Hegel as a Boy

Agosto 31, 2009

Rascunho do Argumento e Palestra

Arquivado em: Uncategorized — alcvargas @ 7:16 pm

Esbocei agora, no último mês, para a ocasião de uma palestra dada na UFG, com maiores detalhes o argumento prometido no post “Programa”, sobre o sol e analogia da visão. O esboço está em inglês e preferi postá-lo logo, porque para que traduzi-lo para só então lhe preencher as partes faltantes? O esboço traduzido será o artigo completo. Tanto o esboço quanto a palestra estão disponíveis no 4 shared.

Palestra: A Estética de Alain Badiou e a Pintura

Texto: Esboço de Argumento: (da visão ao fundamento da realidade.)

Julho 20, 2009

Parte IV: Sobre o Um e o Múltiplo

Arquivado em: Uncategorized — alcvargas @ 10:40 am

A metafísica de Deleuze postula que só há multiplicidades. Por postular apenas multiplicidades, ela se diz monista, pelas multiplicidades, pluralista. O monismo consiste na unidade própria às potências que vimos na parte II – uma unidade sempre correlativa à pluralidade regrada da objetividade, malgrado a insistência de Deleuze em ter os objetos como posterior às potências. Essa correlação foi estudada com mais atenção em posts anteriores a essa série, dedicados ao conceito de virtualidade.

As duas formas de pluralidade são não só correlativas, mas também ambas estão fundamentadas na unidade – um fato já demonstrado por Platão. Por um lado, as propriedades dos objetos, para que lhe sejam absoluta e não relativamente atribuídas, devem ser reconduzidas a sua realidade transcendente, o que é feito por meio da  busca pela forma una – a forma é o sinal da transcendência*; por outro, na consideração da multiplicidade pura, vê-se que nenhum objeto se apresenta – o que indica que a pluralidade dos objetos não pode estar fundamentada numa multiplicidade pura, mas apenas numa unidade pura.**

*Eis aí a teoria das formas, não só platônica, que reconduz as propriedades às várias formas inteligíveis, mas a aristotélica também, que as fundamenta na forma inteligível do objeto mesmo.

** Ver as deduções do Parmênides com respeito aos “outros” sob a hipótese “o um não é”.

É possível compreender não só a dependência da pluralidade, mas também sua produção a partir do um. A unidade pura contém tudo que uma coisa é – por exemplo, a forma singular é de um modo simples, o que uma singularidade é de modo temporal e composto. Essa simplicidade envolve, portanto, inúmeros predicados. Um ser humano é um animal racional e um ser humano singular é um animal, nascido de certos outros animais, em determinado lugar e hora, sob determinado céu, e é racional, possui certas crenças, uma dada linguagem, um caráter moral singular. A unidade intrínseca desse ser humano contém tudo isto – mas como poderia, se a unidade deve ser simples e não composta, se ela não é apenas uma reduplicação da aparência na essência – mas como que isto poderia não ser o caso, se todos estes atributos devem ser atribuídos á pessoa-ela-mesma?

A resolução é simples. Na contemplação da unidade pura e de seu envolvimento da realidade, contemplamos dentro dela uma pluralidade unificada, a objetividade, a qual não é auto suficiente, mas aponta para seu fundamento na unidade – a unidade é causa da objetividade, não sua semelhança e o que vemos na simplificação das propriedades objetivas é sua produção pela unidade.

Também, a unidade, contendo em si de modo simples a totalidade das coisas reais, ao mesmo tempo exclui de si toda a multiplicidade. Logo, a apreensão da unidade é ao mesmo tempo a intuição da multiplicidade pura no seu vazio de coisas, isto é, sua falta de unidades regradas. A unidade dá origem à multiplicidade no seu vazio próprio.

Assim, por exemplo, de onde provém minha intuição das minhas potências, do campo de experiências* que posso alcançar? É a apreeensão de mim mesmo, enquanto sujeito idêntico de todas estas experiências. A visão não é uma potência por ser um momento do fluxo da experiência – afinal de contas, não se entra duas vezes no mesmo rio e o que ficou para trás não é uma potência do rio, mas um momento passado seu. Só há sentido em falar de potências quando o campo da experiência estiver ancorado na identidade de um ser humano real, que pela sua identidade perpassa o campo, impedindo que as partes caiem no nada e roubando lhes qualquer subsistência própria, as tornando potências do sujeito. Portanto, a minha unidade dá origem à multiplicidade das minhas potências no seu vazio próprio.

(*tanto no sentido intencional, experiências de ver, pensar, sentir isto ou aquilo quanto no sentido corporal, a experiência de subir uma montanha, de se encontrar com os pais, de viajar de avião – todas estas experiências são potências minhas, da mesma forma que tanto visão quanto o movimento são faculdades.)

E como se relacionam a unidade, a pluralidade (a objetividade) e a multiplicidade, quando vistos em conjunto? A unidade, contendo toda a realidade, é o fundamento do conteúdo objetivo. Tanto a unidade enquanto tal, quanto o conteúdo, esgotam a coisa real. Abarcando toda a realidade, a unidade e sua expressão dão origem à potência própria da realidade, a realidade não-objetiva da multiplicidade. Não há aqui duas produções da multiplicidade, pois é uma única realidade que é esgotada.

Não há, no entanto, uma superioridade do conteúdo objetivo sobre a potência. Afinal de contas, o que será o conteúdo objetivo senão uma determinação da potência? Se a potência isolada é vazia, o conteúdo isolado é uma expressão inaudível. Assim, se o conteúdo, por um lado, participa do esgotamento da realidade pela unidade, sua ditinção (a pluralidade regrada) nada seria, colocada fora das potências reveladas nesse esgotamento. Isso também indica em que sentido a multiplicidade deve ser considerada vazia: ela é a vazia de coisas, mas não de realidade. Muito pelo contrário, ela também possui toda a realidade, mas ela não a circunscreve na unidade, mas a distribui na potência e na multiplicidade.

A realidade vem da unidade e é apresentada por meio da objetividade na multiplicidade, essa seria uma fórmula adequada. Não coincidentemente, essa fórmula é também uma fórmula usada para caracterizar a unidade da ação de Deus no cristianismo “Tudo vem do Pai, por meio do Filho, no Espírito Santo”. E assim como no cristianismo, embora a unidade da apresentação seja compreensível, as relações de origem permanecem um mistério. Pois afinal, nos argumentos acima pelos quais tentei mostrar que a objetividade a potência estavam fundamentadas na unidade, tive sempre de partir de alguma coisa já dada e conduzi-la à unidade: como é possível que a unidade produza a multiplicidade me permanece um mistério. A metáfora do esgotamento da realidade pela unidade levaria à negação de qualquer realidade à multiplicidade, caso esta não tivesse sua realidade já atestada pela experiência.

A questão metafísica de fundo, portanto, diz respeito à Trindade como fundamento da realidade. É nela que encontramos o equilíbrio próprio entre a unidade, a pluralidade e a multiplicidade, evitando o dualismo sem relegar os objetos ao estatuto de coagulações dos fluxos de devires. Com isso encerro essa série – talvez eu escreva mais, mas não garanto. Há tanto que eu poderia escrever com proveito: poderia retomar, a partir deste fundamento trinitário, a análise da má-fé e do desejo pelo transcendente, vendo como elas refletem uma metafísica errônea; poderia continuar a análise metafísica, mas do ponto de vista da possibilidade-imanência-atualidade em vez de potência-transcendência-objetividade; poderia retomar a unidade do ser humano na ação e na razão e mostrar como elas se integram num único sistema de faculdades que mantém a unidade dessas duas unidades. Muita coisa, me assombro. E infelizmente, eu tenho outras responsabilidades na minha vida.

Presente: artigo explicando os devires em Deleuze com a explicação da transubstanciação da eucaristia em Leibniz.

Julho 17, 2009

Parte III: Sobre o Desejo

Arquivado em: Uncategorized — alcvargas @ 9:39 am

Quanto ao desejo, é certo que Deleuze o trate de forma diferente do enunciado – afinal, o enunciado é um produto final do processo da razão, enquanto o desejo é apenas a preparação para a ação – eu percebo algo e daí o enuncio, eu desejo algo e daí o obtenho. No entanto, isso não significa que a divisão do sujeito pelo desejo realmente aconteça: assim como nenhum enunciado exemplar divida o sujeito, ninguém deseja um bem transcendente, ou melhor, desejar um bem transcendente é um óbvio caso de uma visão moral invertida.

Esse ponto é muito importante, porque o desejo pelo X além do nosso alcance, que nunca podemos alcançar direito, que passaremos nossa vida inteira buscando, é um clichê não só da filosofia contemporânea, como da vida contemporânea em geral. É uma idéia que está presente em quase toda página que Zizek escreve e também que está por trás da imagem estereotípica do casamento como a descoberta do “escolhido”. Também há outras imagens, a imagem do filósofo que muda de sistema a vida inteira a cada vez tentando finalmente conseguir o sistema perfeito, há a imagem do artista que passa a vida inteira tentnado fazer a obra perfeita etc… Enfim, a mesquinharia do gênio na concepção popular.

Mas todas essas imagens são deturpações. O transcendente não pode ser objeto do nosso desejo e por isso mesmo não devemos desejá-lo para permancecer sãos. Eu mesmo fui vítima de um tal desejo absurdo durante uma boa parte do meu engajamento com a filosofia. Eu tinha essa vontade, de conseguir construir um sistema perfeito, que englobasse toda a realidade. Mas daí um dia eu percebi que a reflexão do todo em cada parte e vice versa nunca encontraria um ponto de parada – toda vez que o sistema se fechasse, ele se revelaria como sendo apenas mais um elemento numa unidade maior e cada elemento do sistema poderia ser decomposto, levando a outras especificações. Na época eu expressei isso dizendo “o idealismo é uma doença espiritual”.

De fato, se o sistema se reflete em todas as suas partes, então é possível começar de qualquer parte – não há começos absolutos, nem princípios absolutos aos quais finalmente se chega. É errado até dizer que se começa, pois não há aqui uma direção não se está indo para nenhum lugar. O que é o pensamento sistemático então? É a inclusão de qualquer coisa na totalidade da realidade – é uma forma de cartografia e as várias ferramentas sistemáticas são as quatro cores necessárias. Mas a minha presença na realidade não é algo que eu preciso buscar – é algo permanente, não preciso desejar isso.

Aqueles momentos mágicos de descoberta que fazem parte da filosofia: “Sim, olha, é assim que as coisas são, mas como sou burro, por que não vi isso antes? Veja só, que conexão intíma, que diferença crucial, que lindo!” Esses momentos não são prévias de uma visão arrebatadora do sistema completo, mas momentos de experiência aguda da realidade que sempre está lá. Se de repente, descubro um contra-exemplo que derruba tudo que venho pensando por não-sei-quantos meses – nenhuma catástrofe, afinal a realidade continua lá. A vida não é nem será consumada em uma grande Obra, seja ela alquímica, filosófica ou o que quer que seja. O propósito da vida filosófica não é a produção de um grande tratado de filosofia, nem mesmo de uma grande filosofia, mas simplesmente a vivência desta presença perante a realidade.

É a mesma coisa com o amor: é um absurdo desistir de um amor real em nome de um amor perfeito que se busca – o que é preciso entender é que existe outra pessoa que te ama e ver o que é possível e o que se deve fazer em cada momento vivendo na presença deste amor. O amor não é o desejo – o amor é uma relação com algo real, algo que está presente, o desejo é uma força passageira que nos leva á ação.

A satisfação do desejo na ação não é um prazer passageiro, não há na ação dois personagens, o agente que a faz tendo em vista um bem inatingível e o agente que a leva a cabo e experimenta o prazer. Na ação entramos para o campo da imanência, para o terreno do <<aqui>> (que pode se expandir para incluir toda a Terra) e do <<agora>> (que igaulmente pode se referir a gerações), onde “pelos frutos os conhecereis” – quando eu levo a cabo uma ação real (não com uma mera possibilidade nem como uma mera potência), eu realmente a levo a cabo, fui eu quem a fiz, eu que sou responsável – não é possível que eu entre numa situação e fique de corpo fora, se eu enquanto policial prendo alguém, eu não posso me justificar dizendo “ah bem, a lei me obriga”. Que isso! Se eu não era o que queria, então que eu evitasse a situação. Mas agora eu fiz e agora eu sou responsável. É claro, eu faço coisas que eu não quero, mas eu preciso admitir que essas coisas são uma parte de mim eu não posso me afastar delas me dividindo em dois, numa parte obediente e noutra parte incontrolável!

Vejamos, então, o que é o desejo. Eu estou aqui no mundo, num lugar determinado na ordem das coisas – estando na realidade eu estou sempre presente às outras coisas da realidade – quem eu amo, a realidade, as coisas à minha volta, Deus etc… – todos estas realidades não são objeto de desejo, mas são realidades com as quais convivo. Minha posição na realidade e minhas múltiplas relações determinam as minhas potências e minhas propriedades objetivas. Minhas potências se abrem para as inúmeras possibilidades que eu posso realizar, e minhas propriedades determinam minha aptidão e tendência para realizar essas possibilidades – uma dessas tendências é justamente o desejo, outra é o medo, por exemplo. E essas tendências desembocam e minhas possibilidades se realizam justamente na ação, onde eu me lanço para dentro dentro da ordem do mundo e assumo minha posição nela.

(É claro, o relato acima é unilateral – é totalmente focada no ser humano – mas o complementar de maneira alguma inroduziria um elemento de desejo pelo transcendente)

O que há então é apenas uma pessoa que assume seu lugar na ordem das coisas pela ação. A divisão que existe no desejo é a divisão entre as possibilidades reveladas pelo desejo e o impulso real do desejo que queima dentro do agente. Pode até ocorrer aqui uma divisão entre o ser-humano projetado, as possibilidades de vida que vejo diante de mim e o ser humano atual que enfrenta a situação – mas tal divisão é resolvida na unidade da ação.

Mas e o bem supremo, que os filósofos dizem que sempre estamos buscando? Ora, o bem supremo é a boa vida. E a vida não se busca, se vive. Quando alguém busca um objeto transcendente, é porque sua vida se tornou um objeto para ela: ela imagina um fato que seria a culminação da vida dela, que seria sua realização completa e diz para si mesmo “quando isso for uma realidade, daí eu terei vivido”. A pobre pessoa, no entanto, esquece que ela continuará vivendo depois deste pobre ato, que se esse ato der certo e realizar a vida dela, será apenas se ele lhe fazer perceber que a vida continua, que a vida é real, que na realidade o ato mesmo não era nada, era apenas a escada inútil que deve ser jogada fora depois de escalada, uma vez que se percebeu que nunca houve uma altura para escalar.

Pois de fato, quem faz de sua vida um objeto que ela deseja realmente se mete na enrascada do desejo que Deleuze descreve. Em vez de ser vivida, a vida é contemplada como o Bem Transcendente. O sujeito, como não vive, mas contempla a sua própria vida, se torna um sujeito transcendental sem substância. A pessoa, no entanto, continua vivendo, então ela também é um sujeito empírico e continua a progredir com uma variedade de planos, mas esses sucessos só podem ser “pequenos prazeres” que a mantém viva enquanto ela espera o grande dia em que ela gozará da posse do bem transcendente, um gozo que só será perfeito se ela acabar morrendo no mesmo instante, porque se não ele vai passar e ela vai ter que cair na real.

O sujeito dividido do enunciado e do desejo é dividido não porque ele tem razão e vontade, mas porque ele não está bem da cabeça, ele quer as realidades transcendentes pensadas pela razão e ele pensa sobre a vida que ele deveria viver. Não há a mínima necessidade de abdicar do transcendente como Deleuze quer, submergindo tudo dentro de um monismo imanentista. No próximo post, abordarei o dualismo que Deleuza combate de uma perspectiva mais metafísica.

Julho 14, 2009

Parte II: Sobre os Enunciados

Arquivado em: Uncategorized — alcvargas @ 9:26 am

Agora, é simples ver que há algo de muito errado com essa concepção de enunciado, uma vez que a má-fé não é o paradigma da crença, mas justamente sua perversão. Pois se eu realmente acredito em alguma coisa, eu acredito que essa coisa é real – ou seja quando eu faço um enunciado qualquer e o assumo plenamente, eu e o objeto da minha afirmação estamos colocados no mesmo plano, sob o mesmo aspecto. Assim, o enunciado de uma verdadeira crença não introduz nenhuma divisão entre o sujeito de enunciação e o sujeito do enunciado. Quando digo “eu sou um filósofo”, ao mesmo tempo determino o que sou e reconheço o que sou. Não há diferença aqui entre a crença de ser filósofo e o ser-filosófo, uma vez que a crença é verdadeira. No caso de crenças falsas, o caso é diferente, mas a falsidade é a exceção e não a regra.

De fato, a divisão entre o sujeito e o objeto que os coloca em planos diferentes não pertence à razão com seus conceitos e enunciados, mas à percepção e à intuição. Aqui, de fato, quem percebe experimenta sua percepção como fazendo parte de uma progressão continua de vida, apenas uma potência entre muitas, enquanto o que é percebido não é conhecido para além do modo como ele determina estas potências, de suas características independentes que regem o fluxo de percepções. Aqui o sujeito intui a sua própria percepção e se intui como sujeito-de-potências, enquanto o objeto é tomado como um mero nexo de percepções, independente do sujeito, porém não sendo nada em si mesmo, além da percepção. É por isso que na percepção ainda não há juízo, mas há experiência.

Assim na percepção de meu próprio corpo, no espelho por exemplo, pode de fato ocorrer uma divisão, uma divisão que pode até permanecer no nível coporal: meu corpo, enquanto o corpo que eu movimento pelo mundo e experimento este mundo vs. meu corpo, essa coisa aí, com tais propriedades, como ter pele clara, ou cabelo grande. É claro que na nossa percepção estes “dois corpos” são diferenciados. Senão nunca precisaríamos nos acostumar com a nossa imagem no espelho depois de um corte de cabelo diferente, por exemplo.

Cindido pela nossa visão, nosso corpo é conservado na nossa razão. Quando eu formulo o juízo “meu cabelo está grande demais, eu preciso ir ao cabeleleiro”, eu estou me referindo a mim mesmo, a uma e mesma pessoa com seu um e único corpo. Pode até ser que eu seja um preguiçoso e que eu me contente com minha divisão imaginária entre meu corpo-de-potências e meu corpo-objeto, não dando bola para o meu cabelo até que ele fique grande ao ponto de atrapalhar a minha visão. Nesse caso eu ignoro um aspecto da realidade que julgo superficial até o último momento, mas quando for a hora de fazer um juízo e integrar esse aspecto no meu sistema de crenças, eu tenho que jogar fora essa divisão postulada pela percepção. A minha crença tem de ser tão parte de mim quanto o meu cabelo que preciso cortar e, em certo sentido, posso até dizer que ela é (uma parte de) o meu cabelo.

 O enunciado então, traz a unidade e não o dualismo entre “ser um” e “ser múltiplo”. E se olharmos bem a divisão entre potência e independência própria à percepção, veremos que lá há tampouco esse dualismo, mas, se muito, uma diferença entre multiplicidade e pluralidade. O que é a percepção? É a apresentação dos objetos dentro das potências do ser humano. Cada objeto é uma coisa, mas ele não é a unidade pura. Muito pelo contrário, ele tem vários traços unificados. Cada objeto é uma pluralidade unificada. Minhas percepções são percepções de um mundo ordenado porque são percepções de pluralidades regradas. Tomadas em si mesmas, apenas enquanto potências minhas, minhas percepções poderiam seguir uma ordem qualquer, como elas de fato agem nos sonhos. Isolada, a potência do sujeito é uma pura multiplicidade. Há uma unidade pela continuidade das percepções, mas essa continuidade não diz que há alguma unidade subsistente aqui (como queria Descartes), apenas que das percepções se passam sempre a mais percepções.

Assim, nem na percepção há o dualismo entre ser-um e ser-múltiplo. A potência do sujeito e a objetividade do percebido tem a unidade como um ponto em comum, eles se diferenciam como a unidade do múltiplo puro, a continuidade, e a unidade da pluralidade, a regra. A relação entre o um, o múltiplo e a pluralidade é o pano de fundo metafísico deste texto do Deleuze, mas isso fica para depois do tratamento do desejo.

Julho 10, 2009

Parte I: Sobre Deleuze

Arquivado em: Uncategorized — alcvargas @ 7:03 pm

Obrigações de estudo me mantiveram afastado do blog nos últimos meses e a situação talvez continue nos próximos. Para que esse troço não morra de vez, algumas reflexões a partir de uma transcrição de uma aula do Deleuze que encontrei num acervo muito legal de textos.

(Essas reflexões geraram um texto um tanto longo que serã quebrado numa série de posts. Neste primeiro, apresento um resumo do texto de Deleuze.)

Deleuze insiste ao longo de sua fala que qualquer enunciado divide o sujeito em dois: “o sujeito da enunciação”, quem fala, e “o sujeito do enunciado”, de quem se fala. Essa divisão do sujeito estaria já presente em Descartes: a divisão entre o eu que pensa e que, por isso, pode ter sua existência intuída, e o eu que está andando, trabalhando, etc… cuja existência é duvidosa e precisa ser fundamentada. Deleuze não discorda dessa análise cartesiana do enunciado, muito pelo contrário, ele está tão convicto de que o enunciado envolve a divisão do sujeito que ele quer escapar desta divisão apelando para a tese de que “não existem enunciados individuais”.

Deleuze diagnostica um problema análogo com os desejos. O desejo também divide o sujeito: desejo é falta de alguma coisa, ele tem uma referência intrínseca a um objeto que o transcende e por isso só pode ser satisfeito temporariamente por prazeres, que são “descargas” temporárias, mas nunca a obtenção do objeto mesmo. O sujeito está dividido então entre os prazeres temporários que ele consegue e o bem transcendente que ele busca, ou no caso dele realmente conseguir esse bem, entre as descargas temporárias e o gozo final. O sujeito está preso pelo desejo na redoma formada pela falta de realidade própria do desejo, pelo prazer e pelo gozo.

Um encurralamento semelhante ocorre dentro do enunciado: lá o sujeito é preso entre o sujeito da enunciação, o cogito certo porém vazio, o sujeito do enunciado, determinado porém duvidoso, e Deus, que não é Descartes. Há uma diferença no tratamento que Deleuze dá aos dois casos: enquanto ele critica os enunciados enquanto tais, ele se llimita, de vez em quando, a somente criticar uma certa compreensão do desejo e não os desejos enquanto tais. Por outro lado ele diz que “todo desejo é um enunciado, todos os enunciados sao desejos”.

E por que os enunciados e os desejos são detestados por Deleuze? Primeiro, porque eles matam o pensamento, o relacionando sempre a um sujeito dividido entre o sujeito da enunciação e o sujeito do enunciado. Essa divisão é a introdução do dualismo, que nivela todos os enunciados do pensamento na sua oposição entre os predicados “ser um” e “ser múltiplo”, uma nivelação que impede o /processo/ do pensamento. Aqui a unidade do enunciado provém do sujeito de enunciação enquanto a sua multiplicidade é assinalada pelo sujeito do enunciado. Além disso, Deleuze crê que estas divisões estejam por trás de um exercício hipócrita do poder, exemplificada na má-fé: “Eu te compreendo enquanto cidadão (ou seja, enquanto um sujeito de enunciação da lei), mas, enquanto policial, preciso te prender (ou seja, enquanto sujeito do enunciado da lei)”. E assim há uma justificativa geral do poder que pode ser formulado “já que somos todos sujeitos de enunciação, vamos simplesmente aceitar o que é enunciado.”

Em que medida estas concepções de enunciado e desejo podem ser sustentadas será o assunto dos próximos dois posts.

Maio 13, 2009

Programa

Arquivado em: Uncategorized — alcvargas @ 2:03 pm

Estive ocupado durante abril, assim não pude divulgar minhas intuições tão rapidamente quanto gostaria – agora retomo a exposição, por achá-la importante, mas devo admitir, sem o mesmo ânimo que antes me movia. É importante que eu escreva isso, que eu me force a colocá-la em frases e parágrafos, para verificar a solidez lógica da coisa toda e é claro, para que ela fique aqui à disposição, porque talvez assim eu conheça alguma outra pessoa no mundo que se interesse por questões transcendentais. Estas são as razões para qualquer post daqui.

Hoje, no entanto, o post está meio programático.

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“Os transcendentais (o ser, a consciência etc…) podem ter sua realidade explicada se decompormos as faculdades pelas quais eles são percebidos numa relação entre o ser humano e uma outra inteligência.” Essa foi a proposta do último post, sugerida por uma analogia da faculdade da visão. Para que ela possa ser executada é preciso que os seguintes prepearativos sejam feitos:

1. A analogia será cumprida se for possível apresentá-la no caso específico da visão do pintor, que vê na imagem luminosa da coisa a apresentação da coisa real na sua integridade. A inteligência do artista se encontra mergulhada na sua visão de modo que ele é capaz de coma luz e a cor apresentar a realidade enquanto tal. Deste modo, o que se terá não é mais uma analogia entre a visão e a inteligência, mas uma coincidência. O artista não conhecerá o Sol como fonte de luz, mas como fonte de inteligibilidade enquanto tal.

(Será possível ir até além da analogia, investigando a experiência da inteligência integral e seus pressupostos. Isso nos levará numa direção teológica)

2a. É preciso explicar como uma faculdade/transcendental parcial pode apresentar a realidade enquanto tal como se ela fosse /a/ apresentação da realidade. Resposta resumida: cada faculdade precisa poder se ampliar até assumir a posição de uma “segunda inteligência” porque senão não seria possível que elas todas pensassem a mesma coisa real. Para que seja poddível pensar sobre uma coisa, e daí senti-la, daí simplesmente vê-la, é preciso que essa coisa real esteja completamente dada tanto na razão quanto no sentimento quanto na percepçào. É o problema do esquematismo em Kant (e também a raiz da imaginação criatriz em Corbin e da redução fenomenológica no século XX)

2b. Se for assim, preciso também de uma análise completa que deduza o sistema das faculdades e sua cooperação. Não basta as deduções que tenho apresentado até agora, que ligam uma faculdade a outro ou se baseiam na prévia aceitação do mesmo sistema sob outro aspecto. Não basta um ciclo infinito de hexeidades, seis personagens, seis faculdades, seis princípios etc… É necessária uma dedução a partir de um primeiro princípio, de uma unidade.

Resposta resumida: O princípio da explicação da realidade humana é sua compreensão como presença (1). A presença possui dois aspectos: a transcendência, pois cada coisa presente tem, possui certas propriedades e a imanência, pois as coisas presentes se manifestam uns para os outros. Assim temos que o ser humano é dotado da faculdade para a transcendência (a razão) e a faculdade para a imanência (a vontade) (2). É a mesma presença que é imanente e transcendente, é preciso portanto uma mediação entre as duas faculdades. Com análises locais do tipo que tenho feito até agora (como no texto Imanência, Possibilidade e Atualidade), deduz se as duas faculdades auxiliares da vontade (sensação e sentimento) e as duas da razão (intuição e entendimento) (3 + 3).  Mais um pouco e é constatada as conexões entre as faculdades auxiliares, formando um sistema completo da faculdade da inteligência (6!).

3. É preciso explicar claramente a relação entre as faculdades e os transcendentais: Porque abordar os transcendentias por meio de uma teoria das faculdades? Resposta resumida: porque ver o homem sob o aspecto das faculdades é vê-lo sob o aspecto de suas potências intelectivas, de sua presença virtual da apresentação. É aqui que o homem conhece algo que abrange toda a apresentação enquanto tal. Para mais informaçoes veêm os posts que tratam da virtualidade e do poder.

Esse é o plano, agora, terei que encontrar tempo para executá-lo.

A caixa de comentários está sempre a sua disposição.

Abril 11, 2009

A Decomposição da Visão

Arquivado em: Uncategorized — alcvargas @ 6:09 am

Nos próximos posts, buscarei expor uma série de intuições que tive outra noite meditando sobre o sol. Acredito que com elas eu finalmente consegui encontrar uma saída para o problema que tem me ocupado aqui no blog, o problema da realidade das apresentações transcendentais da realidade – o que são o ser, a consciência, a forma lógica, essas realidades que conseguem incluir a abarcar toda a realidade? O que é essa <<a realidade>> que tudo abarca, de onde ela retira sua realidade?

Essas perguntas me interessaram por sua conexão com o tema da liberdade da filosofia. Pois justamente, a filosofia de Heidegger consegue impor à filosofia a compulsão de pensar o ser em parte porque o ser é uma apresentação transcendental. A questão era descobrir porque o ser é capaz de se transformar nas mãos de Heidegger num fundo inevitável para o pensamento, que ele sempre apreende numa pré-compreensão e esquece no mesmo golpe. A questão de como pensar o ser de uma forma livre tinha como pressuposto investigar antes o que era o ser, que espécie de realidade que ele tinha.

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A questão da realidade da apresentação não é muito difícil de explicar. É algo muito simples, é algo que constatamos na nossa experiência visual. Eu vejo uma árvore. Eu, estando presente no mundo, vejo a árvore, que também está presente no mundo. Mas há algo mais: eu e a árvore ambos somos vísiveis, ambos estamos na luz. Ora estamos na luz, coloridos e ora estamos na escuridão, invisíveis no negro. A luz é algo real, com um conteúdo próprio. Então aqui estou: eu sou real, a árvore é real e a luz também é real. Mas em que sentido que ela é real? Como é que ela tem realidade?

A resolução da questão passa necessariamente pelo sol. De imediato, há a interpretação do Sol do meio dia: a luz é uma emanação do Sol, cujo próprio ser é se apresentar e trazer outras coisas para a apresentação visual. Mas o Sol se põe, nos abandona aos cuidados da lua e dos relâmpagos e do fogo – a realidade da luz não pode ser a sua realidade. Como o Sol concreto, então pode nos explicar a realidade da luz?

Quando o Sol está presente, ele ilumina as coisas. E nós, nos dirigindo às coisas no Sol, dentro de seu campo de ação, conseguimos vê-las. Ele, estando presente no céu sob o qual estão presentes todas as coisas, as ilumina para o homem. A realidade da luz se explica pelo Sol e por todas as outras fontes de luz, não na medida em que eles são a própria realidade da luz, mas na medida em que eles entram numa relação – a iluminação – com as coisas e numa outra, adicional, com o homem – a apresentação. O Sol ilumina as coisas e as apresenta para o homem. A relação da visão, pessoa-coisa, que deixava entre os dois termos um ‘-’ substancial, a luz, agora é decomposta numa relação triádica pessoa-Sol-coisa, onde toda a realidade está nos termos e a união carrega nenhum conteúdo próprio.

Mas que relacáo completamente transparente é essa? É a inteligência, é a apreensão da coisa real ela mesma e não segundo um determinado aspecto, como a sua visibilidade. Aqui a apreensão parcial da coisa pelo olho é decomposta na apreensão do Sol pelo homem e da coisa pelo Sol – o caráter determinado da apresentação visual, sua “parcialidade”, não é explicada por meio de uma realidade própria, mas pelo fato que ele é a visão integral, imparcial desta coisa determinada, o Sol.

Isto é a decomposição da visão e ela é o começo da resolução do problema da realidade das apresentações transcendentais. Já temos aqui o esquema elementar: as apresentações transcendentais serão explicadas em termos de uma comunidade de inteligências, incluindo no mínimo o homem e uma para cada uma das faculdades intelectivas do ser humano, cada uma responsável pelo conteúdo particular desta faculade. Quais, quantas e como são essas inteligências, bem como a fundamentação da expansão desta experiência do Sol ainda precisam ser explicadas.

Abril 6, 2009

O Sol e o Sol do meio dia

Arquivado em: Uncategorized — alcvargas @ 5:30 pm

Me desculpem, no último post eu fiz uma salada na minha fenomenologia do Sol, a qual preciso esclarecer prontamente antes de apresentar algumas idéias que me vieram ontem a noite enquanto eu meditava sobre o Sol.

No último post, eu disse duas coisas aparentemente contraditórias: (i) que o Sol “não era nada”, que ele era um vazio no nosso campo visual, que quando olhávamos para ele não viamos nenhuma coisa, apenas a luz pura e (ii) que era óbvio que em um único ato percebíamos o sol, a luz e nossa própria visão. Como foi que eu consegui dizer essas duas coisas? Será que eu estou simplesmente proferindo palavras para satisfazer alguma idiosincrasia sem consideração pela coisa mesma?

Nada disso. O que busquei fazer no último post foi desconstruir o que pode ser chamado de “o Sol do meio do dia”. Ele não é o Sol cujo trajeto vemos todo dia e sob o calor do qual trabalhamos, mas uma imagem filosófica que recorta o Sol no seu momento mais representativo, o meio dia. O Sol do meio dia se torna nas mãos dos filósofos uma poderosa imagem. Ele é a coisa cuja essência reside na iluminação, numa manifestação absoluta que faz com que todas as outras coisas sejam manifestas. A partir da imagem da manifestação luminosa, o filósofo pula para a manifestação enuqanto tal e a fundamenta numa realidade arqui-manifesta.

Como nos últimos posts eu combati essa posição a respeito da manifestação, eu quis também mostrar que essa imagem que a sugeria estava viciada. Por isso, eu sublinhei que o Sol só era conhecido como objeto por causa de suas relações: quando ele se esconde debaixo das nuvens e quando ele se movimenta pelo céu e faz ele mudar de cor, por exemplo. O Sol do meio dia, tomado de forma isolada, não pode ser uma realidade arqui-manifesta, mas apenas o vazio da apresentação pura, que não possui nenhuma realidade por-si.

O Sol do meio dia só está ancorado na realidade por ser um recorte do Sol concreto que nem sempre é arqui manifesta, mas se levanta no amanhecer, se esconde por trás das nuvens e se reflete no mar, se põe ao entardecer e à noite compartilha a iluminação do mundo com a lua, as estrelas, os relâmpagos e o fogo. A apreensão concreta do Sol mostra justamente que a manifestação não é nada por si e nem está fundada em algo que sempre está manifesto, mas é fruto da copresença das coisas, que se manifestam nas sua incessante interação, na dança dos astros e dos elementos.

Talvez dirão: mas isso também é um recorte, mas um recorte que favorece o “pior”: o Sol do meio dia é justamente a “melhor parte” do Sol, quando ele participa da “verdadeira realidade”, enquanto o Sol que se movimenta é apenas a parte sensível do Sol, que esconde sua natureza soberana. Mas é justamente por isso que coloquei a pergunta no último post: como é que a apresentação pura está fundamentada na coisa-em-si? A resposta provisória que dei foi que a coisa-em-si afirmando sua própria realidade e reiterando a irrealidade da apresentação pura, criava justamente esse brilho pura que é o Sol do meio dia. Se eu faço um recorte, ele é apenas provisório, a fim de exibir as articulações da totalidade.

No próximo post, meditações que partem do Sol concreto.

Abril 2, 2009

Sobre o Sol

Arquivado em: apresentação — alcvargas @ 7:20 am

the-sun2Quero neste post responder a uma objeção natural contra a idéia de que as coisas não são manifestas em razão de uma realidade arqui-manifesta. Essa objeção não é uma objeção lógica em sentido estrito, mas uma tensão entre essa idéia e um exemplo clássico de apresentação, a apresentação do mundo pela luz, a presença do mundo para o olho durante o dia. Nessa apresentação, parece que de fato, as coisas estão presentes em virtude da coisa mais presente, o Sol.

A centralidade da intuição do Sol para a cognição humana é uma tese da teoria da tripla intuição de Olavo de Carvalho. Segundo essa teoria, o ser humano pode saber que ele possui um conhecimento materialmente válido e não apenas logicamente válido porque ele possui a tripla intuição de (a) o Sol (b) a visão do Sol e (c) a luz que liga o Sol e minha visão dele. Essa intuição se diferencia da visão de um copo, por exemplo, pois a visão de um copo, embora venha acompanhada da consciência da própria visão, não traz consigo a intuição da conexão causal que conecta a visão ao objeto. A luz, no entanto, é ao mesmo tempo a conexão causal que liga o Sol ao olho e a condição da visão, e por isso a intuição da luz não pode deixar de estar presente na intuição do Sol. Na visão da fonte de luz, portanto, temos uma intuição que sabemos corresponder ao objeto.

Colocada desta maneira, a idéia parece ser de uma obviedade estonteante e é natural perguntar por que ela nunca foi apresentada antes. Olavo atribui isso ao fato de que a teoria do conhecimento nunca se deteve no exame da percepção deste corpo único que é a luz. Pois bem, nesse post eu gostaria de examinar a nossa visão do corpo associado, o Sol.

Desde pequenos nos acostumamos a ouvir sobre essa coisa no céu, esse objeto celeste, o Sol. Gostaria de investigar os fundamentos que existem para dizermos que o Sol é uma coisa que fica no céu, a uma distância enorme de nós. De fato, como sabemos que o Sol é uma coisa distante? Uma montanha distante parece pequena, tem cores não muito fortes e sua forma não é muito detalhada. Mas o Sol tem a luz mais forte que conhecemos, então esse critério não se aplica a ele. Como então, imaginamos uma fonte por trás desta explosão de luz que vemos no céu todo dia?

Um indício de sua distância é o fato de que o Sol sempre aprece detrás das nuvens, nunca na frente delas. Então ele está mais longe que todas as nuvens. Outro indício é o seguinte: quando ele se levanta, começa o dia e todas as coisas ficam iluminadas e quando ele se põe termina o dia e tudo cai no escuro. Então essa luz no céu se move, então deve ser um corpo, como todas as coisas que por aqui se movem. E ele deve ser um corpo bem distante para que ao brilhar ele consiga iluminar tanto. Bem distante e bem grande: a desproporção entre o tamanho do Sol ao olho nu e seu efeito luminoso sugere sua distância e seu tamanho verdadeiro.

Mas tudo isso são relações: estar atrás das nuvens, se levantar e se por, iluminar o mundo inteiro. Olhando para o Sol, efetivamente, não vejo um objeto distante. O Sol, visto sozinho, é apenas um furo branco no céu, uma região de luz pura onde não há coisa alguma. Onde está, então a coisa arqui-manifesta em virtude da qual todas as coisas são manifestas? O que vejo é um espaço de manifestação pura, de apresentação pura, sem que nada seja apresentado.

A coisa que ilumina a todas as coisas aparece enquanto a fonte de toda luz, até mesmo da luz pura que atravessa o céu. É sendo a fonte da luz pura que ele ilumina todo o resto. Mas não o conhecemos enquanto realidade, enquanto coisa, apenas enquanto fundamento da manifestação. A “objeção”, portanto, está desmontada: o sol não é a coisa arqui-manifesta em virtude da qual todas as coisas estão manifestas, mas o fundamento da luz pura.

Mas como é que ele é o fundamento da manifestação? Como é que a presença luminosa do mundo está fundamentada no Sol? Por meio da luz pura. Mas o que é luz pura, o que vemos quando olhamos para ela? Vemos a luz que deixa as coisas se apresentarem e nada mais. A luz pura é um vácuo visual que declara: não há nem-uma realidade na apresentação pura. Eis a intuição mais simples do que chamei a idealidade da apresentação.

O vazio da luz não é um furo no céu pelo qual o Sol despejaria sua luz para o resto do mundo, mas essa ausência é idêntica à luminosidade máxima. O fundamento, enquanto uma realidade que fundamenta a apresentação diz “o que é, é e o que não é, não é” – essa insistência no ser e esse vazio do nada são visualmente presentes por meio da luz pura, a qual em-si nada possui, mas que permite que todas as coisas reais aparecerem. O fundamento da apresentação a fundamenta justamente afirmando sua própria realidade e a idealidade da apresentação.

Entendo que esse post tenha sido um pouco obscuro. Por favor, não hesitem em deixar seus comentários, dúvidas, perguntas, pedidos etc…

Desculpa

Arquivado em: Uncategorized — alcvargas @ 5:32 am

Caros Leitores,

Devido a algum erro do WordPress ou da minha versão do Firefox, eu acidentalmente deletei 5 posts sem que nenhuma caixa de confirmação tenha aparecido para mim. Os posts eram: A Identidade, o Poder e o Virtual;  A Verdade e o Virtual;  A Imanência; A Imanência está aqui; A Imanência, a Possibilidade e a Atualidade. Graças a Deus pude copiá-los para documentos rtf. a partir da versão em cache do Google. Postei eles aqui no 4shared.com:

28 de Dezembro: Identidade, Poder e o Virtual

http://www.4shared.com/file/96332054/3c425ccd/A_Identidade_o_Poder_e_o_Virtual.html

2 de Janeiro: A Verdade e o Virtual

http://www.4shared.com/file/96331924/6e675e6b/Verdade_e_o_Virtual.html

22 de Janeiro: A Imanência

http://www.4shared.com/file/96331928/67d11240/A_Imanencia.html

23 de Janeiro: A Imanência está aqui

http://www.4shared.com/file/96331922/8704fb5e/A_Imanencia_est_aqui.html

10 de Fevereiro: Imanência, Possibilidade e Atualidade:

http://www.4shared.com/file/96331926/80693f47/Imanencia_Possibilidade_e_Atualidade.html

Desculpa pela inconveniencia.Em outras notícias, tenho um blog novo, tonhoberlinense, onde relato meu dia-a-dia em Berlim – já faz uma semana que estou morando na capital alemã – e o mês passado foi o melhor mês do blog em termos de visitação, melhor mesmo do que maio do ano passado, quando recebi uma tonelada de visitas graças a um link do Altamente Derivativo.

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