Hegel as a Boy

Dezembro 28, 2007

O que é a liberdade?

Arquivado em: Kant, definições — alcvargas @ 6:49 pm

(Não, não vou dar uma definição do que seja a liberdade. Apenas traçarei um breve esboço que sirva para meus propósitos mais imediatos)

A liberdade é, para muitos, o poder de se fazer o que se quer. Confiantes desta opinião, as pessoas se sentem o suprassumo da individualidade nas suas escolhas diárias entre as roupas para vestir, as ruas por onde andar, as tarefas para fazer e adiar. E elas são livres, pois “elas fazem o que querem”.

Ah, mas essa expressão é apenas a superfície da liberdade, sua aparência múltipla e volátil. Se por um lado as pessoas “fazem o que querem”, por outro elas querem o que elas fazem, ou seja, o fundamento de suas ações está na sua vontade e, por isso, elas têm responsabilidade pelos seus atos e dela podemos exigir uma resposta à pergunta “por quê?”.

A liberdade parece então consistir em fazer o que se quer e apenas aquilo que se quer. Mas ora, nem toda ação nesse caso pode ser considerado uma ação livre, pois há várias ações que não são determinadas inteiramente pelo agente, embora sejam fruto de sua vontade. É preciso portanto traçar uma diferença crucial, é preciso distinguir entre a liberdade e a autonomia.

A liberdade consiste em poder fazer o que se quer. A autonomia é a livre escolha de ser livre, é o reconhecimento da própria liberdade, e por isso, agir de forma autônoma é querer que todos os atos sejam de fato atos livres, isto é atos fundados na própria vontade e nada mais.

Se as múltiplas escolhas de cada dia são a superfície fugaz da liberdade cada uma delas ao mesmo tempo encena a única escolha verdadeira que há para um ser livre, a escolha de ser autônomo ou não.

A liberdade é mais ampla que a autonomia: o ser humano, por ser livre, sempre tem a opção de livremente fugir de sua própria liberdade e seguir uma vida onde ela não determina nada, onde todas as suas escolhas são feitas por outros em seu nome.

Immanuel Kant é, até o meu conhecimento, o primeiro a pensar a liberdade a autonomia nestes termos, e os idealistas pós kantianos buscaram nada menos do que fazer desta concepção da liberdade o fundamento da filosofia. Nos posts seguintes falarei de como a filosofia é livre no sentido aqui descrito e que tarefas isto impõe para ela. Com isso, uma série de conceitos, como os de conceito transcendental e antifilosofia poderão ser introduzidos.

Dezembro 26, 2007

O que é uma dedução transcendental?

Arquivado em: Kant, definições — alcvargas @ 12:28 am

(Vou passar estes primeiros posts esclarecendo alguns conceitos que volta e meio emprego.)

A dedução transcendental é uma das principais inovações trazidas à filosofia por Kant na sua Crítica da Razão Pura e ela está por trás dos vários sistemas filosóficos dos idealistas que o seguiram e também é fundamental para o modo como eu tento elaborar um sistema filosófico.

Uma dedução transcendental é um argumento que busca inicialmente responder a perguntas do tipo “Por que é legítimo aplicar o conceito x no domínio de objetos y?”, como por exemplo:

  • Por que é legítimo aplicar os conceitos de causa e efeito na explicação de eventos que ocorrem no espaço e no tempo?
  • Por que é legítimo usar a noção de alma para explicar as ações de um animal racional?
  • Por que é legítimo dizer que as coisas que percebemos estão no espaço e no tempo?

Para responder a essas perguntas não basta mostrar que esses conceitos são de fato usados na reflexão sobre os objetos em questão, nem basta mostrar que eles são usados com sucesso. O sucesso de um conceito em explicar um fenômeno apenas mostra, na melhor das hipóteses, que a aplicação do conceito é de fato legítima sem mostrar a razão pela qual ela é legítima. Na pior das hipóteses, o sucesso apenas mostra que esse fenômeno age /como se/ ele fosse da maneira como ele é descrito pelo conceito e não que o conceito de fato revela o que o fenômeno realmente é.

Para compreender como uma dedução transcendental responde a essas perguntas, primeiro é preciso observar que o domínio de objetos sempre é caracterizado ele também por um conceito. Assim, por exemplo, quando se pergunta por que os conceitos de espaço e tempo podem ser aplicados ao mundo espaço-temporal, o domínio de aplicação está caracterizado pelos conceitos de espaço e de tempo.

Agora, o que uma dedução transcendental faz? Ela mostra que os conceitos que caracterizam o domínio de objetos já requerem, para a sua própria aplicação, a aplicação daqueles conceitos cuja legitimidade precisa ser fundamentada. Por exemplo, na Crítica da Razão Pura, Kant argumenta que a distinção entre o tempo enquanto sucessão objetiva dos eventos e a sucessão das nossas percepções requer que haja uma ordem necessária à sucessão das coisas percebidas, o que é pensado justamente pelo conceito de causa e efeito.

Dessa maneira, numa dedução transcendental a legitimidade da aplicação de um conceito a um domínio de objetos é provada mostrando como esse conceito supre uma necessidade dos conceitos que caracterizam este domínio de objetos. Assim a dedução transcendental também responde ao mesmo tempo à pergunta: Como é possível aplicar um conceito num domínio de objetos?

O interessante da dedução transcendental e o que o transforma numa mola para a construção de sistema filosóficos é que as duas perguntas que ele responde estão intimamente conectadas. Pois após mostrar que é preciso aplicar um conceito para um certo domínio de objetos, sempre é preciso após isto investigar como é possível esta aplicação. Desta maneira, Kant, no final da Crítica complementa a sua dedução transcendental do conceito de causa e das demais categorias com um esboço de uma dedução transcendental das idéias da alma, do mundo e de Deus. É pelo fato que as pessoas não lerem toda a Crítica, e não levarem a sério esse esboço que se encontra no final que muitas vezes se vê uma imagem de Kant como alguém que propõe um papel pequeno para essas idéias, enquanto na realidade, no seu sistema, elas têm um papel constituitivo.

Resumindo, pode se dizer que uma dedução transcendental é um argumento que estabelece uma relação entre um conceito e um domínio de objetos, mostrando que esse conceito é necessário para esse domínio de objetos e que portanto a sua aplicação neste domínio é legítima.

Bem é isso, quasiquer dúvidas favor comentem.

Dezembro 21, 2007

Bem vindos

Arquivado em: apresentação — alcvargas @ 8:14 pm

Isto é o quarto blog que faço em quatro anos de faculdade. Tomara que, com o último semestre começando em março, ele possa ser aquele que finalmente “cola”.

O primeiro foi feito em parceria com um amigo e acabou pouco depois da colaboração parar.
O segundo era um lugar onde eu escrevia, escrevia e escrevia minhas idéias, sem parar para ler nem corrigir o texto, com o resultado de que eu produzia textos confusos, imensos e desconexos, que nem eu lia.
O terceiro foi o único deles que pretendia ser um blog típico com fatos interessantes que se encontravam por aí, mas acontece que meu mundo não é lá tão interessante.

Agora, finalmente, faço um blog para expor minha filosofia e minhas leituras de outros filósofos de forma coerente, de modo que elas possam ser lidas e conhecidas por outros. Por isso, diferente dos meus dois outros blogs que fiz sozinho, somente escreverei em português aqui. E diferente do segundo blog, revisarei os posts antes de publicá-los e toda correção do sofrível português neles presente será bem vinda.

Para dar início efetivo a este blog, falarei sobre três dos meus filósofos favoritos que combinados dão uma boa idéia do meu gosto filosófico.

1. Alain Badiou

Alain Badiou é um filósofo francês cuja principal obra (O Ser e O Evento) eu descobri por acaso em uma feira do livro aqui em Brasília. O livro fisgou minha atenção por dois motivos:

Primeiro porque vi que tratava bastante de matemática, entrando em detalhes em demonstrações. Isso me atraiu bastante, pois depois da filosofia, a matemática é minha segunda grande paixão intelectual.

Segundo, porque se tratava de uma crítica a Heidegger, o que era extremamente oportuno. Na época eu estava extremamente imerso em Heidegger, principalmente no Ser e Tempo, mas eu também me encontrava bastante instaisfeito com a sua filosofia, como qualquer filósofo que aprecie a beleza de teoremas e a elegância dos sistemas. Como eu acabei me interessando tanto por Heidegger é uma questão um tanto misteriosa para mim e acho que eu talvez me sinta um pouco ludibriado por ele por causa disso. O assunto é complicado e talvez fale mais sobre isso num momento futuro.

De qualquer maneira, eu eventualmente acabei lendo O Ser e O Evento e adorei, não há filosofia que eu conheça onde haja uma aproximação tão grande entre filosofia e matemática sem que se perca em questões epistemológicas ou metamatemáticas de pouco alcance filosófico. A tese central do livro é extremamente simples: a matemática é a ontologia. A demonstração dela se leva a cabo na primeira parte do livro, sobre os fundamentos da teoria dos conjuntos. Na segunda parte ele se coloca o problema: qual é o ser da verdade? (aí que entra “o evento”). Nessa segunda metade ele discute a prova da indecidibilidade da hipótese do contínuo de Cantor. Falarei mais destas teses por aqui futuramente.

Depois d’O Ser e O Evento eu li quase todos os livros de Badiou que vieram após essa obra prima. Ele é sempre um mestre em filosofia, mesmo quando ele defende teses difícieis de engolir ele o faz com uma clareza e uma inteligência admiráveis. Especialmente bons são São Paulo: A Fundação do Universalismo e Manifesto pela Filosofia, entre outros.

2. Olavo de Carvalho

Eu comecei a me interessar pelo pensamento de Olavo de Carvalho após ler seu Jardim das Aflições, por pura curiosidade, em maio deste ano. Antes disto eu apenas conhecia alguns artigos jornalísticos dele onde ele tocava em algum assunto filosófico e que me deixavam (e ainda deixam) extremamente irritado, pela rapidez com que Olavo fazia os saltos argumentativos mais questionáveis, para que o texto pudesse ser compreendido por um público maior.

Após o Jardim minha avaliação de Olavo mudou completamente e desde tenho a maior admiração por esse homem. Ele é um exemplo de escritor, onde a especulação filosófica e a erudição andam lado a lado com a fluidez do texto e um senso de humor impecável. Ele é um exemplo de argumentador (nos seus livros ao menos), avançando claramente suas teses e seus passos argumentativos e sempre atentando para não abandonar o solo da sensatez. Por fim ele é um exemplo de filósofo, pela sua capacidade de construir uma visão integrada e abrangente da realidade e ensinadno a qualquer um que o leia, o difícil caminho de chegar até ela.

Olavo me influenciou menos por quaisquer teses filosóficas específicas, mas mais pela orientação filosófica geral que ele advoca. Antes do Olavo, por exemplo, eu costumava a enquadrar a minha rejeição das antifilosofias e sofísticas contemporâneas em termos da necessidade de uma revolução dentro da filosofia contemporânea, enquanto agora eu a caracterizo a partir da necessidade de abandonar certas pretensões absurdas destas filosofias. A unica parte da minha compreensão da realidade em que o Olavo teve uma influência mais específica foi minha visão política: eu, que antes era mais ou menos apolítico, que me definia mais pela minha aversão ao marxismo, agora tenho uma boa base a partir da qual posso me dizer um conservador.

3.Immanuel Kant

Kant está aqui representando não só ele mesmo, mas também todos os filósofos geniais que o seguiram como Beck, Maimon, Fichte, Schelling e Hegel. Esses filósofos, geralmente conhecidos em bloco como idealistas alemães ou idealistas pós-kantianos, todos desenvolveram uma série de temas kantianos acerca dos quais ainda falarei bastante, como a idéia de uma dedução transcendental dos conceitos, a noção de uma fundação sistemática da filosofia, uma tópica transcendental que situasse todos os principais elementos estruturantes da vida humana no seu lugar, a defesa da liberdade humana e sua posição no centro da filosofia. Não há coisa mais bela na filosofia que um bom sistema idealista.

Bem é isso por hoje, espero que vocês se sintam em casa neste blog para perguntar, exigir e comentar o que quiserem.

Até mais.
Tópicos Futuros:
O que é uma dedução transcendental?
Porque Hegel não é um revolucionário.
Um sistema filosófico.
A fragilidade da metafísica sensualista.
Filosofia transcendental e ateísmo.

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