele descobriria a única coisa da qual ele não podia duvidar, uma crença sobre a qual ele poderia ter certeza absoluta.

Mais tarde, no século XX, o filósofo Edmund Husserl retomou a idéia de dúvida radical e a elaborou propondo a idéia de uma epokhé filosófica. Ao contrário de Descartes, que tentou negar tudo que ele podia negar, para então chegar à uma única parcela inegável da realidade, Husserl com sua epokhé simplesmente suspende todo juízo acerca do mundo, ele coloca o mundo “fora de circuito”, o põe “entre parênteses”. Com isso ele modifica o âmbito de sua investigação, e encontra um domínio onde ele pode ter crenças indubitáveis.

Enquanto Descartes buscou a única coisa sobre a qual ele não podia ter dúvidas, para então deduzir o resto de seus conhecimentos, Husserl busca um novo domínio, onde ele possa investigar qualquer coisa e ter uma certeza absoluta nesta investigação. (1)

Essa colocação do mundo entre parênteses é um ato de liberdade pura e simples: não há nada que force o filósofo a fazer isso, é algo que ele deve empreender por si mesmo. É uma tentativa de tomar um passo para trás da totalidade do conhecimento para poder começar “do zero” a partir de um ponto de partida que não pressupõe a nenhum outro e onde podemos ter completa certeza daquilo que falamos.

Agora isso tudo parece meio confuso: como é possível suspender o endosso a toda e qualquer crença? E a crença de que eu estou de fato fazendo isso? E as minhas crenças sobre o significado das palavras?

Para poder elucidar um pouco essa operação introduzirei algumas noções que tem haver com deduções transcendentais, que foram explicadas no segundo post. A primeira noção é a noção de conceito transcendental, ou simplesmente de um transcendental.(2)

Um conceito transcendental é um conceito que pode ser aplicado a todo e qualquer coisa. O caráter transcendental de um conceito muitas vezes se manifesta linguisticamente. Nesse sentido, o caráter transcendental da unidade é sugerido pelo fato que para nós “coisa” e “uma coisa” têm o mesmo significado. Exatamente quais são os conceitos transcendentais é um assunto de alguma controvérsia entre os filósofos.

Essa noção nos ajuda a compreender como a dúvida radical consegue ter a totalidade do conhecimento dentro de seu escopo. Para que isso seja possível é preciso que o filósofo tenha um conceito com o qual ele consiga se referir a todo e qualquer conhecimento ou a todo e qualquer objeto de conhecimento. Talvez ele use para tal justamente o conceito de conhecimento. Mas isso não e necessário e há objeções à idéia de que o conhecimento ou a cognoscibilidade (= capacidade de ser conhecido) sejam transcendentais.

De fato, o transcendental empregado pelo filósofo não é uma matéria de pouca importância. Pois o que acontece quando ele suspende todas suas crenças acerca daquilo que cai sob o escopo do transcendental? Ele dá um passo “para trás” de todas essas crenças e se encontra no campo vazio deste transcendental. Ou seja, tudo aquilo que “sobreviver” à dúvida radical, toda “certeza” que restar após a dúvida radical será uma certeza sobre o transcendental enquanto tal, sem acréscimos. Assim a dúvida radical é uma maneira de considerar as coisas somente segundo um determinado transcendental. Por exemplo, se “representação” for o transcendental empregado, então a dúvida radical reduzirá todas às coisas àquilo que elas são enquanto representadas.

O transcendental empregado num dado ato de dúvida radical desempenha então vários papéis: permite que a dúvida tenha como objeto a totalidade das crenças, delimita o escopo da dúvida caracterizando o que sobrevive dela e dá à dúvida um propósito, o de apreender as coisas exatamente na medida em que elas são caracterizadas por este transcendental.

A análise continua no próximo post

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1.Como Olavo de Carvalho coloca, comparar a dúvida universal de Descartes com a suspensão de juízo de Husserl é como comparar um relógio de areia com um relógio de quartzo: ambos servem à mesma função, mas o segundo é infinitamente mais refinado e preciso. Por isso, no texto estarei tratando tão simplesmente da “dúvida universal”, querendo com isso me referir tanto a um procedimento quanto ao outro.

2. Apesar de semelhança, os conceitos de “transcendental” e “dedução transcendental não tem a mesma origem. Este último é uma idéia kantiana, enquanto o primeiro surgiu na escolástica medieval. No próximo post irei relacionar os dois melhor.

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