A metafísica de Deleuze postula que só há multiplicidades. Por postular apenas multiplicidades, ela se diz monista, pelas multiplicidades, pluralista. O monismo consiste na unidade própria às potências que vimos na parte II – uma unidade sempre correlativa à pluralidade regrada da objetividade, malgrado a insistência de Deleuze em ter os objetos como posterior às potências. Essa correlação foi estudada com mais atenção em posts anteriores a essa série, dedicados ao conceito de virtualidade.
As duas formas de pluralidade são não só correlativas, mas também ambas estão fundamentadas na unidade – um fato já demonstrado por Platão. Por um lado, as propriedades dos objetos, para que lhe sejam absoluta e não relativamente atribuídas, devem ser reconduzidas a sua realidade transcendente, o que é feito por meio da busca pela forma una – a forma é o sinal da transcendência*; por outro, na consideração da multiplicidade pura, vê-se que nenhum objeto se apresenta – o que indica que a pluralidade dos objetos não pode estar fundamentada numa multiplicidade pura, mas apenas numa unidade pura.**
*Eis aí a teoria das formas, não só platônica, que reconduz as propriedades às várias formas inteligíveis, mas a aristotélica também, que as fundamenta na forma inteligível do objeto mesmo.
** Ver as deduções do Parmênides com respeito aos “outros” sob a hipótese “o um não é”.
É possível compreender não só a dependência da pluralidade, mas também sua produção a partir do um. A unidade pura contém tudo que uma coisa é – por exemplo, a forma singular é de um modo simples, o que uma singularidade é de modo temporal e composto. Essa simplicidade envolve, portanto, inúmeros predicados. Um ser humano é um animal racional e um ser humano singular é um animal, nascido de certos outros animais, em determinado lugar e hora, sob determinado céu, e é racional, possui certas crenças, uma dada linguagem, um caráter moral singular. A unidade intrínseca desse ser humano contém tudo isto – mas como poderia, se a unidade deve ser simples e não composta, se ela não é apenas uma reduplicação da aparência na essência – mas como que isto poderia não ser o caso, se todos estes atributos devem ser atribuídos á pessoa-ela-mesma?
A resolução é simples. Na contemplação da unidade pura e de seu envolvimento da realidade, contemplamos dentro dela uma pluralidade unificada, a objetividade, a qual não é auto suficiente, mas aponta para seu fundamento na unidade – a unidade é causa da objetividade, não sua semelhança e o que vemos na simplificação das propriedades objetivas é sua produção pela unidade.
Também, a unidade, contendo em si de modo simples a totalidade das coisas reais, ao mesmo tempo exclui de si toda a multiplicidade. Logo, a apreensão da unidade é ao mesmo tempo a intuição da multiplicidade pura no seu vazio de coisas, isto é, sua falta de unidades regradas. A unidade dá origem à multiplicidade no seu vazio próprio.
Assim, por exemplo, de onde provém minha intuição das minhas potências, do campo de experiências* que posso alcançar? É a apreeensão de mim mesmo, enquanto sujeito idêntico de todas estas experiências. A visão não é uma potência por ser um momento do fluxo da experiência – afinal de contas, não se entra duas vezes no mesmo rio e o que ficou para trás não é uma potência do rio, mas um momento passado seu. Só há sentido em falar de potências quando o campo da experiência estiver ancorado na identidade de um ser humano real, que pela sua identidade perpassa o campo, impedindo que as partes caiem no nada e roubando lhes qualquer subsistência própria, as tornando potências do sujeito. Portanto, a minha unidade dá origem à multiplicidade das minhas potências no seu vazio próprio.
(*tanto no sentido intencional, experiências de ver, pensar, sentir isto ou aquilo quanto no sentido corporal, a experiência de subir uma montanha, de se encontrar com os pais, de viajar de avião – todas estas experiências são potências minhas, da mesma forma que tanto visão quanto o movimento são faculdades.)
E como se relacionam a unidade, a pluralidade (a objetividade) e a multiplicidade, quando vistos em conjunto? A unidade, contendo toda a realidade, é o fundamento do conteúdo objetivo. Tanto a unidade enquanto tal, quanto o conteúdo, esgotam a coisa real. Abarcando toda a realidade, a unidade e sua expressão dão origem à potência própria da realidade, a realidade não-objetiva da multiplicidade. Não há aqui duas produções da multiplicidade, pois é uma única realidade que é esgotada.
Não há, no entanto, uma superioridade do conteúdo objetivo sobre a potência. Afinal de contas, o que será o conteúdo objetivo senão uma determinação da potência? Se a potência isolada é vazia, o conteúdo isolado é uma expressão inaudível. Assim, se o conteúdo, por um lado, participa do esgotamento da realidade pela unidade, sua ditinção (a pluralidade regrada) nada seria, colocada fora das potências reveladas nesse esgotamento. Isso também indica em que sentido a multiplicidade deve ser considerada vazia: ela é a vazia de coisas, mas não de realidade. Muito pelo contrário, ela também possui toda a realidade, mas ela não a circunscreve na unidade, mas a distribui na potência e na multiplicidade.
A realidade vem da unidade e é apresentada por meio da objetividade na multiplicidade, essa seria uma fórmula adequada. Não coincidentemente, essa fórmula é também uma fórmula usada para caracterizar a unidade da ação de Deus no cristianismo “Tudo vem do Pai, por meio do Filho, no Espírito Santo”. E assim como no cristianismo, embora a unidade da apresentação seja compreensível, as relações de origem permanecem um mistério. Pois afinal, nos argumentos acima pelos quais tentei mostrar que a objetividade a potência estavam fundamentadas na unidade, tive sempre de partir de alguma coisa já dada e conduzi-la à unidade: como é possível que a unidade produza a multiplicidade me permanece um mistério. A metáfora do esgotamento da realidade pela unidade levaria à negação de qualquer realidade à multiplicidade, caso esta não tivesse sua realidade já atestada pela experiência.
A questão metafísica de fundo, portanto, diz respeito à Trindade como fundamento da realidade. É nela que encontramos o equilíbrio próprio entre a unidade, a pluralidade e a multiplicidade, evitando o dualismo sem relegar os objetos ao estatuto de coagulações dos fluxos de devires. Com isso encerro essa série – talvez eu escreva mais, mas não garanto. Há tanto que eu poderia escrever com proveito: poderia retomar, a partir deste fundamento trinitário, a análise da má-fé e do desejo pelo transcendente, vendo como elas refletem uma metafísica errônea; poderia continuar a análise metafísica, mas do ponto de vista da possibilidade-imanência-atualidade em vez de potência-transcendência-objetividade; poderia retomar a unidade do ser humano na ação e na razão e mostrar como elas se integram num único sistema de faculdades que mantém a unidade dessas duas unidades. Muita coisa, me assombro. E infelizmente, eu tenho outras responsabilidades na minha vida.
Presente: artigo explicando os devires em Deleuze com a explicação da transubstanciação da eucaristia em Leibniz.