Desculpa pela ausência prolongada.
Antes de continuar com a análise da dúvida radical, eu gostaria de responder à pergunta sobre o que faz com que os transcendentais sejam de fato transcendentais, isto é, o que lhes confere o caráter de serem conceitos ultragerais, que se aplicam a toda e qualquer coisa.
Essa explicação dos transcendentais é circular: dizer que algo é transcendental quando ele se aplica a todas as coisas é simplesmente dizer que ele é tão geral quanto o conceito de coisa, mas não explica em que consiste essa universalidade.
Nós já podemos avançar um pouco na explicação do caráter transcendental observando que “coisa” aqui não se refere tão somente a coisas independentes, como teclados, casas, pessoas, divindades, e nuvens. Ele se refere também à cor do céu, ao amor entre joão e maria, à distância entre o sol e a terra, ao espaço ocupado por marte no universo, às possibilidades do leitor não estar entendendo nada disso. Chamamos a tudo isso de coisa. Por isso os transcendentais são supracategoriais: a divisão das coisas em categorias seria sua divisão nos tipos mais amplos possíveis, como qualidade, quantidade, substância e relação, por exemplo. Pelos transcendentais não serem restritos a um só tipo de coisa, como a de “coisa subsistente”, eles são supracategoriais.
Transcender as categorias, no entanto, não confere aos transcendentais sua ultrageneraliadade: que haja seres em cada uma das categorias não implica que todas as coisas incluídas em cada categoria sejam seres. Além do mais, a determinação das categorias elas mesmas só pode ser feito a partir de um transcendental: categorias são os conceitos mais gerais sob os quais podem ser classificadas as coisas que pertencem a um dado transcendental. Logo dizer que algo é transcendental por ser supracategorial é circular.
Além de ser circular, a definição dos transcendentais dada acima também parece ser falsa se eles forem considerados segundo a distinção entre uso ativo e passivo. Considerado transcendentalmente, um conceito recebe a legitimidade de sua aplicação por ser essencial à circunscrição de um domínio de objetos. Como foi visto antes, a forma geral de um argumento transcendental é dizer que “Algo que por si é um x é um y”. Dois exemplos:
- Algo que por si aparece sucessivamente no tempo (ao contrário daquilo que é sucessivo apenas por ser percebido sucessivamente) é um efeito determinado por uma causa (Argumento de Kant na segunda analogia)
- Algo que por si é um objeto da consciência é algo que se dá à consciência, algo que aparece,um fenômeno (Dedução transcendental do conceito de fenômeno do conceito de consciência)
Agora, o que é o uso ativo de um conceito? O uso ativo de um conceito é quando aplicamos um conceito a algum objeto sem nenhuma qualificação. Por exemplo, quando dizemos “A mesa está vermelha” estamos fazendo um uso ativo de ‘vermelho’, ao contrário de quando dizemos “A mesa parece estar vermelha, pois estou usando óculos vermelhos”.Nessa última frase não há uso ativo de ‘vermelho’, pois não estamos chamando o objeto de vermelho, mas o objeto considerado sob certo aspecto.
Uma dedução transcendental mostra que todo caso em que há o uso ativo do conceito x, deve ser possível também aplicar o conceito y. Assim na segunda analogia Kant mostra que toda alteração no tempo é um efeito determinado por uma causa. Essa necessária possibilidade de aplicação de um conceito, seu uso para tornar possível o uso ativo de outro é chamado o uso passivo desse conceito.
O que é relevante neste momento é que a possibilidade de aplicação implicada pelo uso passivo de um conceito não é necessariamente a possibilidade do uso ativo do mesmo. Muito pelo contrário: quando um argumento transcendental mostra que o uso passivo de um conceito é requerido para o uso ativo de outro, o uso desse conceito é imediatamente dividido: por um lado há o uso ativo, quando o conceito é atribuído ao objeto, por outro há o uso meramente passivo, quando este conceito é atribuído ao objeto em virtude de ele cair sob outro conceito. Desta forma, na sua dedução do conceito de causa, Kant distingue o uso ativo da noção de sucessão temporal de seu uso passivo na percepção.
Isso causa um problema terrível para a pretensão de ultrageneralidade dos conceitos. Tomemos um transcendental clássico, o conceito de ser. No esboço de sistema apresentado no útlimo post, ele constitui o campo do aparecer, que por sua vez estrutura o campo da consciência. Assim o uso ativo do conceito de consciência envolve o uso passivo do conceito de aparecer e o uso ativo deste último envolve o uso passivo do conceito de ser. Entretanto, pela “brecha” que acabamos de ver, o uso ativo do conceito de consciência não implica o uso passivo do conceito de ser, muito menos seu uso ativo. Desse modo, é completamente plausível que haja um objeto da consciência que não seja um ser. Uma alucinação seria uma ótima candidata. Logo a conexão dos conceitos transcendentais num sistema de uso ativo e passivo não garante, e até parece negar, seu caráter ultrageral.
Não obstante a transcendentalidade de cada um dos conceitos envolvidos no exemplo parece algo natural: faz todo sentido perguntar pelo modo de ser de uma alucinação ou o modo pelo qual um objeto matemático muito complexo entra na consciência. Deste modo, algo deve estar faltando na nossa imagem do emprego dos conceitos transcendentais e isso deve ser responsável pela objeção que deduzimos. A objeção foi deduzida do fato que o uso passivo não implica no uso ativo. Ela estaria neutralizada se tivéssemos alguma garantia de que todo uso de um conceito é um uso ativo, mas isso é absurdo.
No entanto, se prestarmos atenção à maneira como nos comportamos naturalmente vemos que não nos perguntamos a cada momento se um conceito está sendo usado passivamente ou ativamente, mas naturalmente pressupomos seu uso ativo. Por exemplo, quando vejo uma árvore se balançar, eu naturalmente presumo que ela mesma se balança e não que minha percepção seja algo interior à minha consciência. E quando eu investigo a árvore, eu presumo que ela tenha um ser, uma subsistência própria e não seja uma manifestação de alguma outra coisa. Há assim uma pressuposição em favor do uso ativo dos conceitos.
É essa pressuposição constante que fazemos, essa orientação natural da mente, que quase-garante a ultrageneralidade dos transcendentais. É claro de vez em quando essa pressuposição pode se mostrar errada: aquilo que à primeira vista era uma propriedade do objeto se revela uma mera ilusão ótica. No entanto, tais exceções não atestam contra nossas pressuposições naturais, que continuamos a empregar na sua máxima generalidade, intocadas por tais discrepâncias. Dizemos com a maior tranquilidade que a visão é visão de coisas no mundo e que nem tudo é o que parece. Há aqui uma espécie própria de generalidade, que é diferente da generalidade comum expressa em juízos como “Todo ganso é branco” “2 + 2 = 4″ e “Ouro é um metal”. Essa forma curiosa de generalidade é a ultrageneralidade própria dos transcendentais.
No próximo post espero poder realizar a tão adiada análise da dúvida radical com auxílio dos conceitos até aqui desenvolvidos.
Obrigado pela paciência, o texto foi grande hoje. Qualquer coisa, favor comentem.